(Foto: Gercina Bar/Divulgação)

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DOMINGOS CONVERSA #20 | A ECONOMIA DA GASTRONOMIA E O FUTURO DOS BARES E RESTAURANTES EM GOIÂNIA, COM DANILLO RAMOS

DOMINGOS CONVERSA #20 | A ECONOMIA DA GASTRONOMIA E O FUTURO DOS BARES E RESTAURANTES EM GOIÂNIA, COM DANILLO RAMOS

Ex-presidente da Abrasel-GO, Danillo Ramos analisa os impactos da pandemia, a relação com o poder público e os desafios econômicos dos bares e restaurantes na capital

2 de fevereiro de 2026 às 17:24

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Domingos Conversa

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Goiânia se acostumou a resolver parte da vida à mesa. Em bares de bairro, botecos de calçada ou restaurantes tradicionais, a capital construiu uma identidade fortemente ligada à gastronomia. Hoje, são cerca de 20 mil estabelecimentos de alimentação fora do lar espalhados pela cidade, um número que impacta diretamente a economia, o emprego e a dinâmica urbana. Mas, após a pandemia, o setor ainda tenta se reorganizar.

Esse é o ponto de partida do episódio #20 do Domingos Conversa, que recebe Danillo Ramos, ex-presidente da Abrasel-GO, para uma análise franca sobre o presente e o futuro dos bares e restaurantes em Goiânia.

Logo no início da conversa, Danillo dimensiona o tamanho do setor e defende que a gastronomia goianiense já ultrapassou a fronteira regional. “São em torno de 20 mil estabelecimentos de alimentação fora do lar, entre bares, restaurantes, lanchonetes, pizzarias. Goiânia é, com certeza, uma referência de bares e de gastronomia em nível Brasil e em nível mundial”, afirma.

Segundo ele, a força do setor está na diversidade, que vai do boteco afetivo à alta gastronomia.  “Você não faz uma cidade só com um estilo gastronômico. O que destaca Goiânia é justamente essa diversidade. Tem o boteco acessível, que as pessoas frequentam com mais regularidade, e tem a alta gastronomia, que atrai turistas e pessoas de fora”, diz.

Identidade própria e “coisa nossa”

Ao longo da entrevista, Danillo insiste em um ponto: a gastronomia de Goiânia tem identidade própria.  “O espetinho daqui é diferente. O arroz branquinho, soltinho, com cheiro de alho, é diferente. O tempero goiano passa pela gastronomia”, afirma. Segundo ele, isso fica evidente para quem vem de fora. “Muita gente só percebe quando sai de Goiânia e volta com saudade da comida. Aí entende que aqui é diferente.”

Ele destaca ainda um fator econômico relevante: o custo. “Comer em Goiânia é barato em relação a outras capitais brasileiras. Isso também pesa na percepção de quem visita a cidade”, observa.

Nesse contexto, Danillo cita o programa “Goiânia Capital da Boa Mesa”, lançado em parceria com o Sindibares e a Abrasel, como estratégia para consolidar a cidade como destino gastronômico. “A ideia é criar ações, conteúdo, guias e até um ‘Netflix da gastronomia de Goiânia’ para vender esse produto para fora”, explica.

Turismo, grandes eventos e economia

A conversa avança para o turismo gastronômico e o impacto de grandes eventos. Danillo relata que, em restaurantes de alta gastronomia da capital, já é comum encontrar maioria de clientes vindos de fora.  “Outro dia eu estava em um jantar de negócios e metade das pessoas no restaurante não era de Goiânia”, conta.

Na avaliação dele, eventos como o Mundial de MotoGP representam um divisor de águas. “O maior ganho do MotoGP não é no esporte. É na economia de Goiânia”, afirma.
Danillo cita números divulgados pelo governo estadual. “Estamos falando de mais de R$ 850 milhões circulando na economia. Turismo feito com inteligência gera renda e emprego para grandes e pequenos negócios.”

Mesas na calçada e conflito com a lei

Um dos trechos mais duros da entrevista trata da polêmica das mesas na calçada. Para Danillo, a questão escancara o distanciamento entre legislação e vida real. “As pessoas querem sentar na calçada. Não foi o dono do bar que inventou isso”, diz. Segundo ele, há situações em que o salão fica vazio enquanto as mesas externas lotam. “O ambiente está climatizado, limpo, sem barulho, mas o cliente prefere a calçada. O comerciante tem que atender o cliente.”

Danillo reconhece avanços recentes na relação com a Prefeitura, mas faz um alerta. “Enquanto não houver regras simples e definitivas, esse problema vai voltar. Entra prefeito, sai prefeito, e a discussão reaparece”, afirma.

Ele critica leis complexas e defende simplificação. “A grande maioria dos bares e restaurantes é de pequeno porte. Quando a lei complica, ela coloca mais peso nas costas do empresário e também do servidor público”, avalia.

Cultura, música e sobrevivência

Outro ponto sensível é a legislação ambiental e o impacto sobre música ao vivo. “Se a legislação ambiental for levada ao pé da letra, ela fecha todos os bares e restaurantes e deixa músicos desempregados”, diz. Na visão dele, muitos empresários seguem funcionando por coragem. “Eles salvam a cultura da cidade assumindo risco.”

À frente do Bar do Piry, referência da culinária nordestina, Danillo relata que o estabelecimento precisou suspender a agenda fixa de música ao vivo. “Hoje o som ao vivo é só de vez em quando, exatamente por conta dessas dificuldades”, explica.

Pandemia, prejuízos e recuperação lenta

O momento mais denso do episódio é a análise dos efeitos da pandemia. Danillo assumiu a presidência da Abrasel-GO justamente no auge da crise. “Foi uma loucura. Decretos saíam à noite e você tinha que fechar por mais duas semanas”, lembra.

Ele considera que houve exageros nas medidas. “Prefeitos queriam dar uma resposta rápida para a sociedade e acabava sobrando para bares e restaurantes”, afirma. Segundo ele, o setor pagou a conta. “O empresário pagou do bolso, da família, do patrimônio. Funcionários pagaram com emprego.”

Danillo apresenta números que dimensionam o impacto. “Antes da pandemia, quando 20% das empresas estavam no prejuízo, já era um cenário muito difícil. Durante a pandemia, chegamos a 95% das empresas operando no prejuízo”, relata.

Hoje, segundo ele, a situação melhorou, mas ainda preocupa. “Estamos em torno de 20% das empresas com prejuízo e quase 50% entre prejuízo e sem lucro. A recuperação existe, mas é lenta”, afirma.

Ajuda pública insuficiente

Questionado sobre apoio do poder público, Danillo é direto. “Houve programas como o Peac, que ajudaram, mas foram difíceis de operar e acabaram antes do tempo”, diz. Ele critica o fim precoce do programa. “Na pandemia se falava em manter até 2027. Hoje ele já acabou.”

Danillo também cita a ausência de medidas municipais mais amplas. “Algumas prefeituras isentaram IPTU. Em Goiânia isso não aconteceu, e, na minha visão, era mais do que justo”, afirma.

Mudança de comportamento e bares fechando mais cedo

O empresário também analisa mudanças no hábito do consumidor. “A pandemia acelerou mudanças que já iriam acontecer”, diz. Ele aponta a influência da geração Z, a redução do consumo de álcool e o avanço do mundo digital.  “Hoje você interage, trabalha e se diverte sem sair de casa. Isso impacta diretamente o setor.”

Para Danillo, isso explica por que bares e restaurantes fecham mais cedo. “Quem dita esse comportamento é o consumidor”, resume.

Expectativas para 2026

No encerramento, o tom é de cauteloso otimismo. “O setor é muito ligado ao consumo das pessoas. Carnaval ajuda, o MotoGP vem na hora certa, depois tem festa junina, ano eleitoral e Copa do Mundo”, avalia.  “Tudo isso tende a ajudar bares e restaurantes.” O episódio #20 do Domingos Conversa está disponível na TV Capital e nas principais plataformas de streaming.

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Domingos Ketelbey

É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística

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