Línio de Paiva

Línio de Paiva (Foto: Alego)

Línio de Paiva

Línio de Paiva (Foto: Alego)

Línio de Paiva

Línio de Paiva (Foto: Alego)

Línio de Paiva

Línio de Paiva (Foto: Alego)

Primeiro amigo do meu pai, depois meu amigo

Primeiro amigo do meu pai, depois meu amigo

As minhas memórias de Línio de Paiva, advogado, conselheiro, amigo de meu pai. E meu também

·

Crônica

Luizinho Mugstones, meu pai foi um grande amigo de Línio de Paiva, que não resistiu a um câncer e se foi na manhã desta terça-feira (10/3). Eles se conheceram por volta de 2005, quando eu tinha uns 15 anos. Hoje, aos 37, a notícia da morte dele me trouxe aquela sensação estranha de quando uma parte da casa da gente desaba um pouco por dentro. Passa um filme.

Quem fez a ponte entre os dois foi outro personagem daqueles que parecem saídos de um livro: Bariani Ortêncio. O Bariani que conhecemos, o Bariani de todos, centenário, erudito, contador de histórias, atleticano (não que essa seja essencialmente uma boa qualidade), e uma espécie de guardião da memória goiana.

Durante muitos anos, Línio foi presença constante na minha casa. Às vezes semanalmente. Em certos períodos, quase diária. Meu pai tinha um estúdio que, olhando hoje, valia ouro. Era ali que as coisas aconteciam.

Línio chegava, sentava, conversava, afinava a voz e começava a gravar. Poemas, músicas, declamações. Composições próprias e de meu pai, regravações. Foram centenas de gravações. Pelo menos um álbum inteiro passou por ali.

Era curioso ver aquele advogado respeitado, ex-deputado, conselheiro do Tribunal de Contas, homem da política, se transformar diante do microfone. Surgia o cantor. Às vezes o poeta. Por muitas vezes, os dois. Entre essas gravações, havia uma música que sempre voltava: “Sem teu amor”, composição do meu pai.

Não foram poucas as vezes em que eu e Cláudio, filho do Línio, depois de uma tarde de conversa regada a bebida e lembranças, acabávamos cantando juntos aquele refrão que parecia atravessar as gerações. “A vida para mim é um tormento, pois já não sei viver sem teu amor”, cantava o refrão.

Minha história com Línio tem muitas camadas. Trabalhei com dois de seus filhos. Com Cláudio, construí uma amizade profunda que já dura mais de uma década. Dessas amizades que passam da política, do trabalho, da vida pública. Com Sérgio, a relação foi mais institucional, mas não menos importante. Foi ele quem me abriu a primeira porta no jornalismo, pouco mais de doze anos atrás, no jornal A Redação. Sem aquele convite, talvez a história fosse outra.

O câncer levou Línio aos 89 anos. Mas há coisas que a morte não alcança com tanta facilidade. A música fica. As gravações ficam. As histórias ficam.

E ficam também as lembranças daquele homem que transitava com naturalidade entre o direito, a política, a poesia e a boemia. O advogado que cantava. O ex-deputado que escrevia versos. Um bon vivant, no sentido mais clássico da expressão.

Um homem que, olhando para trás, parece ter vivido exatamente como quis viver. E que, se tivesse mais tempo, provavelmente continuaria vivendo do mesmo jeito. Cantando, escrevendo, brindando e aparecendo na casa dos amigos com sua voz potente e alguma história nova para contar. 


Image

Domingos Ketelbey

É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística

Continue a leitura

Línio de Paiva