Púlpitos vazios disseram mais sobre a corrida presidencial do que o confronto na Band
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O primeiro debate presidencial de 2026 produziu uma imagem incômoda para quem tenta vender a ideia de uma eleição aberta: Lula e Flávio Bolsonaro, que juntos somam 78% das intenções de voto na pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira (24), simplesmente não estavam lá.
No palco da Band ficaram Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Romeu Zema (Novo), outro candidato da direita, também não participou. O espaço que poderia servir para impulsionar alternativas à polarização acabou mostrando justamente o tamanho da distância entre elas e os dois líderes.
A ausência dos dois primeiros colocados poderia, em tese, abrir espaço para os demais. Na prática, fez o contrário. Lula e Bolsonaro continuaram sendo o centro do debate mesmo sem aparecer diante das câmeras.
O fenômeno ajuda a explicar em que ponto a eleição presidencial chegou em uma campanha que tem vários candidatos, mas, neste momento, apenas dois polos eleitorais. Em março deste ano, o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho destacava o que praticamente todo mundo sabe: no Brasil, há dois partidos com chances de vencer uma eleição, PT ou PL. O resto ou pensar numa terceira via é chover no molhado.
A pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira (24) coloca Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37%. Caiado aparece muito atrás, com 5%. Renan Santos e Zema têm 3% cada. Augusto Cury marca 2%. Somados, Lula e Flávio chegam a 78% das intenções de voto no cenário estimulado.
O Datafolha divulgado dias antes apontava quadro semelhante: 39% para Lula e 33% para Flávio. Não se trata apenas de liderança nas pesquisas. Trata-se da capacidade de organizar a eleição ao redor de si.
Flávio Bolsonaro praticamente explicitou isso ao justificar por que não foi à Band. “Quem está lá não é meu adversário”, afirmou durante a transmissão. O alvo que escolheu atacar foi Lula. A frase pode soar arrogante para quem está atrás, mas eleitoralmente descreve a estratégia do PL.
Bolsonaro não tem interesse em tratar Caiado, Zema ou Renan como concorrentes equivalentes. Quanto mais a eleição for apresentada como uma escolha binária entre o PT e o bolsonarismo, menor será o espaço para uma terceira candidatura crescer. Lula, por razões diferentes, opera sob lógica semelhante.
O presidente lidera as pesquisas e não precisa, neste estágio da campanha, oferecer exposição gratuita a candidatos que tentam justamente transformar o debate em trampolim. Comparecer significaria colocar Caiado, Renan ou Cury diante do presidente da República em condições de igualdade durante algumas horas.
Ficar em casa tem custo político. Pode render acusações de fuga e desprezo pelo eleitor. Mas, olhando apenas para a matemática eleitoral, é possível entender a decisão. A ausência preserva a hierarquia que as pesquisas já estabeleceram.
O problema de Caiado
É neste ponto que o debate expõe também o principal dilema de Ronaldo Caiado, já dito aqui neste espaço. O ex-governador de Goiás conseguiu espaço praticamente exclusivo para apresentar sua candidatura nacional. Falou de segurança, economia e da experiência administrativa em Goiás. Teve televisão, tempo e palco. Mas precisa transformar exposição em voto.
A pesquisa BTG/Nexus oferece talvez o retrato mais duro dessa dificuldade. Caiado tem apenas 5% no primeiro turno, mas chega a 42% num eventual segundo turno contra Lula, que marca 46%. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, há empate técnico. É uma situação curiosa que reiteramos há algumas semanas: Caiado consegue ser competitivo numa eleição à qual, por enquanto, não consegue chegar.
O problema do goiano não é convencer o eleitor antipetista de que pode enfrentar Lula. Os números indicam que boa parte desse eleitorado votaria nele numa disputa direta. O obstáculo está antes.
Para chegar ao segundo turno, Caiado precisa retirar votos justamente de Flávio Bolsonaro. E é por isso que o bolsonarismo trabalha para tornar essa escolha desnecessária.
Quando Flávio diz que os candidatos presentes na Band não são seus adversários, manda um recado principalmente ao eleitor de direita: a disputa útil, na visão dele, já está definida.
No dia seguinte ao debate, foi além e pediu diretamente votos dos eleitores de Caiado, Zema e Renan Santos ainda no primeiro turno. Essa é a batalha real da candidatura de Caiado.
Não basta mostrar que poderia derrotar Lula num segundo turno. É preciso convencer uma parcela relevante da direita a abandonar um Bolsonaro para que esse segundo turno exista.
Dois ausentes que dominaram o debate
O paradoxo do último domingo foi esse. Caiado, Renan e Cury tiveram os microfones. Lula e Bolsonaro tiveram a eleição.
Os candidatos presentes falaram deles, criticaram suas ausências e construíram boa parte de suas intervenções em oposição aos dois líderes. Lula acabou sendo o principal alvo da noite. Até a discussão posterior ao encontro continuou girando em torno de quem não foi.
É cedo para decretar que outubro esteja decidido. Campanhas mudam, escândalos aparecem, erros acontecem e o horário eleitoral ainda pode alterar percepções.
Mas o primeiro debate deixou uma fotografia bastante nítida do ponto de partida. Há uma eleição formal, com vários candidatos inscritos.
E há a eleição que o eleitor parece estar fazendo. Por enquanto, ela é entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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