Ex-deputado revisitou processo contra Dilma, explicou adesão a Marconi e projetou alianças para outubro
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Dez anos depois de ocupar o centro de uma das maiores crises políticas da história recente do país, o ex-deputado federal Jovair Arantes voltou a defender o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e afirmou que faria novamente o mesmo relatório apresentado à Câmara dos Deputados em 2016.
Em entrevista ao Domingos Conversa, Jovair revisitou aquele período, falou sobre as consequências eleitorais que sofreu, avaliou os governos que vieram depois e abriu o jogo sobre sua movimentação política em Goiás para as eleições de 2026.
Hoje ao lado do ex-governador Marconi Perillo (PSDB) e envolvido diretamente na campanha do filho, Henrique Arantes, à Câmara dos Deputados, Jovair também revelou bastidores das tentativas de composição partidária, admitiu apoio a Wilder Morais (PL) em um eventual segundo turno e declarou voto em Romeu Zema para presidente.
“Faria o mesmo relatório hoje”
Jovair não demonstrou arrependimento pela atuação no impeachment. “Eu faria o mesmo relatório hoje, sem nenhuma dúvida”, afirmou.
O ex-deputado avalia, porém, que o país não conseguiu dar sequência política ao processo iniciado em 2016. Segundo ele, havia naquele momento uma mobilização social que pressionava diretamente o Congresso pela saída de Dilma.
“O Brasil queria, o Brasil ansiava por aquilo. E nós fizemos o trabalho junto com toda a Câmara Federal e o Brasil dando apoio total”, disse.
Jovair também atribui ao impeachment parte importante da derrota que sofreu nas eleições de 2018. Segundo ele, sua atuação no processo afastou eleitores de esquerda que tradicionalmente votavam em sua candidatura. “Eu tinha aí uns 15, 20 mil votos da esquerda em Goiás, e esses votos não vieram, e eu perdi a eleição por mil e poucos votos”, afirmou.
Apesar disso, disse não se arrepender. “A obrigação do homem público é fazer o que tem que fazer. Não interessa se vai ser para ganhar voto ou se vai ser para perder voto.”
Dilma, Justiça e as pedaladas
Questionado sobre decisões judiciais posteriores envolvendo as chamadas pedaladas fiscais, Jovair sustentou que o relatório produzido pela comissão estava tecnicamente fundamentado.
Na avaliação dele, decisões posteriores passaram à sociedade a impressão de que o Congresso havia cometido uma injustiça. “Eles tentaram passar isso”, afirmou.
Jovair voltou a defender a legitimidade da decisão política tomada pelo Legislativo e destacou a pressão popular registrada naquele período. “O país não é do Ministério Público, o país não é do STF, o país não é dos políticos, o país é do povo”, disse.
No bate-bola ao final da entrevista, foi ainda mais direto ao ser perguntado se considera o episódio impeachment ou golpe. “Impeachment.”
Críticas a Bolsonaro e respeito a Lula
Ao analisar o período posterior à queda de Dilma, Jovair fez críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e apontou a condução política durante a pandemia como um dos principais fatores para sua derrota. “Ele tentou dar um norte diferenciado, mas exagerou na dose”, afirmou.
Para Jovair, Bolsonaro misturou ações sérias de governo com comportamentos inadequados, especialmente durante a crise sanitária. “Principalmente no momento de pandemia, onde muita gente morreu, muita gente perdeu entes queridos e ele brincava um pouco com aquilo. [...] Aquilo, no meu entendimento, foi o que causou toda a sua derrocada.”
Em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, adotou um tom diferente. Disse manter respeito pela dimensão política do petista. “Eu tenho um querer bem pela figura e um respeito pela figura de um líder como ele é. Ele é um líder nacional”, afirmou.
A volta ao campo de Marconi
Jovair também explicou sua aproximação com Marconi Perillo depois de passar pelo Republicanos e conversar com outras legendas.
Ele contestou a leitura de que tenha integrado a base política de Ronaldo Caiado nos últimos anos. “Eu não fui da base do Ronaldo Caiado nunca. Em nenhum momento”, afirmou.
Segundo Jovair, chegou a tentar levar o Republicanos para uma aliança com Marconi e conversou diretamente com o presidente nacional da sigla, Marcos Pereira. “Sonhei em trazer o Republicanos para ir com o Marconi, mas não consegui. Então nós saímos do Republicanos e filiamos no PSDB.”
A escolha, segundo ele, também tem relação com a avaliação que faz dos governos tucanos. “A crença que nós temos no Marconi é na crença da qualidade do administrador”, disse.
Jovair citou obras e programas implantados durante as gestões tucanas e fez críticas ao governo Caiado, que encerrou seu segundo mandato neste ano.
Solidariedade e críticas ao MDB
Antes da definição pelo PSDB, Jovair admitiu que discutiu uma filiação ao Solidariedade.
Segundo ele, houve conversas com o presidente estadual da sigla, Dênis Pereira, e com o presidente nacional, Paulinho da Força.
A negociação não avançou porque, segundo Jovair, o Solidariedade caminharia politicamente com o MDB em Goiás. “Eu iria para lá se eles viessem com o Marconi”, contou.
Foi nesse trecho que Jovair fez uma das críticas mais duras da entrevista. “O MDB é fim de linha para qualquer partido, para qualquer candidato, para qualquer situação”, declarou.
Para ele, a legenda possui “um olhar muito estreito” sobre a política estadual.
Segundo turno pode aproximar PSDB e PL
Jovair afirmou acreditar que a eleição para o Governo de Goiás será decidida no segundo turno.
Na avaliação do ex-deputado, nem mesmo a estrutura política reunida pela base governista será suficiente para liquidar a disputa na primeira votação.
Sobre as alianças futuras, apontou uma proximidade maior entre PSDB e PL.
Perguntado se, numa eventual ausência de Marconi no segundo turno, defenderia apoio a Wilder Morais, respondeu: “Eu, com certeza, na mesa de discussão, eu diria isso.”
Jovair também não descartou conversas com outros partidos depois do primeiro turno, inclusive com o PT, embora considere hoje o PL politicamente mais próximo dos tucanos.
“A tendência é discutir com quem mais parece com a gente nesse momento.”
Voto em Zema
Na disputa presidencial, Jovair revelou que pretende votar em Romeu Zema. “Meu candidato pessoal de votar é o Zema. Vou votar no Zema”, afirmou.
Segundo ele, o governador mineiro apresenta características que considera próximas ao perfil do eleitorado goiano.
Jovair também disse que não teria dificuldade para votar em Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.
No fim da entrevista, ao ser perguntado sobre quem acredita que será o próximo presidente, respondeu que a disputa estará “entre Lula e Flávio”.
Bastidores da gestão Rogério Cruz
A passagem de Jovair pela Secretaria de Governo de Goiânia também entrou na conversa.
Ele afirmou que a administração de Rogério Cruz sofreu desde os primeiros meses com disputas internas e interferências de diferentes grupos.
Questionado especificamente sobre influência da Igreja Universal, evitou atribuir responsabilidade direta à instituição religiosa.
“Eu não posso entrar muito nesse detalhe porque eu não sou da mesma religião e eu seria antiético falar de uma coisa que internamente não conheço.”
Na sequência, porém, reconheceu problemas. “Grupos externos interferiram e tentaram e atrapalharam bastante. Muitos.”
Jovair também avaliou que Rogério tinha dificuldade de dizer “não” e concedeu espaço excessivo para setores da Câmara Municipal.
“Ele concedeu muita liberdade à Câmara Municipal.”
Ao tratar da relação de alguns vereadores com a Prefeitura, usou uma expressão ainda mais direta. “Tinha uns prefeitinhos na Prefeitura e esses prefeitinhos tinham que ser desarmados.”
Apesar dos conflitos daquele período, elogiou a atuação do presidente da Câmara, Romário Policarpo. “O Romário foi ético. O Romário foi muito, muito bom.”
Mabel pode ser “o melhor prefeito da história”
Ao avaliar a atual administração de Goiânia, Jovair deu nota entre 7 e 8 para Sandro Mabel.
Para o ex-secretário, o prefeito tem possibilidade de deixar uma marca relevante caso consiga enfrentar problemas históricos da cidade.
“Pode, se fizer esses ajustes”, respondeu ao ser questionado se Mabel poderia se tornar o melhor prefeito da história de Goiânia.
Entre os desafios citados estão coleta de lixo, trânsito, saúde e vagas em creches.
Apesar da avaliação positiva, Jovair descartou assumir um cargo na atual Prefeitura.
Segundo ele, aceitar uma secretaria de Mabel seria incoerente com sua participação na gestão de Rogério Cruz, adversário do atual prefeito na eleição passada.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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