Executiva estadual aceitou representação contra o prefeito de Anápolis por unanimidade e encaminhou caso ao Conselho de Ética; Márcio questiona atuação do presidente estadual da legenda
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A crise entre o prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, e o presidente estadual do PL, senador Wilder Morais, ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira (27). A Comissão Executiva Estadual do Partido Liberal em Goiás decidiu, por unanimidade, receber uma representação ético-disciplinar contra o prefeito e encaminhar o processo ao Conselho de Ética da legenda.
A representação foi protocolada no último sábado (22) e questiona uma manifestação pública de Márcio em favor da candidatura de Daniel Vilela ao Governo de Goiás, diferente daquela sustentada oficialmente pelo PL.
Márcio havia tornado pública sua posição eleitoral em vídeo divulgado nas redes sociais. A manifestação passou a ser questionada internamente porque o PL disputa a eleição de 2026 com candidatura própria ao governo estadual.
A Resolução Administrativa nº 004/2026 da Comissão Executiva Nacional do PL, citada na representação, veda a detentores de mandato eletivo pela legenda manifestações públicas de apoio a candidatos de outras siglas ou que não integrem as coligações celebradas pelo partido.
PL diz que Márcio ainda não foi julgado
A decisão tomada nesta quinta-feira não representa uma punição ao prefeito. Segundo o advogado do PL-GO, Leonardo Batista, a Executiva estadual analisou apenas se havia elementos para que o procedimento tivesse prosseguimento. “A Executiva não julgou a conduta nem aplicou penalidade. A instrução do processo cabe agora ao Conselho de Ética, com contraditório e ampla defesa assegurados ao prefeito de Anápolis, cujo advogado acompanhou a sessão e recebeu cópia integral do processo”, afirmou.
De acordo com o partido, o advogado constituído por Márcio esteve presente na reunião, teve acesso aos autos e recebeu uma cópia integral do processo.
O próximo passo será a análise pelo Conselho de Ética do PL. É nessa etapa que a representação será instruída e a defesa do prefeito poderá apresentar seus argumentos.
Márcio aponta Wilder por trás da representação
Depois da decisão da Executiva, Márcio Corrêa reagiu e direcionou as críticas a Wilder Morais. O prefeito afirmou que o filiado responsável pela representação seria um assessor do gabinete do próprio senador. “O senador Wilder Morais colocou um assessor de seu gabinete para abrir representação contra mim no PL Goiás, presidido pelo próprio senador e com cargos cuja maioria dos membros é composta por seus funcionários e assessores”, declarou.
A acusação é de Márcio Corrêa. Na manifestação oficial enviada pelo PL-GO, o partido informa apenas que a representação foi protocolada por um filiado da legenda, sem identificá-lo.
O prefeito também questionou a aplicação das regras partidárias e argumentou que, pelo mesmo critério utilizado contra ele, outras lideranças do PL poderiam ser submetidas a procedimentos internos.
Márcio citou diretamente Wilder e uma votação no Senado relacionada à indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). “A razão para isso é a mesma que, por justiça, deveria levar à abertura de processos internos contra outras lideranças do PL em Goiás, a começar por ele, que desviou da orientação partidária, por exemplo, ao se omitir da votação histórica que recusou a indicação de Jorge Messias para o STF, ainda que minutos depois tenha gravado vídeo na tentativa de reverter o desgaste”, afirmou.
A avaliação sobre a conduta de Wilder é feita pelo prefeito e não integra a representação aberta pelo PL contra Márcio.
Prefeito diz que divergência com Wilder vem de 2024
A resposta de Márcio também expôs uma disputa anterior entre os dois. Segundo o prefeito, Wilder teria atuado contra sua entrada no PL antes das eleições municipais de Anápolis, em 2024. “Da mesma forma que o atual governador manifestou apoio à minha candidatura em 2024 — e sou grato a ele e todos os que me apoiaram —, é justo lembrar que o senador Wilder, à época, liderou um movimento para barrar minha entrada em favor do grupo do ex-prefeito de Anápolis. Não fossem lideranças nacionais do PL, minha filiação sequer teria acontecido”, declarou.
Ao recuperar o episódio, Márcio vinculou a atual crise partidária a divergências políticas que, segundo ele, antecedem a disputa eleitoral de 2026.
Wilder chama processo de “infelicidade”
Na manifestação divulgada pelo PL-GO, Wilder Morais lamentou a abertura do processo interno e afirmou que o partido deveria concentrar esforços em outras prioridades políticas. “Ter um processo político sendo instaurado nesse momento, trazendo a política municipal para a estadual, é uma infelicidade. O foco deve ser a melhoria de vida dos goianos e questões político partidárias internas não deveriam ocupar esse espaço”, declarou.
Wilder afirmou ainda que considera duas missões prioritárias neste momento: trabalhar por propostas para Goiás e pela eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
O senador, porém, não respondeu nessa manifestação às acusações feitas posteriormente por Márcio, inclusive à afirmação de que um assessor de seu gabinete teria apresentado a representação.
“Bater com a mão de terceiros”
No trecho final de sua resposta, Márcio afirmou que normalmente evita expor discussões internas do partido, mas que decidiu se manifestar diante do que chamou de “investidas” sofridas nos últimos dias. “Discussões internas como essa não é o tipo de assunto que costumo trazer aqui, em respeito ao interesse daquilo que importa para a população, mas diante das investidas que venho sofrendo nos últimos dias, achei por bem me manifestar, utilizando minhas redes sociais e falando em meu nome, sem ‘bater com a mão de terceiros’, como tem feito o senador”, afirmou.
Com o encaminhamento aprovado pela Executiva estadual, o processo segue agora para o Conselho de Ética do PL-GO. Até o momento, Márcio Corrêa não recebeu qualquer penalidade partidária.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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