Nívea trata desapropriação como fato, admite inviabilidade da sede no Centro e aponta novo caminho para os associados
23 de janeiro de 2026 às 15:43
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Entrevista
O Jóquei Clube de Goiás volta ao centro do debate urbano e institucional de Goiânia não por nostalgia, mas por necessidade de decisão. Com a eleição da advogada Nívea Cristina Ribeiro de Paula para a presidência do clube, a associação passa a ter, novamente, uma direção legitimada para enfrentar um tema inevitável e, ao mesmo tempo, polêmico: a desapropriação da antiga sede, medida que encontra resistência em parcela significativa dos associados.
À coluna, Nívea trata o processo como uma “realidade” e defende que o momento exige menos retórica e mais negociação. Segundo ela, o clube não dispõe de condições financeiras para recuperar o imóvel no Centro e precisa discutir, com o poder público, uma saída que preserve a instituição e permita virar a página de um longo período de paralisia.
A nova gestão assume reconhecendo que o primeiro desafio não é projetar obras ou anunciar projetos, mas organizar a casa. Regularização jurídica, reativação do CNPJ e esclarecimento do passivo tributário aparecem como pré-condições para qualquer conversa concreta sobre o futuro do Jóquei.
Só a partir desse ponto, afirma a presidente, será possível pensar em um novo ciclo para os associados, com a construção de outro endereço de convivência, ligado ao hipódromo, capaz de reunir memória, lazer e continuidade institucional. O foco, agora, é deixar de discutir apenas o que o Jóquei foi e passar a decidir, com pragmatismo, o que ele ainda pode ser.
Entrevista com a nova presidente do Jóquei Clube de Goiânia, Nívea Cristina Ribeiro de Paula
Domingos Ketelbey: Presidente, a senhora foi eleita com 131 votos, em uma eleição bastante acirrada. A chapa derrotada teve 115 votos. Qual a avaliação desse pleito e por que ele pode ser um divisor de águas para os associados do Jóquei Clube?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: A importância desse pleito está no fato de que a diretoria anterior estava há cinco anos na gestão de forma ilegítima. Essa eleição vem dar legitimidade à nova diretoria em um momento muito importante, em que existe um decreto de desapropriação e tratativas necessárias com o poder público. Além disso, precisamos regularizar o Jóquei Clube e o Hipódromo da Lagoinha. O Jóquei não tinha uma representatividade legítima, e essa eleição devolve isso à associação.
Domingos Ketelbey: Em que situação o Jóquei se encontra hoje? As imagens mostram um espaço abandonado e até o acesso é difícil.
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: O Jóquei está há muitos anos desocupado. Temos uma área de estacionamento que foi recentemente reintegrada à posse do clube, mas a associação não tem condições de reativar a sede. É inviável. Não temos recursos nem receita para isso. Não somos contra a desapropriação, até porque ela é uma realidade, já existe um decreto publicado. O que precisamos discutir com o poder público é a forma de indenização e qual é a dívida real do Jóquei com o município. Essa dívida envolve o IPTU da sede e do Hipódromo da Lagoinha, que estão no mesmo CNPJ. Hoje, o IPTU do hipódromo chega a cerca de R$ 13 milhões por ano, e existe um erro nesse cálculo, que está sendo discutido em uma ação anulatória. Precisamos sentar com o município, entender o que está sendo cobrado, apurar a dívida real e aplicar os descontos legais de juros e multas.
Domingos Ketelbey: Como está o funcionamento do Hipódromo da Lagoinha?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: Está funcionando com corridas de cavalo. Os jóqueis clubes no Brasil têm uma carta patente concedida pelo Ministério da Agricultura. Na última gestão, o hipódromo foi notificado com risco de perda dessa carta por diversas irregularidades. O Ministério é muito rigoroso e o espaço foi abandonado. A regularização do hipódromo e da carta patente é uma das nossas prioridades, assim como a regularização cadastral do Jóquei Clube. Hoje o clube está em situação de inaptidão junto à Receita Federal por falta de entrega de obrigações fiscais nos últimos anos. Sem um CNPJ ativo, não conseguimos fazer nenhuma negociação.
Domingos Ketelbey: A senhora pretende contratar uma auditoria para avaliar essa situação?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: Não é o caso de auditoria, porque praticamente nada foi feito. O que precisamos é de uma prestação de contas da gestão anterior dos últimos cinco anos. Não existe contabilidade registrada. Precisamos delimitar o marco inicial da nossa gestão, porque assumimos responsabilidades a partir de agora e isso exige clareza sobre o que foi feito ou deixado de fazer.
Domingos Ketelbey: Essa transição tende a ser pacífica?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: Acredito que sim. Não há motivo para que não seja. Quando formamos a chapa, inclusive, procuramos pessoas da gestão anterior para dialogar e até compor, mas não houve retorno. Foi necessária uma ação judicial para garantir a realização das eleições. Nosso objetivo não é conflito. Precisamos formalizar o que foi feito e o que não foi feito, porque assumimos responsabilidades a partir de agora.
Domingos Ketelbey: Sobre o processo de desapropriação, como ele está hoje?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: O decreto já foi publicado. O município ajuizou uma ação pedindo a posse do imóvel, e a Justiça condicionou essa posse ao depósito de R$ 55 milhões, que é o valor da avaliação da sede. Houve tentativa de compensação automática com dívidas, mas a Justiça não autorizou, porque essas dívidas estão sendo discutidas. Agora, com uma diretoria legítima, estamos à disposição para dialogar com o município e encontrar a melhor solução.
Domingos Ketelbey: O que significa, na prática, projetar o Jóquei do futuro?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: Significa, antes de tudo, regularizar a situação do clube. Ninguém projeta futuro com CNPJ inapto e risco de perda de carta patente. Superada essa etapa, nossa intenção é construir um novo hipódromo com centro de lazer, para receber novamente as famílias joqueanas. Em um segundo momento, pensar também em uma nova sede social. Queremos reconstruir o Jóquei, não apenas preservar um endereço.
Domingos Ketelbey: O Hipódromo da Lagoinha terá um cuidado especial?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: Sim. Tenho uma ligação muito forte com o hipódromo. Há cerca de dez anos, atuei de forma voluntária em um processo de interdição do Ministério da Agricultura que poderia resultar no sacrifício de mais de 60 animais. Trabalhamos com o Ministério Público, a Agrodefesa e o próprio Ministério, e comprovamos que não havia doença. Nenhum animal foi sacrificado. Desde então, minha ligação com o hipódromo é muito grande. Goiás é um estado do agronegócio e merece um hipódromo regularizado e em boas condições.
Domingos Ketelbey: Ao longo dos últimos anos, houve muitas especulações sobre o destino do Jóquei. Igreja, banco, outros usos. Como a senhora via isso? E há espaço para preservar a memória do clube nesse novo projeto?
Nívea Cristina Ribeiro de Paula: Há espaço para preservar a memória, sim, mas ela não precisa estar necessariamente naquele espaço físico. Pode estar no hipódromo ou em um novo local. A história é importante, mas precisa caminhar junto com o futuro. Ainda é cedo para definições mais concretas, porque muitos processos tramitam em sigilo e só agora teremos acesso. A intenção é preservar a memória sem deixar de projetar o futuro.
Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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