
Para a secretária, educação precisa ser tratada como política de Estado, com continuidade, independentemente de disputas eleitorais
19 de janeiro de 2026 às 18:04
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A secretária de Educação de Goiás, Fátima Gavioli, defendeu que a educação não pode ser partidarizada, confirmou que recebeu convite para disputar uma vaga de deputada federal em 2026 e criticou a ideologização do debate educacional no país. As declarações foram dadas em entrevista ao podcast Domingos Conversa, apresentado pelo jornalista Domingos Ketelbey.
A conversa foi gravada na semana de retomada do ano letivo da rede estadual, e percorre gestão, política, bastidores e cenário eleitoral.
Logo no início da entrevista, Gavioli afirmou que a autonomia administrativa foi determinante para os resultados alcançados pela educação goiana nos últimos anos. Segundo ela, o governador Ronaldo Caiado optou por não interferir politicamente na Secretaria.
“O governador me entregou a chave da Seduc e disse: ‘você vai administrar a Secretaria. Eu não vou interferir e não vou partidarizar a educação’. Isso deu muito certo”, afirmou.
Para a secretária, educação precisa ser tratada como política de Estado, com continuidade, independentemente de disputas eleitorais. “Educação não pode ser um instrumento de narrativa política. Ela precisa ter método, processo e continuidade”, disse.
Infraestrutura e reorganização da rede
Ao falar sobre o início do ano letivo de 2026, Gavioli comparou o cenário atual com o encontrado no começo da gestão, em 2019. Segundo ela, os problemas estruturais eram generalizados.
“No início de 2019, nós tínhamos mais de sessenta escolas com obras inacabadas, escolas iniciando o ano sem prédio, problemas graves de infraestrutura”, lembrou. “Hoje, neste início de ano letivo, só duas escolas precisaram de remanejamento de salas. Para quem tinha sessenta e tantas, é uma mudança enorme.”
Ela afirmou que situações como atraso em obras ainda tiram o sono de quem está à frente da pasta. “Quando uma empresa não cumpre o ritmo da obra, isso é desesperador. O pai precisa de estabilidade para organizar a vida do filho. Quando o prédio não fica pronto, isso afeta toda a família.”
Demografia, baixa matrícula e futuro das escolas
Questionada sobre evasão escolar, a secretária disse que o problema hoje não é mais a evasão, mas a redução no número de matrículas, reflexo de mudanças demográficas no país.
“O que me preocupa hoje não é a evasão. É a baixa matrícula”, afirmou. “As famílias estão diminuindo. A população brasileira está envelhecendo. Daqui a trinta anos, muitas escolas que inauguramos agora podem virar lares de idosos.”
Ela relacionou o fenômeno ao comportamento das novas gerações. “A juventude hoje quer viajar, aprender idiomas, viver experiências. A lógica de casar cedo e ter muitos filhos mudou completamente.”
Tecnologia, pandemia e acesso à educação
Gavioli também relembrou decisões tomadas durante a pandemia, especialmente a compra de equipamentos para estudantes da rede estadual.
“Nós percebemos que o único celular da família não era um instrumento adequado para o aluno estudar”, disse. “Muitas mães diziam: ‘o telefone é meu, eu preciso acompanhar as notícias, meu filho não pode ficar com ele’. Foi aí que decidimos comprar Chromebooks para os estudantes.”
Segundo ela, a pandemia escancarou desigualdades e forçou decisões rápidas. “Educação não pode esperar. Todos os dias você precisa decidir algo importante. A secretaria é dinâmica, as demandas são horárias.”
Ideologia, polarização e escola
Um dos trechos mais contundentes da entrevista foi quando a secretária comentou os ataques ideológicos à educação, especialmente durante a pandemia.
“Houve um momento em que ensinar ciência virou polêmica. Isso foi um show de ignorância”, afirmou. “E dos dois lados. Extremismos, tanto da direita quanto da esquerda, não ajudam a educação.”
Gavioli disse que a rede estadual reflete hoje um retrato mais plural da sociedade. “Nossa rede não é mais de esquerda, mas também não está tomada pela direita. Ela transita muito pelo centro”, afirmou.
Sobre temas sensíveis, defendeu uma postura de acolhimento. “Nós não estamos discutindo orientação sexual. O aluno trouxe a certidão com nome social? Nós temos que respeitar, acolher, incluir e ensinar. É isso.”
Legado e transição
Ao falar sobre o que ficará para o próximo gestor, Gavioli foi direta ao afirmar que a educação é um processo de médio e longo prazo.
“Nós construímos 355 quadras em oito anos. O próximo deve entregar mais umas 170 e zerar essa demanda”, disse. “Das quase mil escolas, reformamos cerca de 700. Ainda ficam mais de 200.”
Ela citou programas pedagógicos que ainda estão em fase de consolidação. “O Go English começou agora. Quem vai colher os resultados é o próximo.”
Segundo a secretária, isso faz parte da natureza da política educacional. “Você planta hoje para colher daqui a alguns anos. Educação não é imediata.”
Convite para disputar vaga de deputada federal
No campo político, Gavioli confirmou que recebeu convite para disputar uma vaga de deputada federal em 2026.
“Recebi um convite do governador e do vice-governador para disputar a eleição para deputada federal”, afirmou. Questionada sobre partido, disse que ainda não há definição. “Não tem partido definido. Provavelmente eu serei um nome trabalhado na formação de uma chapa.”
Ela também falou abertamente sobre suas limitações eleitorais. “Eu sei das minhas limitações. A primeira é financeira. A segunda é não pertencer a uma família tradicional da política goiana.”
Bandeira no Congresso: menos dias letivos
Caso seja eleita, Gavioli afirmou que uma de suas principais bandeiras será a redução do número de dias letivos no Brasil.
“Sou contra os 200 dias letivos. Defendo 180 dias”, disse. “Na França são 175, na Inglaterra 180. Aqui, o professor tem 30 dias de férias em julho e 15 de recesso em janeiro. Isso não é saudável.”
Ela relacionou a carga excessiva ao aumento de afastamentos médicos. “Eu já dizia lá atrás que os 200 dias gerariam uma chuva de laudos. E foi o que aconteceu.”
Cenário político
No bate-bola final, a secretária declarou apoio a Daniel Vilela para o governo de Goiás e a Ronaldo Caiado para a Presidência da República. “O próximo governador de Goiás será Daniel Vilela”, afirmou. “E o próximo presidente da República será Ronaldo Caiado.”
Para Gavioli, o papel do vice precisa ser técnico e institucional. “Defendo um vice que entenda sua posição, que dê suporte para o governador trabalhar.”
Onde assistir
A entrevista completa com Fátima Gavioli está disponível no podcast Domingos Conversa, com exibição na TV Capital e nas principais plataformas de streaming.
Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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