Raphael Bezerra e Vassil Oliveira analisaram pesquisas, campanhas e os movimentos da reta final em Goiás
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A vantagem de Daniel Vilela (MDB), a disputa entre Wilder Morais (PL) e Marconi Perillo (PSDB) pelo posto de principal nome da oposição e a corrida aberta pelas duas vagas ao Senado dominaram a estreia da Última Rodada, novo formato do Domingos Conversa.
Os jornalistas Raphael Bezerra e Vassil Oliveira participaram da primeira edição e fizeram uma leitura da campanha em Goiás a 30 dias da eleição. Na avaliação da mesa, a disputa pelo Governo ainda não ganhou nas ruas a intensidade esperada para esta altura da campanha, enquanto a corrida ao Senado já produz conflitos, rearranjos e movimentos dentro da própria base governista.
“A campanha para governador quase que não começou”, resumiu Vassil. Para ele, Daniel transformou a cautela em estratégia enquanto assumia o Governo e organizava a chapa. “A campanha do Daniel foi a não campanha e a do Wilder foi esperar para ver”, afirmou.
O jornalista avalia que, entre os principais candidatos, Marconi foi quem manteve uma movimentação eleitoral mais constante desde a pré-campanha. “O único que tenta se movimentar de campanha mesmo, de candidato desde a pré-campanha, é Marconi Perillo”, disse.
Atlas coloca primeiro turno no horizonte de Daniel
A pesquisa AtlasIntel entrou no centro da discussão. O levantamento colocou Daniel com 43,5%, Wilder com cerca de 20%, Marconi com 16,1% e Luis César Bueno (PT) com aproximadamente 10%.
Vassil destacou que o percentual de Daniel equivale a cerca de 48% dos votos válidos, o que permite à campanha governista trabalhar com a possibilidade de encerramento da disputa ainda no primeiro turno. “Ele tem 43 pontos, o que dá 48 em votos válidos. Então, num limiar que dá para ele calcular um esforço aí de reta final, até vislumbrar a vitória no primeiro turno”, analisou.
O jornalista, no entanto, ponderou que um único levantamento não é suficiente para caracterizar uma mudança definitiva no cenário. “É a primeira pesquisa e é uma pesquisa feita digitalmente. Para a gente saber se é um movimento mesmo que começa, tem que aguardar o andamento”, disse.
Raphael também demonstrou cautela com a fotografia apresentada pela Atlas. Para ele, ainda é cedo para concluir que Wilder tenha iniciado um movimento semelhante ao crescimento de candidaturas bolsonaristas observado em eleições anteriores. “Eu acho difícil a gente pensar num levante bolsonarista já tão cedo assim na campanha”, afirmou.
Ele lembrou, porém, que há antecedentes importantes em Goiás. Wilder cresceu na reta final em 2022 e Fred Rodrigues teve movimento semelhante na eleição municipal de Goiânia em 2024. “A gente tem o histórico. Em 2018, o Wilder Moraes foi eleito com um crescimento expressivo no final da campanha. E em Goiânia também o Fred Rodrigues cresceu muito”, apontou Raphael.
Wilder depende de uma ‘enchente’ bolsonarista
Vassil usou uma imagem para explicar a estratégia que enxerga na candidatura de Wilder. Segundo ele, o senador aguarda que uma onda nacional ligada ao bolsonarismo carregue sua candidatura na reta final. “A única expectativa do Wilder é a ascensão, é que venha o milagre, a enchente”, disse.
Ele comparou o fenômeno a uma enchente em córrego de interior. “Você olha lá no fundo do quintal, está aquela aguinha bem fininha, não dá nada. Mas aí começou a chover, vem descendo aquela enchente e de repente aquele riacho começa a arrastar toco, arrastar o que tiver na frente. O bolsonarismo é um pouco isso”, explicou.
Raphael concordou que Wilder depende fortemente da mobilização do eleitor bolsonarista, mas apontou dificuldades próprias do candidato. “Eu acho que o Marconi tem uma campanha muito mais sólida, eu acho que ele faz uma campanha melhor, e eu acredito que o Wilder não tem o traquejo para conseguir convencer o eleitor goiano”, avaliou.
Segundo ele, a falta de envolvimento do eleitor com a campanha aumenta a importância da capacidade pessoal dos candidatos de chamar atenção. “Eu sinto, inclusive, da própria militância desses candidatos, um desânimo muito grande. Então, para o Wilder conseguir convencer um eleitor que não está tão interessado na campanha eleitoral, eu acho que vai ser muito difícil”, disse.
Número 22 pode ser ativo para Wilder
A dependência do bolsonarismo também apareceu na discussão sobre o número eleitoral do PL. Vassil relatou avaliações segundo as quais a intenção de voto de Wilder melhora quando seu nome aparece associado ao número 22. “Quando você coloca junto com o Wilder o número 22, melhora para ele. Porque o 22 é o fator de atração, é como se fosse o chamado de Bolsonaro ou do bolsonarismo para os eleitores”, afirmou.
Durante a conversa, foi lembrado que o PL chegou a pedir à Justiça Eleitoral que partido e número fossem apresentados ao lado dos nomes dos candidatos em pesquisas eleitorais.
Para Vassil, a associação revela ao mesmo tempo uma força e uma fragilidade. “Mostra como ele depende e espera essa ascensão que o bolsonarismo pode fazer por ele”, afirmou.
Marconi mantém campanha mais tradicional
Apesar de ter aparecido atrás de Wilder na Atlas, Marconi foi apontado pelos convidados como o candidato da oposição que mantém a campanha mais tradicional e com maior presença física. “Marconi está mais em campanha do que o Wilder, mais em campanha do que o Luis César, mais em campanha do que o próprio Daniel”, disse Vassil.
Para ele, a movimentação do tucano pelo interior também contraria parte das avaliações feitas no início da pré-campanha de que Marconi teria perdido conexão com o eleitor goiano. “A movimentação dele reúne muita gente. Ao contrário do que se dizia, que o Marconi perdeu a conexão com Goiás, a receptividade, ao que parece, não é negativa como muitos acreditavam que seria”, analisou.
O principal obstáculo do ex-governador, segundo Vassil, continua sendo a rejeição. “O desafio de Marconi não era aumentar o conhecimento e a intenção de voto. Era diminuir a rejeição para ter mais intenção de voto”, explicou.
Na rodada final do programa, os dois jornalistas apostaram em Marconi, no cenário daquele momento, como o nome mais provável para enfrentar Daniel em um eventual segundo turno. “Eu acho que o Marconi é muito mais candidato do que o Wilder. O Wilder só vai para o segundo turno, não por méritos dele. Ele só vai para o segundo turno por mérito do bolsonarismo”, afirmou Vassil.
Senado é apontado como verdadeira batalha da eleição
Se a campanha para o Governo foi classificada como morna, a avaliação sobre o Senado foi oposta. “A disputa pelo Senado continua quente. Talvez seja a grande disputa da eleição em Goiás. Não seja a de governador, seja a das duas vagas para o Senado”, afirmou Vassil.
A mesa discutiu principalmente os efeitos da quantidade de candidaturas ligadas à base governista e os recentes atritos entre Gracinha Caiado e Gustavo Mendanha.
Raphael afirmou que os problemas já estavam desenhados desde antes do início oficial da campanha. “A vaga na base do Senado está mais disputada que medicina, Direito, que inteligência artificial agora na UFG. É complicadíssimo”, brincou.
Para o jornalista, o movimento de Mendanha em direção a Gustavo Gayer adicionou um componente novo à disputa. “Quando o Gustavo Gayer publicou essa foto me acendeu um alerta muito grande. Falei: será se o Gustavo Mendanha pode estar repetindo o movimento de ir para a oposição como ele fez na última eleição?”, relatou.
Raphael disse considerar difícil que todas as tensões sejam completamente eliminadas até o fim da campanha. “Eu tenho uma certa dificuldade de enxergar, daqui para o final da campanha, que isso seja pacificado”, afirmou.
Mendanha tenta virar o segundo voto de todos
Vassil apresentou uma das principais leituras políticas do programa: Gustavo Mendanha teria encontrado espaço para se tornar uma espécie de segundo voto transversal. “O grande diferencial de Mendanha foi que ele começou a caminhar para ser o segundo voto de todo mundo”, afirmou.
Segundo ele, Mendanha consegue circular pela base governista, mantém diálogo com o bolsonarismo por meio de Gayer e não enfrenta uma rejeição automática no eleitorado de esquerda. “Se ele tem espaço no bolsonarismo, tem espaço dentro do governo, a esquerda também não tem uma resistência muito grande, ele começa a ter voto em todo lugar”, avaliou.
Na avaliação dele, o crescimento político de Mendanha ajuda a explicar a reação de Gracinha. “Ele começa a se configurar como o segundo voto de todo mundo, e isso assusta. Assusta a Gracinha”, afirmou.
Gracinha colocou Mendanha no centro da eleição, diz Vassil
Ao avaliar quem ganhou espaço na semana, Vassil apontou Mendanha. “Eu acho que o Mendanha, porque ele é o assunto”, respondeu.
Questionado se Gracinha teria ajudado a promover o adversário interno, foi direto: “Eu acho que a Gracinha ajudou bastante.”
Segundo ele, Mendanha soube aproveitar o episódio sem romper com a base. “Ele não foi para o ataque. Seria um erro ele ir para o confronto numa base que ele precisa dessa base. Ele não pode ser expulso dela”, analisou.
Raphael também avaliou que Gracinha sofreu desgaste maior no episódio por ocupar uma posição de maior exposição e ser tratada como prioridade do grupo governista na disputa ao Senado. “Eu acho que ela perdeu um pouco com isso, com essa treta toda que teve com o Gustavo Mendanha”, afirmou.
Gayer tenta ampliar pontes
Raphael destacou ainda a postura de Gustavo Gayer, que, segundo ele, tenta ampliar o raio da candidatura sem participar diretamente das disputas internas da base governista. “Eu acho que, no meio desse entreveiro todo, o Gustavo Gayer tem conseguido ficar um pouco mais quieto. Ele tem inclusive mudado a forma dele conversar, a forma dele se apresentar”, disse.
Na avaliação do jornalista, Gayer tem adotado uma postura mais moderada e buscado aproximações fora do núcleo tradicional do bolsonarismo. “Eu acho que o Gayer ganha com essa disputa entre a Gracinha e o Gustavo Mendanha justamente por não estar fazendo parte dessa disputa, dessa briga”, afirmou.
Vassil, por sua vez, apontou Vanderlan Cardoso como quem perdeu espaço no período. “Ele hoje não está no radar das lideranças, nem prefeitos, nem vereadores. Ele não é o ponto de referência mais nem como primeiro nem como segundo voto”, avaliou.
Caiado deve voltar os olhos para Goiás
A corrida ao Senado levou a discussão para o papel de Ronaldo Caiado na reta final. Os convidados consideraram natural que o ex-governador intensifique sua presença em Goiás, especialmente para fortalecer Gracinha. “Ele falou para integrantes da base que, na reta final, vai estar mais presente aqui na campanha em Goiás, justamente para poder amarrar. Acho que a preocupação maior dele é a Gracinha, é a eleição de Gracinha”, disse Vassil.
Para o jornalista, uma vitória de Daniel acompanhada de uma derrota de Gracinha teria impacto direto sobre Caiado. “Ele ganhar com o Daniel aqui e a Gracinha perder é uma derrota para ele”, resumiu.
Raphael concordou e relacionou uma eventual intensificação da presença de Caiado em Goiás também ao desempenho de sua candidatura presidencial. “Eu acho que é o movimento mais natural, pensando nesse crescimento do bolsonarismo na reta final e pensando na força do Gayer”, afirmou.
‘Não achou o caminho’, diz Vassil sobre Caiado
A campanha presidencial de Caiado também entrou na rodada final. Ao analisar as dificuldades do goiano para avançar nacionalmente, Raphael citou a fragmentação do eleitorado de direita e a dificuldade de transformar a popularidade estadual em conhecimento e intenção de voto no restante do País.
“Era uma campanha extremamente difícil para Ronaldo Caiado. É um nome desconhecido nacionalmente e que vem de um Estado que não tem um volume de votos muito grande”, analisou.
Vassil foi mais taxativo sobre o cenário de segundo turno. “Todos os indícios são de que não tem”, respondeu ao ser questionado se Caiado ainda teria fôlego para chegar à segunda etapa da eleição presidencial.
Segundo ele, o problema não foi falta de tentativa de reposicionamento.
“Ele testou rumos e não conseguiu também levantar voo. Ir para cima do Lula de forma violenta, virulenta, não deu em nada. Colar em Flávio primeiro, no bolsonarismo, também não funcionou. Depois, partiu para atacar Flávio, para ser crítico ao Flávio, não funcionou”, avaliou.
A conclusão foi direta: “O fato é: não achou. Até agora, não achou”, disse Vassil.
Daniel tem a melhor campanha; Wilder, a pior
Na “Saideira”, quadro de respostas rápidas que encerra a Última Rodada, Raphael e Vassil coincidiram ao apontar Daniel como responsável pela campanha mais bem posicionada na disputa pelo Governo. “Tem um foco desde o início, ele trabalhou isso na pré-campanha, na transição de governo. Tem uma construção contínua”, explicou Vassil.
Os dois também escolheram Wilder quando questionados sobre a pior campanha. “A do Wilder”, respondeu Vassil. Raphael concordou: “Eu concordo. A do Wilder.”
Vassil afirmou que a estratégia depende excessivamente da força nacional do bolsonarismo. “A campanha dele só vai funcionar se for com o bolsonarismo. O Wilder, pelo Wilder, não mexeu em nada, não fez nada”, disse.
Os jornalistas também chamaram atenção para mensagens da própria campanha de Wilder que, segundo eles, se aproximariam do discurso de continuidade utilizado por Daniel.
“Ele está fazendo campanha para quem? Para ele ou para o Daniel?”, questionou Vassil ao comentar peças em que Wilder fala em seguir em frente e reconhece avanços do atual governo.
Segundo turno ainda é aposta dos convidados
Apesar da vantagem de Daniel, Raphael e Vassil disseram acreditar, hoje, que a eleição ainda deve chegar ao segundo turno. “Não termina no primeiro turno”, afirmou Raphael.
Ele argumentou que Wilder, Marconi e Luis César ainda podem reunir votação suficiente para impedir Daniel de ultrapassar a maioria dos votos válidos.
Vassil também respondeu “não”, embora tenha feito uma ressalva. “Não duvido se terminar”, disse, ao apontar que a reta final pode provocar mudanças tanto na oposição quanto na mobilização da estrutura governista.
Para os dois, Daniel é, neste momento, o nome mais seguro numa eventual segunda etapa. Na disputa pela outra vaga, ambos apostaram em Marconi, mas condicionaram a análise às próximas pesquisas e à possibilidade de uma arrancada bolsonarista em favor de Wilder. A própria incerteza resume o diagnóstico que abriu a estreia da Última Rodada: a eleição ao Governo ainda procura temperatura, enquanto a corrida ao Senado já encontrou a sua.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística.
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