Thales Machado

Thales Machado (Foto: Reprodução)

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Não existe dor que dê direito sobre a vida de qualquer pessoa

Não existe dor que dê direito sobre a vida de qualquer pessoa

Me deixa puto tentativas de justificar o indefensável

12 de fevereiro de 2026 às 23:50

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Editorial

Pensei muito antes de escrever qualquer linha sobre a tragédia que aconteceu em Itumbiara. Não foi um dia normal. Acordei às seis da manhã com informações ainda desencontradas sobre o que viria a se confirmar como uma das notícias mais brutais que já precisei ler. Como pai de duas crianças, entrei em negação. Procurei alguma brecha que me permitisse desacreditar. Fake news, óbvio. Agora, já perto das onze da noite, tudo o que apurei e li continua martelando. Passei o dia sem escrever uma linha, e talvez tenha sido o texto mais difícil de começar.

No jornalismo, existe um certo tabu com o suicídio. Os acontecimentos que pautaram os noticiários de Goiás quebraram isso. Porque não foi uma série de coisas para além disso. Foi assassinato de crianças, feminicídio indireto, uma carta pública abjeta com tentativa de transferir uma culpa injustificável, além de uma figura pública com projeção eleitoral. Meandros de poder por trás de tudo.

Ninguém mata "por impulso". O dia inteiro ouvi tentativas de encontrar um ponto de apoio, algumas pessoas querendo minimizar o impacto de tudo. Um motivo que organizasse o caos. Uma frase que tornasse o absurdo menos absurdo. Não existe. Algumas coisas simplesmente são o que são.

De certa forma, me deixa puto e me causa ojeriza ver pessoas culpabilizando a vítima, em menor parte de mulheres, em grande parte de outros homens. Nada justifica os ataques que Sara vem recebendo. Uma mãe que perdeu os dois filhos e que sabe-se-lá o que passava com o assassino. Jamais saberemos, e este não é o ponto deste texto. Nós, homens, precisamos ter convicção de que não há cristão no mundo que detenha a posse sobre outra pessoa. Cônjuge, filhos, ninguém.

Não existe honra ferida que autorize violência. Não existe fé que legitime controle. Não existe dor que conceda direito sobre a vida de alguém. Se a frustração virou autorização moral para punir, talvez já tenhamos atravessado todos os limites. Em nome de Deus, o céu e o inferno já estão bem frequentados.

Talvez o mínimo que se possa fazer agora seja não repetir o erro mais antigo: procurar uma justificativa confortável. Às vezes o que aconteceu é exatamente isso. Uma escolha errada, brutal, irreversível. E toda tentativa de dividir essa responsabilidade só amplia a violência.

Escrevo tarde porque talvez o silêncio também diga algo. Nem toda tragédia precisa de adjetivo. Algumas só exigem que a gente não aceite atalhos na explicação. Hoje não foi um dia normal. E talvez o mínimo que se espere de nós seja não agir como se tivesse sido. Não existe dor que dê direito sobre a vida de qualquer pessoa.

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Domingos Ketelbey

É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística

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Thales Machado