
Articulador da Liga dos Blocos relaciona Carnaval, cidade, economia e política pública na construção da festa em Goiânia
26 de janeiro de 2026 às 22:15
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“Eu quero é botar meu bloco na rua. Gingar, pra dar e vender.” O verso de Sérgio Sampaio ajuda a traduzir o espírito da conversa com o produtor cultural Vitor Cadillac, um dos principais articuladores da Liga dos Blocos do Carnaval de Rua de Goiânia. Em entrevista ao Domingos Conversa, gravada no Beco da Codorna, no Centro da capital, ele defendeu que o impacto da festa vai muito além dos números econômicos e passa por uma mudança na forma como a cidade se relaciona com a cultura e o espaço urbano. “O mais importante não é o PIB. É a felicidade interna bruta que a gente consegue gerar na cidade no final da festa”, afirmou.
Ao longo da entrevista, Cadillac lembra que, durante muitos anos, o Carnaval não fazia parte da rotina do goianiense. O feriado era sinônimo de estrada, interior ou descanso. “Se eu olho para 15 anos atrás, o goianiense saía da cidade no Carnaval. A retomada dos blocos de rua, gratuitos, começa a mudar esse cenário”, pontuou. Para ele, o crescimento do número de blocos e do público mostra uma mudança de comportamento e abre espaço para que o Carnaval deixe de ser tratado à margem e passe a ser visto como pauta de cidade.
Para ele, o crescimento do público e dos blocos mostra que a festa começa a alterar um comportamento histórico e passa a ocupar espaço no cotidiano da cidade.
“O Carnaval talvez seja o momento em que a cultura urbana mais radicaliza a sua manifestação. A gente está na rua. Tem ambulante, tem lixo, tem banheiro, tem trânsito. Isso exige corresponsabilidade.” Cadillac reforça que o êxito do Carnaval não depende apenas dos organizadores. “O Carnaval não é da Liga, não é da Prefeitura, não é de ninguém. É uma manifestação cultural que precisa envolver todos os atores, com seus ônus e bônus.”
Nesse contexto, ele aponta que a presença do poder público é decisiva para que a ocupação da rua seja bem recebida inclusive por quem não participa diretamente da festa. “Uma estrutura de banheiro, de limpeza, de organização, não beneficia só o folião. Beneficia também quem está em casa. O bloco passa e a rua volta a estar pronta para o uso cotidiano.”
A programação dos 35 blocos
Ao falar sobre a relação com a Prefeitura, Cadillac cita exemplos de outras cidades. “Belo Horizonte começou junto com Goiânia, mas lá a Prefeitura entendeu o que o Carnaval precisava. Criou os mecanismos para que empresas investissem. O Carnaval cresceu porque houve organização administrativa.”
Ele avalia que, pela primeira vez, Goiânia vive um momento de maior abertura institucional para tratar o tema. “A gente tem a faca e o queijo na mão para fazer o maior Carnaval da história. Agora isso depende de como Prefeitura, Estado, polícia, Comurg e blocos vão conseguir se comunicar daqui até o Carnaval.”
Cadillac também detalha a programação dos 35 blocos filiados à Liga, que começa ainda em janeiro e segue até a terça-feira de Carnaval. “Tem bloco para criança, tem bloco para quem gosta de samba, tem bloco para quem gosta de DJ. A cultura tem muito na mão. A cultura acontece independente de quem está sentado na cadeira.”
O impacto econômico que não aparece nas contas
Outro ponto abordado é o impacto econômico, que, segundo ele, é subestimado nas medições formais. “Falam em R$ 30 milhões circulando na economia, mas isso é subnotificado. A costureira da fantasia não entra nessa conta. O ambulante não entra nessa conta.”
E volta ao ponto central da entrevista: “O mais importante não é o número. É a felicidade interna bruta que a cidade vive no final da festa.”
Ao ampliar a discussão, Cadillac relaciona Carnaval, cultura e política pública. Arte é trabalho e cultura é direito. Enquanto isso não for entendido de forma clara, a gente vai continuar tratando cultura como custo e não como investimento.”
Cultura, política e a crítica ao governo Bolsonaro
A entrevista também avança para uma leitura política sobre cultura no Brasil. Ao comparar posturas de governos, Cadillac cita diretamente a gestão federal anterior.
“No governo Bolsonaro, a gente teve o fim do Ministério da Cultura. Ele transformou numa secretaria pífia, chefiada por um ex-ator da Malhação, que não tinha a mínima capacidade de entender o que é cultura de verdade.” A referência é ao ex-secretário especial da Cultura, Mário Frias.
Para Cadillac, a diferença está na forma como a política enxerga o papel da cultura. “Arte é trabalho e cultura é direito. Enquanto isso não for entendido de forma clara, a gente vai continuar tratando cultura como custo e não como investimento.”
Ele também cita o retorno do festival Bananada como reflexo de um ambiente político mais favorável. “Não é coincidência que o Bananada volte num momento em que a política cultural volta a existir de fato.”
Gravada no próprio espaço que será palco de parte da programação carnavalesca, a conversa utiliza o Beco da Codorna como pano de fundo para discutir o Carnaval como ocupação urbana, cultura viva e instrumento de transformação da relação da cidade com a rua. A entrevista completa está disponível nas principais plataformas de podcast
Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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