Prefeitura de Aparecida de Goiânia - Pra Frente Aparecida
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Neymar, aos prantos após a partida, fez sua "última dança" pela seleção (Foto: Reprodução/CazéTV)

Neymar, aos prantos após a partida, fez sua "última dança" pela seleção (Foto: Reprodução/CazéTV)

Neymar, aos prantos após a partida, fez sua "última dança" pela seleção (Foto: Reprodução/CazéTV)

Neymar, aos prantos após a partida, fez sua "última dança" pela seleção (Foto: Reprodução/CazéTV)

O Brasil que deixou de assustar

O Brasil que deixou de assustar

Eliminação contra Noruega confirma aquilo que especialistas do mundo da bola já diziam: a seleção brasileira não dá medo a mais ninguém

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Crônica

O Brasil mais uma vez não superou uma seleção europeia em fase final de Copa do Mundo. A derrota por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas, manteve de pé um fantasma que já ultrapassa 24 anos. Em 2030, se nada mudar, serão 28 anos sem títulos mundiais. Um dos maiores vazios da história da seleção pentacampeã.

Além do jogo, o Brasil perdeu de vez a oportunidade de mostrar que ainda sabe ser temido. A camisa segue pesada, as cinco estrelas seguem no peito, mas os adversários já não parecem entrar em campo como quem pisa em território proibido. E isso tudo parece que se esvai em meio ao passar do tempo.  

Foi nesse ambiente de ressaca que o professor Lisandro Nogueira fez uma síntese incômoda: o Brasil deixou de ser o país do futebol e se tornou o país das bets e da jogatina. A seleção brasileira já foi uma ideia de país. Hoje, às vezes, parece produto de intervalo entre uma cotação e outra.  O futebol continua sendo tratado como paixão nacional, mas cada vez mais parece administrado como mercado de ocasião.

A derrota para a Noruega não explica tudo, mas seria confortável fingir que há alguma explicação ali. Bastaria falar de marcação, transição, bola parada, intensidade, escalação, mapa de calor e outros termos que dão verniz técnico ao sofrimento. Mas o problema é maior. O Brasil caiu nas oitavas e voltou a uma pergunta antiga, daquelas que reaparecem a cada quatro anos com a insistência de boleto: afinal, qual legado fica?

Há pelo menos 20 anos, convivemos com eliminações e procuramos sentido nos escombros. Em 2006, disseram que faltou compromisso. Quem não se lembra da trágica imagem de Roberto Carlos amarrando o cadarço deixando Thierry Henry livre para marcar aquele gol? Em 2010, controle emocional. Em 2014, quase tudo. Em 2018, detalhe. Em 2022, maturidade.

Agora, em 2026, começa a faltar até susto nos outros. Durante a Copa, a sensação entre muitos especialistas era essa: o Brasil já não impunha medo. Respeito, talvez. Medo, não. E no futebol, respeito sem medo é quase placa de bronze. Fica bonito na parede, mas não decide jogo.

Meu colega jornalista e um dos melhores comentaristas deste país, Pablo Kossa, ao participar do último Domingos Conversa na Copa, tocou em um ponto que parece cada vez mais central: o Brasil precisa pensar o futebol como projeto de cultura e nação. Não como produto de ocasião e muito além de peças de marketing. 

A seleção brasileira foi, durante décadas, uma extensão da imaginação nacional. Tinha defeitos, vaidades, crises internas e dirigentes folclóricos, mas também tinha uma linguagem. O mundo sabia o que esperar do Brasil. Às vezes, isso era pouco. Muitas vezes, era demais para os adversários.

Hoje, a seleção parece falar vários idiomas ao mesmo tempo e nenhum com fluência. Tem jogador de elite, técnico de elite, estrutura de elite e uma camisa que segue sendo a mais pesada do planeta. Mas peso histórico não chuta no gol. Também não recompõe, não marca lateral e não encontra saída quando o adversário aperta.

Carlo Ancelotti chegou com a promessa silenciosa de organizar o caos. Ninguém esperava muita coisa do Brasil nesta Copa, sejamos honestos. Mas, por um instante, pareceu que ele poderia dar jeito. Aquele tipo de jeito que técnico grande às vezes dá: arruma duas linhas, escolhe três ideias, corta quatro vaidades e convence todo mundo de que simplicidade também pode ser autoridade.

Não deu.

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Ancelotti sai da Copa com a eliminação nas mãos, mas talvez mais livre do que entrou. Nada me tira da cabeça que a convocação de Neymar foi também um seguro político. Se deixasse Neymar fora e o Brasil caísse como caiu, a conta chegaria antes do desembarque. Chamariam de teimosia, arrogância, europeização da alma nacional e outros diagnósticos fabricados em mesa-redonda.

Como convocou e ainda escalou, Ancelotti desarmou a tese mais preguiçosa. Neymar esteve lá. O passado entrou em campo. E o Brasil perdeu mesmo assim. Isso não absolve ninguém. Apenas muda o endereço da culpa.

A questão agora é menos sobre um jogador e mais sobre um sistema que insiste em tratar Copa do Mundo como febre de quatro anos. A cada eliminação, aparecem discursos sobre renovação, base, calendário, formação, identidade, CBF, empresários, clubes, técnicos, gramados, exportação precoce e as categorias de base. Depois passa. O país volta ao campeonato espremido, ao dirigente eterno e ao torcedor tentando lembrar qual promessa brasileira joga em qual clube da segunda prateleira da Europa.

O Brasil ainda produz jogador. Produz muito. O que talvez não produza mais com a mesma força é seleção. São coisas diferentes. Jogador nasce no talento, no improviso, na base, no empresário, no scout, e, quando há sorte, em algum resíduo de rua que ainda sobrevive ao condomínio. Seleção nasce de projeto. E projeto exige continuidade, ideia, comando e cultura.

Exige mais do que juntar bons nomes e torcer para que a camisa faça o serviço. A camisa ainda pesa. Mas parece pesar mais em nós do que nos adversários.

A Noruega não entrou em campo ajoelhada diante das cinco estrelas. Entrou para jogar. E jogou. Haaland não pediu licença à história. A Noruega não se importou com 1958, 1962, 1970, 1994 ou 2002. Essa é uma das crueldades do futebol: museu não marca gol.

Para o torcedor brasileiro, especialmente o otimista profissional, aquele que sempre encontra uma fresta antes do próximo escanteio, fica a tarefa ingrata de procurar algo em meio ao desastre. O que sobra? Talvez sobre justamente a obrigação de parar de confundir esperança com autoengano.

Esperança é acreditar que Ancelotti, agora sem a blindagem da urgência e alguma improvisação, poderá colocar digitais reais no trabalho. Autoengano é achar que basta ele convocar melhor, dar entrevista com serenidade e fazer a seleção treinar saída de bola para o Brasil voltar a ser Brasil.

O legado desta Copa, se houver algum, precisa nascer da vergonha de não haver legado. Pode ser pouco, mas já seria mais honesto do que os balanços oficiais que costumam transformar eliminação em aprendizado institucional. Aprendizado, no futebol brasileiro, virou uma palavra curiosa. Aprende-se muito, muda-se pouco.

A seleção pentacampeã não perdeu apenas um jogo. Perdeu mais uma chance de dizer ao mundo quem é. Talvez esse seja o ponto mais incômodo. O Brasil não parece mais uma potência em reconstrução. Parece uma potência em dúvida permanente, dessas que ainda têm retrato bonito na sala, mas já não sabem onde guardaram a chave da própria casa.

O país do futebol virou o país das bets? Talvez seja duro demais e também exato demais. O fato é que, enquanto a bola rolava, havia um país tentando descobrir se ainda era temido. A Noruega respondeu. Agora é reunir os cacos. De novo… 2030, está logo ali.

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Domingos Ketelbey

É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística

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