Ministro também falou sobre STF, governo Lula, Congresso e escala 6x1
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O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (PSOL), defendeu uma reforma do sistema político e judicial brasileiro, reagiu às revelações envolvendo Daniel Vorcaro e nomes da política e do Judiciário, fez críticas ao ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) e reforçou o apoio à candidatura de Luís César Bueno (PT) ao Governo de Goiás.
Em entrevista ao Domingos Conversa, Boulos também tratou da campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do avanço da proposta pelo fim da escala 6x1, da composição do Congresso Nacional e das dificuldades enfrentadas pela esquerda para ampliar sua representação parlamentar.
A passagem por Goiânia combinou agenda institucional e eleitoral. Antes da entrevista, o ministro visitou uma obra do Minha Casa, Minha Vida. À noite, já fora da agenda ministerial, participou de ato político ao lado de candidatos do campo lulista em Goiás.
Vorcaro e a direita
A entrevista começou pelo assunto que dominava o noticiário político: as revelações sobre as relações mantidas por Daniel Vorcaro com integrantes de diferentes campos de poder.
Questionado se conhecia o ex-banqueiro, Boulos respondeu com ironia. “Eu nunca o chamei de lindão”, afirmou.
O ministro concentrou sua reação nas informações envolvendo nomes da direita, especialmente o deputado federal Nikolas Ferreira. Para Boulos, as revelações atingem diretamente o discurso político construído pelo parlamentar mineiro.
“O dia de hoje foi desmascarar um paladino da moralidade. O Nikolas construiu a trajetória dele como deputado sempre apontando para os outros. Todo mundo era ladrão, todo mundo era corrupto”, disse.
Boulos afirmou que sempre desconfia de políticos que constroem a própria imagem a partir de um discurso permanente de superioridade moral. Citou, inclusive, o ex-senador goiano Demóstenes Torres ao fazer a comparação. “Eu sempre desconfiei de paladino da moralidade”, afirmou.
Ao comentar informações sobre viagens de Nikolas, Boulos cobrou explicações sobre os custos. “O cara andou no jatinho do Vorcaro. Ele fez mais de dez estados durante a campanha do Bolsonaro. Quanto custou isso? Como é que foi isso aí? Isso não existe, jatinho grátis”, disse.
As alegações relacionadas às viagens e ao custeio citado pelo ministro dependem de confirmação independente antes de serem apresentadas fora do contexto da declaração de Boulos.
“Apodreceu”
Ao ampliar a discussão para além dos personagens envolvidos nas revelações, Boulos fez uma das declarações mais duras da entrevista. Para ele, o problema não deve ser tratado apenas como uma sucessão de casos individuais. “Nós temos uma crise institucional estabelecida no Brasil”, afirmou.
Segundo o ministro, a campanha de Lula pretende defender uma reforma profunda das instituições políticas e judiciais. “A campanha do presidente Lula defende que nós temos que fazer uma profunda reforma do sistema político e judicial no país”, disse.
Questionado se o sistema havia “apodrecido”, respondeu diretamente: “Apodreceu.”
Boulos sustentou que o desenho institucional construído a partir da Constituição precisa de ajustes.
“O sistema que se criou na Constituição da Nova República, com as instituições, com pesos e contrapesos, ele está desfuncional. Nós precisamos mudar as coisas, fazer um freio de arrumação”, afirmou.
Código de ética no Judiciário
As revelações sobre contatos de Vorcaro com ministros do Supremo Tribunal Federal também entraram na entrevista. Boulos foi questionado sobre a retomada, principalmente entre candidatos da direita ao Senado, do discurso favorável ao impeachment de ministros.
Para ele, afastar individualmente integrantes do STF sem alterar as regras do sistema seria insuficiente. “Isso é enxugar gelo. Você sair falando de impeachment de ministro só caça o parlamentar. Se você não mudar a lógica como funciona o sistema, vai vir outro e faz igual”, afirmou.
Boulos defendeu a criação de um código de ética para integrantes do Judiciário, com previsão de perda do cargo em situações de conflito entre interesses públicos e privados.
“Ministro que tiver relação, seja escritório de advocacia da família ou relação indevida com interesses privados ou agentes públicos, não é só ministro, é juiz, é promotor, qualquer um que tiver essa relação, perde o cargo”, disse.
O ministro também defendeu o fim dos chamados supersalários. “Tem que acabar com o supersalário, tem que ter um código de ética que consiga barrar essa promiscuidade entre interesse público e privado. Nós não passamos pano para ninguém. Ninguém está acima da Constituição e ninguém está acima da lei”, afirmou.
Críticas ao Congresso
Boulos argumentou que a discussão institucional não pode ficar restrita ao Judiciário. Para ele, parte da direita concentra suas críticas no Supremo por causa da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto evita discutir problemas do Legislativo. “E as emendas parlamentares? E as emendas parlamentares que eles usam e abusam? Cheio de escândalo, cheio de esquema com as emendas parlamentares”, questionou.
Deputado federal licenciado por São Paulo, Boulos fez uma avaliação crítica da atual composição do Congresso. “Qualidade muito baixa. Outros interesses. Lobbies muito fortes. Essa coisa das emendas parlamentares, só se move por emenda”, afirmou.
Na avaliação do ministro, o atual sistema também dificulta a renovação política porque parlamentares com acesso a grandes volumes de emendas começam uma eleição em vantagem sobre novos candidatos. “Um deputado, um senador que tem não sei quantos milhões de emenda parlamentar ao longo dos seus quatro anos, ele já parte na frente de qualquer outro candidato e dificulta muito a renovação política”, disse.
“Só Lula” poderia liderar reforma
Boulos defendeu que uma eventual reforma política seja acompanhada por mobilização social, já que qualquer mudança dependerá justamente do Congresso. “Se nós tivermos um Congresso com o mesmo padrão, a mesma composição da atual legislatura, dificilmente vai sair uma reforma política que preste”, avaliou.
Para ele, seria necessária pressão externa sobre deputados e senadores. “É preciso ter um movimento da sociedade civil, da sociedade organizada, um grito da sociedade brasileira dizendo: chega, vamos virar o jogo e reorganizar a situação.”
Boulos afirmou ainda que Lula seria, atualmente, o único político com condições de conduzir esse processo. “Só o Lula tem a experiência e a credibilidade para liderar um processo de reforma política no Brasil”, declarou.
Boulos entra na campanha de Luís César
Em Goiás, Boulos reforçou o apoio a Luís César Bueno, candidato do PT ao Palácio das Esmeraldas. O ministro afirmou que a candidatura é importante para estabelecer um contraponto ao grupo político liderado por Ronaldo Caiado. “Acho que o Luís César está cumprindo um papel aqui que é importantíssimo”, disse.
Segundo Boulos, o petista ocupa um espaço que nenhum dos demais candidatos poderia preencher. “É o palanque do Lula no estado. Que outro candidato está defendendo o Lula que não o Luís César Bueno?”, questionou.
O ministro também afirmou que Luís César tem potencial para crescer durante o restante da campanha. “É importante você ter uma voz de oposição como é a do Luís César aqui no estado. Acho que tem o potencial de crescer aqui na eleição”, disse.
Questionado sobre quem poderia fazer um enfrentamento mais direto ao grupo caiadista, Boulos foi taxativo. “Eu acho que ele é o único capaz de fazer esse enfrentamento.”
Na avaliação do ministro, isso ocorre porque o candidato petista mantém independência em relação ao governo estadual e está conectado diretamente ao projeto nacional de Lula.
Embate com Caiado
Boulos fez críticas diretas a Ronaldo Caiado, adversário de Lula na disputa presidencial.
Segundo o ministro, a candidatura de Luís César é necessária também para confrontar a narrativa construída pelo ex-governador sobre os resultados de sua administração.
“A candidatura dele é importante para debater Goiás, porque o Caiado vende a situação como se Goiás fosse o estado mais seguro do mundo, que as pessoas andem tranquilas, que ninguém aqui tem que se preocupar com roubo de celular, com nenhum problema de segurança pública, que as mulheres não sofrem violência doméstica”, afirmou. “Eu acho que precisa ter um contraponto, porque essa não é a realidade”, completou.
Confrontado com os altos índices de aprovação registrados por Caiado ao deixar o governo, Boulos reconheceu a dificuldade eleitoral imposta à oposição. “Com certeza que é um desafio. É lógico que é um desafio. Mas não existe eleição vencida de véspera e nem eleição perdida de véspera. Ninguém nega os números”, afirmou.
O ministro disse reconhecer que Caiado deixou o governo bem avaliado, mas argumentou que isso não significa ausência de problemas no estado. “Ele saiu com um governo bem avaliado. O que não quer dizer que ele tenha resolvido todos os problemas do estado de Goiás.”
Boulos ainda fez acusações contra contratos celebrados durante a gestão caiadista e relacionou algumas dessas críticas à Operação Carbono Oculto. As afirmações foram apresentadas pelo ministro durante a entrevista e exigem apuração específica e contraditório antes de eventual publicação como fatos autônomos.
Lula em Goiás?
Boulos também foi questionado sobre uma possível participação de Lula na campanha goiana. O ministro não confirmou a visita. “A agenda do Lula é a agenda de presidente da República, não é só de candidato. Então é uma agenda que a gente define semana a semana”, explicou.
Integrante da coordenação da campanha presidencial, Boulos afirmou que as próximas viagens são discutidas levando em consideração também os compromissos institucionais de Lula.
Ao ser questionado se a ausência recorrente de Lula das campanhas em Goiás teria relação com o peso do eleitorado do estado, rejeitou a hipótese. “Não tem nada a ver com isso. O Lula teve 41% aqui em Goiás na última eleição. Mais do que em muitos outros estados”, afirmou.
Sobre sua própria passagem por Goiânia, Boulos separou a agenda institucional da participação eleitoral. Disse ter vindo ao estado como ministro para visitar obra habitacional e que, após o expediente, participaria como coordenador da campanha de Lula de uma plenária de apoio à chapa local. “Após as seis da tarde, eu estou, não como ministro, mas como coordenador de campanha do presidente Lula, numa plenária, num ato de apoio ao Luís César, às candidatas ao Senado, à Cíntia, Ana Maria, com esse time, que é o time do Lula aqui em Goiás”, afirmou.
Esquerda quer ampliar bancada
Para Boulos, a eleição não pode ser analisada apenas pelas disputas para presidente e governador. Ele defendeu como prioridade a ampliação da bancada de esquerda no Congresso. “Para além de reeleger o presidente Lula, que é a nossa prioridade absoluta, nós precisamos eleger um Congresso melhor do que nós temos hoje”, afirmou.
Ao falar especificamente de Goiás, citou a deputada federal Adriana Accorsi e outras candidaturas do campo governista como parte da estratégia para ampliar a representação. Boulos também analisou por que, eleição após eleição, o Congresso mantém perfil predominantemente conservador.
Para ele, o fenômeno não se explica apenas pela ideologia. “Não é só conservador. O Congresso, ano após ano, com as emendas parlamentares, é cada vez mais ligado a interesses particulares, clientelistas e mais suscetível a lobbies econômicos. Esse é o problema”, disse.
Polarização deve continuar
Boulos demonstrou ceticismo com a possibilidade de uma terceira candidatura romper a polarização presidencial. “Posso estar errado, mas eu acho muito difícil que surja uma outra candidatura competitiva nessa eleição, exatamente pela polarização política que está consolidada, que está enraizada no país”, afirmou.
Segundo ele, o fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Boulos avaliou que eleições em diferentes países vêm sendo decididas por margens estreitas entre a direita radical e o campo progressista. O ministro também reconheceu que o governo ainda enfrenta problemas para transformar resultados de políticas públicas em apoio eleitoral.
“Tem coisa para avançar? Tem. As pessoas têm dificuldade de fechar a conta no fim do mês? Tem. O custo de vida ainda está alto? Está”, afirmou. Apesar disso, disse estar “muito confiante” na vitória de Lula.
Escala 6x1
Na reta final da entrevista, Boulos tratou do avanço da proposta pelo fim da escala 6x1 no Senado. O ministro disse ter acompanhado presencialmente a votação na Comissão de Constituição e Justiça e afirmou ter ficado satisfeito com o resultado, mas criticou o fato de a matéria não ter avançado imediatamente para o plenário. “Eu lamento muito que o plenário do Senado tenha perdido a oportunidade de votar o fim da 6x1 agora, essa semana”, afirmou.
Boulos atribuiu ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a decisão de não pautar a proposta. “Foi uma opção do presidente do Senado, senador Davi Alcolumbre, não colocar, não pautar para votar em plenário.”
Segundo ele, o governo pretende retomar a pressão pela votação depois do primeiro turno.
“Espero, francamente, e nós vamos redobrar os nossos esforços para que, no retorno do recesso, que é imediatamente após o primeiro turno, já em outubro, possa ser votada pelo plenário do Senado”, disse.
Boulos classificou o fim da 6x1 como uma demanda que ultrapassou as fronteiras partidárias. “Essa não é uma pauta só da esquerda”, afirmou.
Para o ministro, Lula teve papel decisivo ao incorporar o tema à agenda do governo.
“Foi quase um grito de desespero de milhões de pessoas que estão vivendo para trabalhar, em vez de trabalhar para viver”, disse.
Boulos afirmou ainda que houve uma “operação brutal” do PL e de lideranças da oposição para impedir a votação no Senado.
Apesar das divergências, avaliou que a relação entre Lula e Alcolumbre está pacificada e citou outras matérias aprovadas pelo Congresso como sinal de funcionamento da articulação política.
Para Boulos, porém, duas pautas permanecem pendentes no Legislativo e devem continuar no centro da agenda do governo: o fim da escala 6x1 e a PEC da Segurança Pública.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística.
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