Acidente com o Césio-137 aconteceu em setembro de 1987. (Foto: Governo de Goiás)

Acidente com o Césio-137 aconteceu em setembro de 1987. (Foto: Governo de Goiás)

Acidente com o Césio-137 aconteceu em setembro de 1987. (Foto: Governo de Goiás)

Acidente com o Césio-137 aconteceu em setembro de 1987. (Foto: Governo de Goiás)

Quase 40 anos depois, Goiânia terá Memorial e Museu do Césio-137

Quase 40 anos depois, Goiânia terá Memorial e Museu do Césio-137

Espaço dedicado às vítimas e à preservação da história do maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear ainda terá local definido pela Prefeitura

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Cidades

Quase quatro décadas depois do acidente que marcou definitivamente a história de Goiânia, a capital terá um espaço dedicado à preservação da memória do Césio-137. O prefeito Sandro Mabel (União Brasil) sancionou a Lei nº 11.692/2026, que institui o Memorial e Museu do Césio-137.

A sanção foi publicada no Diário Oficial do Município (DOM) desta quinta-feira (27). A proposta é de autoria do vereador Lucas Kitão (Mobiliza) e foi aprovada por unanimidade no plenário da Câmara Municipal de Goiânia na primeira sessão do semestre legislativo.

O endereço do futuro Memorial e Museu ainda não foi definido. De acordo com a lei, caberá à Prefeitura escolher o espaço que receberá a estrutura.

A proposta é que o local seja destinado a homenagear as vítimas, preservar a memória do acidente e de seus impactos sociais e funcionar também como espaço cultural e educativo para escolas, universidades e visitantes.

Acidente completa 39 anos em setembro

A criação do Memorial ocorre às vésperas dos 39 anos do acidente com o Césio-137. O episódio teve início em setembro de 1987, após o manuseio indevido de um aparelho de radioterapia abandonado onde havia funcionado o Instituto Goiano de Radioterapia, em Goiânia.

A cápsula contendo o material radioativo foi retirada do equipamento e acabou sendo aberta em um ferro-velho na região central da capital. O Césio-137 foi manipulado por diferentes pessoas, provocando uma contaminação que ultrapassou os locais onde o material esteve fisicamente presente.

Mais de mil pessoas foram atingidas direta ou indiretamente pelo episódio, segundo as informações que acompanham a proposta. Quatro vítimas morreram após terem contato direto com o material radioativo.

Além das consequências para a saúde, o acidente deixou marcas sociais profundas. Vítimas, familiares e até moradores de Goiás enfrentaram estigmatização e desinformação em razão do medo provocado pela contaminação radioativa.

Onde ficará o Memorial do Césio-137?

Essa é uma questão que ainda precisa ser definida. A lei sancionada por Sandro Mabel não estabelece um endereço para o Memorial e Museu do Césio-137. A escolha do local ficará a cargo do Paço Municipal.

Lucas Kitão, autor da proposta, não indicou formalmente um imóvel para receber a estrutura, mas defende que o Memorial seja instalado na região central de Goiânia, onde o acidente aconteceu.

A previsão é que o espaço tenha área de convivência, exposições e ambientes destinados à preservação histórica e às homenagens às vítimas.

Kitão afirmou que pretende trabalhar para que a implantação ocorra o mais rapidamente possível. O vereador cita como uma das referências o Museu e Memorial do World Trade Center, em Nova York, criado para preservar a memória das vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. “Nossa ideia é ter um local em Goiânia, assim como existe em Nova York, nos Estados Unidos, no Museu e Memorial do World Trade Center. O local preserva a história e a memória das vítimas do atentado de 11 de setembro de 2001. É importante termos esse mesmo espaço aqui, na Capital, e preservamos ainda mais o Centro de Ciências Nucleares”, explicou.

Preservar uma história marcada pela dor


Para Kitão, a criação do Memorial também permitirá reconhecer os profissionais que trabalharam durante a emergência e reunir, em um mesmo espaço, parte da história que hoje está dispersa. “A cidade de Goiânia tem em sua linha do tempo o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear. Está em nossa história e deixou um legado de dor, estigmatização e desinformação, mas também revelou a solidariedade de profissionais de saúde, bombeiros, militares e cidadãos que atuaram heroicamente no socorro às vítimas”, afirmou.

O vereador também ressaltou que a iniciativa para criação do espaço é anterior à repercussão da série Emergência Radioativa, da Netflix. A produção voltou a colocar o acidente no centro das discussões e teve a maior parte das gravações realizada em São Paulo.

Com o Memorial, a proposta é que a própria Goiânia passe a contar com um espaço permanente para contar essa história, preservar documentos e relatos e homenagear as pessoas atingidas pelo acidente.

“Uma história que Goiânia ainda não resolveu”

A discussão sobre a preservação da memória do Césio-137 já havia sido abordada por este portal em entrevista com a jornalista e escritora Carla Lacerda, autora do livro Sobreviventes do Césio-137.

Em abril, Carla participou do Domingos Conversa para discutir as consequências do acidente que permanecem quase quatro décadas depois. A entrevista abordou justamente questões como preservação da memória, reconhecimento das vítimas e respostas do poder público.

O próprio episódio foi apresentado sob uma provocação que ganha novo significado diante da sanção da lei: “Sobreviventes do Césio-137: uma história que Goiânia ainda não resolveu”.

Carla acompanha a história das vítimas há décadas. O livro Sobreviventes do Césio-137 surgiu a partir de uma série de reportagens produzida pela jornalista em 2007, quando o acidente completou 20 anos. O trabalho reconstrói o episódio a partir da perspectiva das pessoas que sobreviveram e conviveram com suas consequências.

Ao apresentar posteriormente o projeto de uma nova edição da obra, Carla resumiu um dos objetivos do trabalho como a necessidade de “darmos voz às vítimas e eternizarmos uma história” que não pode ser esquecida.

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Domingos Ketelbey

É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística

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