Lanterna com nove pontos a cinco rodadas do fim, Galo reagiu quando já quase não havia margem para erro
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Esportes
Não houve taça no Jonas Duarte. Não houve acesso, classificação para o quadrangular ou volta olímpica. O Anápolis terminou a primeira fase da Série C em 18º lugar. Mesmo assim, quando a rodada acabou na tarde de sábado, havia razão para comemorar.
O Galo da Comarca estava vivo. No futebol, há temporadas em que a vitória não vem acompanhada de troféu. Às vezes, ela cabe na simples possibilidade de continuar. Para o Anápolis, continuar significava permanecer na Série C, preservar o espaço conquistado dois anos antes e evitar o retorno a uma divisão da qual foi tão difícil sair.
O empate por 1 a 1 com o Santa Cruz resumiu bem os meses anteriores. Houve tensão, desvantagem, reação e dependência de alguma ajuda externa. Eurico colocou o time pernambucano na frente ainda no primeiro tempo. Aos 28 minutos da etapa final, Fernando Viana apareceu no rebote e empatou. O resultado, combinado com a derrota do Itabaiana para o Botafogo-PB, confirmou o Anápolis na terceira divisão em 2027.
Era apenas um ponto. Mas aquele ponto carregava meses inteiros. Quem olha apenas para a tabela final pode imaginar uma fuga comum de rebaixamento. Não foi. O Anápolis passou boa parte do campeonato com a Série D respirando no seu pescoço.
Depois de dez rodadas, tinha cinco pontos e ocupava a lanterna. Nem mesmo a conquista inédita da Copa Centro-Oeste, em maio, havia conseguido mudar o rumo da campanha nacional. O time que levantava uma taça regional e garantia vaga direta na terceira fase da Copa do Brasil de 2027 era, simultaneamente, o último colocado da Série C.
O contraste dizia muito sobre uma temporada difícil de explicar. Treinadores passaram pelo banco. Ângelo Luiz deixou o clube depois das primeiras rodadas. Evaristo Piza chegou prometendo uma resposta imediata. Roberto Fernandes assumiu em junho. Nenhum deles conseguiu arrancar o time da parte mais funda da tabela de forma definitiva.
Em 14 de julho, restavam apenas cinco partidas. O Anápolis tinha nove pontos em 14 jogos. Era novamente lanterna. O Barra, primeiro clube fora da zona de rebaixamento naquele momento, tinha 15. Seis pontos separavam o Galo não de uma classificação, mas do direito básico de continuar existindo na Série C.
Foi nesse cenário que Luan Carlos chegou. Não havia muito mais o que administrar. A campanha já tinha consumido praticamente toda a gordura que um campeonato de pontos corridos permite. Era preciso vencer.
E o Anápolis começou a vencer. Primeiro veio o 4 a 1 sobre o Volta Redonda, fora de casa. Não foi uma vitória apertada de quem apenas tenta respirar. Foi goleada. O Galo deixou a lanterna e reduziu para três pontos a distância em relação ao primeiro time fora do Z-2. Depois de meses olhando para cima e vendo todo mundo distante, finalmente havia alguém ao alcance.
Na rodada seguinte, outro daqueles jogos que explicam uma campanha inteira. O Guarani saiu na frente no Jonas Duarte. Um Anápolis que já havia se acostumado a perder poderia ter aceitado o roteiro. Não aceitou. Matheus Lagoa marcou duas vezes, virou a partida e tirou o time da zona de rebaixamento pela primeira vez depois de 11 rodadas. “Essas duas vitórias são o reflexo da nossa dedicação”, disse Matheus depois daquela noite.
A frase parecia simples. A tabela, não. Ainda haveria tropeço. Ainda haveria risco. Ainda haveria a necessidade de outra vitória improvável.
Ela veio em Aracaju. Contra o Confiança, adversário direto na luta contra a queda, o jogo caminhava para um empate que pouco resolveria. Já nos acréscimos do segundo tempo, Hélder fez o gol da vitória por 1 a 0. O Anápolis entrou naquela rodada dentro da zona de rebaixamento e saiu dela dependendo apenas de si para permanecer na Série C. Foi talvez o instante em que a reação deixou de ser esperança e passou a ser possibilidade concreta.
Então veio o Santa Cruz. De um lado, um clube tentando fugir da Série D. Do outro, um gigante do futebol nordestino tentando alcançar o quadrangular e manter vivo o sonho da Série B. Nenhum podia tratar aquela tarde como cumprimento de tabela.
Quando o Santa abriu o placar, o risco voltou a ocupar cada canto do Jonas Duarte. Só que aquele Anápolis já não era o mesmo que havia passado 11 rodadas afundado na zona de rebaixamento.
O gol de Fernando Viana não colocou o Galo entre os melhores da Série C. Não apagou os erros de planejamento, as trocas de comando ou os pontos desperdiçados durante quatro meses. Apenas impediu que tudo aquilo terminasse no pior desfecho possível. E talvez seja justamente aí que esteja o tamanho dessa permanência.
É preciso reconhecer também a circunstância. A Série C de 2026 rebaixou apenas dois clubes, e não quatro, por causa da ampliação prevista para 24 participantes em 2027. Confiança e Itabaiana caíram. Em outro regulamento, terminar em 18º significaria descenso. Isso impede transformar a campanha em epopeia. Mas não diminui a reação.
Depois de 14 partidas, o Anápolis tinha nove pontos. Nas cinco últimas rodadas, conquistou dez dos 15 disponíveis. Venceu três partidas decisivas, saiu de uma situação que parecia praticamente entregue e chegou à rodada final dependendo primeiro de si e, depois do empate, de uma combinação que acabou acontecendo. Há ainda uma perspectiva maior.
Em 2024, o Anápolis precisou sobreviver a uma batalha contra o Iguatu para alcançar a Série C. Foram dois empates, 1 a 1 no Jonas Duarte e 3 a 3 no Ceará, antes da classificação nos pênaltis que encerrou anos de tentativas frustradas na Série D. O clube ainda chegaria à decisão daquela competição.
Em 2025, já na terceira divisão, voltou a passar meses ameaçado. A primeira vitória só apareceu na 11ª rodada. Mais uma vez, chegou à última rodada precisando garantir a própria sobrevivência. Venceu o Botafogo-PB por 2 a 0 e ficou. Agora, ficou outra vez. Em 2027, o Anápolis disputará a Série C pela terceira temporada consecutiva.
Para os grandes clubes brasileiros, três anos na terceira divisão podem soar como castigo. Para quem passou tanto tempo tentando atravessar o gargalo da Série D, é patrimônio esportivo. Significa calendário, receita, visibilidade e a possibilidade de continuar construindo um clube nacional.
Mas há um aviso escondido na comemoração. Sobreviver uma vez é alívio. Sobreviver duas pode demonstrar resistência. Fazer da sobrevivência uma rotina é perigoso.
O Anápolis precisa entrar em 2027 disposto a não escrever a mesma crônica pela terceira vez. Por enquanto, porém, cabe reconhecer o que aconteceu. Quando tinha cinco pontos, o Anápolis não caiu.
Quando chegou às cinco rodadas finais na lanterna, não caiu. Quando viu o Santa Cruz abrir o placar no Jonas Duarte, não caiu. Durante meses, a tabela tentou empurrá-lo de volta à Série D. O Anápolis se recusou a ir.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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