Guilherme Carvalho avalia início das campanhas em Goiás, aponta dificuldades de Marconi e Luis César e diz que televisão ainda pode interferir na disputa
·
DOMINGOS CONVERSA #73: CIENTISTA POLÍTICO ANALISA DESAFIOS DE CANDIDATOS AO GOVERNO E ESTRATÉGIA DE CAIADO
Guilherme Carvalho avalia início das campanhas em Goiás, aponta dificuldades de Marconi e Luis César e diz que televisão ainda pode interferir na disputa
O professor e cientista político Guilherme Carvalho aposta nas vitórias do governador Daniel Vilela (MDB), em Goiás, e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na disputa nacional, se o cenário eleitoral observado neste início de campanha for mantido. Em entrevista ao Domingos Conversa, ele fez uma análise das principais candidaturas, apontou Daniel como quem começou melhor a corrida ao Palácio das Esmeraldas e Wilder Morais (PL) como quem mais errou até aqui.
Guilherme também avaliou as estratégias do ex-governador Marconi Perillo (PSDB) e do ex-deputado estadual Luis César Bueno (PT), o peso da propaganda eleitoral no rádio e na televisão e o desempenho do ex-governador Ronaldo Caiado na corrida presidencial.
No jogo rápido que encerrou a entrevista, o cientista político foi taxativo ao apontar Daniel como provável próximo governador de Goiás e Lula como favorito à Presidência. Também classificou Marconi como uma candidatura “superestimada” e Daniel como “subestimada”.
Apesar do favoritismo atribuído ao governador, Guilherme não acredita, neste momento, em encerramento da disputa estadual no primeiro turno.
“Eu ainda aposto que o Wilder vai crescer. Eu acho que ele tem força para crescer, apesar de ser um candidato bastante apático”, afirmou.
TV ainda importa
A entrevista ocorreu às vésperas do início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Para Guilherme, as redes sociais reduziram o peso que o horário eleitoral teve historicamente, mas não eliminaram sua importância.
Segundo ele, as plataformas digitais permitem às campanhas segmentar públicos e entregar mensagens diferentes para grupos específicos, especialmente nos grandes centros urbanos. A televisão, por outro lado, mantém capacidade de alcançar eleitores menos inseridos no debate político e regiões onde a comunicação digital ainda não tem a mesma penetração.
“O eleitor não está conectado. Ele vai começar a ficar conectado a partir desse momento. Quando a propaganda começa, ele começa a tomar pé de que a eleição está no palco”, afirmou.
Na avaliação do professor, a propaganda tradicional cumpre hoje uma função importante de apresentar candidaturas e produzir “atalhos informacionais” para o eleitor que acompanha política apenas nas semanas finais da disputa.
No bate-bola, Guilherme resumiu a avaliação: televisão ainda muda voto, mas rede social, isoladamente, não ganha eleição.
Daniel tem a melhor estratégia
Ao analisar individualmente as principais candidaturas ao Governo de Goiás, Guilherme começou pelo líder das pesquisas. Para ele, Daniel enfrenta o desafio de suceder uma administração altamente aprovada sem parecer apenas uma continuidade automática.
“A grande dúvida do eleitor goiano é se o Daniel consegue fazer isso”, disse.
Segundo o cientista político, o governador precisa preservar as marcas associadas à gestão Caiado e, ao mesmo tempo, apresentar identidade própria. Guilherme considera que a juventude de Daniel também produz algum grau de desconfiança em parte do eleitorado, embora avalie que esse fator tenha mais relação com percepção política do que com capacidade administrativa.
Na análise dos programas apresentados pelos candidatos, o professor afirmou que o de Daniel é o “mais consistente” entre os que examinou.
“É quem tem os dados, é quem tem a máquina, quem consegue saber dos desafios”, afirmou.
Ao final da entrevista, quando questionado sobre qual candidatura havia começado melhor e quem apresentava a melhor estratégia, respondeu Daniel nas duas ocasiões.
Marconi tem “piso alto e teto baixo”
A avaliação sobre Marconi foi mais crítica. Para Guilherme, o ex-governador parte de um patamar relevante por causa do alto grau de conhecimento entre os eleitores, mas enfrenta rejeição e dificuldades para ampliar sua base.
“O piso é alto, ele já começa de um determinado patamar, mas o teto é baixo”, resumiu.
O cientista político também questionou a estratégia de explorar a juventude de Daniel como elemento negativo. Ele lembrou que Marconi chegou ao Governo de Goiás aos 35 anos, ainda mais jovem que o atual governador.
“A mensagem dele é fraca. O plano de governo, eu acho um plano de governo com muito ressentimento e pouca proposição de futuro”, afirmou.
Guilherme considera que a oposição teria espaço para explorar problemas da administração estadual, especialmente em infraestrutura e saúde, mas avalia que a tentativa de convencer o eleitor de que o período dos governos tucanos era melhor encontra uma barreira na elevada aprovação conquistada por Caiado.
“Ser candidato de oposição ao Caiado não é fácil”, resumiu.
No jogo rápido, Guilherme disse não acreditar em uma virada de Marconi, apontou o tucano como o candidato que mais necessita do horário eleitoral e o classificou como a candidatura “superestimada” da disputa.
Wilder tem potencial, mas campanha é “confusa”
Se Daniel recebeu a avaliação mais positiva, Wilder concentrou as críticas mais duras.
Para Guilherme, o senador poderia representar a maior possibilidade de surpresa da eleição pelo potencial do eleitorado de direita e pelo desempenho de candidaturas ligadas ao bolsonarismo nas eleições recentes. O problema, segundo ele, está na execução da campanha.
“O Wilder chega como quem não promete nada e inicia a campanha entregando exatamente o que prometeu: nada”, provocou.
Guilherme classificou a candidatura como “muito confusa” e apontou problemas de comunicação, formulação de propostas e conexão com segmentos que deveriam formar sua base eleitoral.
Segundo ele, Wilder possui perfil mais voltado aos bastidores e à administração do que à exposição exigida por uma candidatura majoritária ao Executivo.
“O Wilder é um candidato tímido. O negócio dele é bastidor. Ele é um cara de bastidor”, afirmou.
Apesar das críticas, Guilherme vê potencial de crescimento e considera justamente essa possibilidade um dos fatores que podem levar a eleição estadual ao segundo turno.
Na avaliação dele, o maior obstáculo de Wilder nessa tentativa não é Marconi nem mesmo Daniel diretamente.
“O principal adversário do Wilder não é Daniel Vilela, não é Marconi. O principal adversário do Wilder é Ronaldo Caiado”, afirmou.
A explicação está na capacidade do ex-governador de pedir votos para Daniel dentro de um eleitorado conservador que também poderia ser alcançado pelo PL.
Para Guilherme, Wilder não conta nesta eleição com Jair Bolsonaro exercendo o mesmo papel de transferência eleitoral que teve em disputas anteriores. A presença de Flávio Bolsonaro em Goiás também teria alcance limitado porque o próprio presidenciável depende de transferência de votos.
No jogo rápido, Guilherme apontou Wilder como quem começou pior a campanha e também como o candidato que mais está errando.
Luis César e o problema do PT
O cientista político também fez uma avaliação crítica da candidatura de Luis César Bueno.
Para ele, a demora do PT na definição da chapa e as tentativas de construir outras composições produziram uma candidatura organizada com pouco tempo e voltada principalmente à necessidade de oferecer um palanque estadual ao presidente Lula.
“A pessoa selecionada foi mais ou menos a pessoa que sobrou, vamos ser sinceros”, afirmou.
Guilherme disse ter percebido, durante o primeiro debate entre os candidatos ao governo, sinais de que a campanha petista ainda buscava formular respostas para temas apresentados naquele próprio encontro.
“Você percebeu que não tinha projeto. Não tinha projeto. Por quê? Porque foi feita a toque de caixa”, disse.
Segundo ele, a prioridade eleitoral do PT em Goiás está nas disputas proporcionais para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados.
O professor também apontou dificuldades internas. Para ele, Luis César não representa consenso entre as diferentes correntes petistas e pode enfrentar voto cruzado dentro do próprio campo de esquerda.
“Eu não duvido que ele perca votos do PT, inclusive”, afirmou.
Debate ruim e ausência de Daniel
Ao avaliar o primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Goiás, Guilherme disse ter visto uma das discussões eleitorais mais fracas dos últimos tempos.
Segundo ele, Marconi esteve excessivamente preocupado em atacar Daniel, Wilder mostrou desconexão com temas apresentados e Luis César recorreu a respostas acadêmicas que, na avaliação do professor, revelaram pouco domínio da máquina estadual.
“Tinha tempo que eu não via um debate tão ruim, porque, na verdade, não foi um debate”, afirmou.
Para Guilherme, do ponto de vista estritamente eleitoral, Daniel acertou ao não participar.
A avaliação parte de uma regra clássica de estratégia eleitoral: candidatos que lideram não devem necessariamente oferecer exposição aos adversários que estão atrás.
“Quem está em cima não discute com quem está embaixo”, resumiu.
O mesmo raciocínio foi aplicado ao cenário presidencial. No bate-bola, Guilherme considerou que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro acertaram ao não comparecer ao primeiro debate presidencial da Band.
Caiado precisa mudar estratégia
Na parte nacional da entrevista, Guilherme concentrou a análise em Caiado, que participou do debate da Band e posteriormente foi sabatinado pelo Jornal Nacional.
Para o cientista político, o ex-governador comete um erro estratégico ao concentrar parte importante de seu discurso contra Lula.
“Ronaldo Caiado não tem como adversário o Lula. Por quê? Porque o eleitor do Lula não fica tendente a votar no Ronaldo Caiado. São plataformas diferentes. O desafio de Ronaldo Caiado é chegar no segundo turno”, afirmou.
Na avaliação dele, o adversário que Caiado precisa enfrentar diretamente é Flávio Bolsonaro, porque ambos disputam parcelas semelhantes do eleitorado de direita.
Guilherme defendeu que o ex-governador explore de maneira mais incisiva os resultados obtidos em Goiás, principalmente na segurança pública. Para ele, apresentar estatísticas sobre redução da criminalidade não basta.
“O eleitor quer ouvir, na verdade, não o que caiu. Ele quer ouvir como você fez e como você vai fazer”, disse.
É nesse ponto que o cientista político defende uma guinada na campanha.
“É o momento de Ronaldo Caiado radicalizar seu discurso. Radicalizar pela direita”, afirmou.
Segundo Guilherme, Caiado precisa mostrar ao eleitor conservador não apenas que compartilha determinadas posições do bolsonarismo, mas que seria capaz de executar políticas que Jair Bolsonaro não implementou quando ocupou a Presidência.
Nota 6,5 para sabatina
O professor também considerou que Caiado desperdiçou parte da exposição proporcionada pela sabatina do Jornal Nacional.
Para ele, o ex-governador apresentou Goiás como exemplo, mas não conseguiu explicar suficientemente como transformaria os resultados estaduais em políticas para todo o país.
“Ele desperdiçou essa oportunidade ontem na sabatina”, afirmou.
No jogo rápido, Guilherme deu nota 6,5 ao desempenho do goiano no Jornal Nacional. Sobre o debate da Band, avaliou que Caiado “empatou” e que a participação não produziu diferença relevante na disputa.
Questionado se o ex-governador consegue romper a faixa dos 5% registrada nas pesquisas, respondeu: “Se radicalizar”.
O problema, segundo o cientista político, é o tempo. Para ele, Caiado já teve oportunidades importantes de exposição sem conseguir alterar substancialmente sua posição.
“Não dá para você ter resultados diferentes fazendo a mesma coisa sempre”, afirmou.
Guilherme não descartou uma reação, mas disse que uma escalada para um patamar próximo dos 15% dependeria também de um fato novo capaz de mexer na corrida presidencial.
Daniel e Lula favoritos
A entrevista terminou com uma sequência de prognósticos.
Guilherme apontou Daniel como candidato que começou melhor em Goiás e Wilder como quem começou pior. Disse que Marconi não deve conseguir virar a disputa, considerou que Daniel não vence necessariamente no primeiro turno e avaliou que Wilder ainda está abaixo do potencial eleitoral da direita.
No cenário nacional, apontou Lula como favorito, embora considere a disputa aberta e admita a possibilidade de crescimento de Flávio Bolsonaro.
Quando perguntado diretamente sobre quem acredita que será o próximo governador de Goiás, respondeu: “Daniel Vilela”.
Para a Presidência da República, a resposta também foi direta: “Lula”.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
Continue a leitura








