Entre a rabada e a resenha, um boteco que lê a cidade
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Gastronomia
Faz uns cinco anos que virei cliente do Léozinho. Tempo suficiente para entender que ali não é só um mero boteco. Léozinho faz 54 anos hoje. Saiu do Piauí, chegou em Goiânia e foi ficando. Primeiro na marra, depois no hábito dos outros.
Defendo há algum tempo que o boteco dele, ali no Jardim América, deveria ser tombado. Não por decreto, mas por uso. Aquela calçada já viu mais conversa séria do que muito gabinete.
O espeto de carneiro que sai dali não tem muita discussão. Já comi carne melhor em restaurante caro? Provavelmente. Mas não com o mesmo sentido. Ali é outra lógica. É gente que volta pelo conjunto: a carne, a mesa, a conversa que não precisa terminar.
Foi ali que gravei um dos primeiros episódios externos do Domingos Conversa, com o Altair Tavares. A pauta era política, como quase sempre. Mas o cenário ajudava mais do que qualquer roteiro. A gente falava de eleição e os prognósticos sobre 2026 enquanto passava prato, cerveja, gente chegando, gente saindo. Tudo ao mesmo tempo. Como costuma ser fora da bolha.
Costumo dizer que as verdadeiras pesquisas qualitativas estão em botecos e feiras. Ali, o povo reflete os verdadeiros sentimentos com relação aos políticos mandatários. Mas isso é papo pra outro texto.
Aliás, voltando ao prumo da crônica, eu e Altair já almoçamos muita rabada na mesa do Léozinho. E já resolvemos, ali mesmo, alguns imbróglios e apurações jornalísticas que metade de Goiânia comentava momentos depois.
Hoje o Léozinho já tem quatro unidades. Léozinho foi abrindo espaço sem fazer muito barulho. Enquanto tem gente tentando crescer no grito, ele foi crescendo na repetição.
Leozinho faz 54 anos. E, sem muita teoria, construiu um ponto fixo numa cidade que vive mudando rápido demais. No fim, o boteco dele funciona como um tipo de termômetro. Não resolve a política, mas ajuda a entender por onde ela está passando. E quase sempre, muito assunto e pauta pode passar por ali.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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