Deputada fala sobre reeleição, bastidores em Mineiros e prioridades para o próximo mandato
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A deputada estadual Rosângela Rezende (Agir) afirmou que chega à eleição de 2026 com o desafio de ampliar sua base eleitoral para além do Sudoeste goiano, onde concentrou a maior parte dos quase 20 mil votos recebidos em 2022. Em entrevista ao Domingos Conversa, ela fez um balanço do mandato, projetou o desempenho do Agir na disputa proporcional, tratou de saúde e infraestrutura e expôs divergências com o prefeito de Mineiros, Aleomar Rezende.
Rosângela recebeu 19.965 votos na eleição passada e reconheceu que sua força eleitoral permanece fortemente vinculada a Mineiros, Santa Rita do Araguaia e Portelândia. Segundo ela, o exercício do mandato permitiu ampliar a presença política em outras regiões do Estado, especialmente Goiânia, Região Metropolitana e Entorno do Distrito Federal. “Esse é um dos principais desafios realmente. A mulher do interior, então qualquer candidato do interior alcançar votos, coeficiente eleitoral suficiente para bater uma eleição e sentar em uma das 41 cadeiras da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás”, afirmou.
A deputada disse que o mandato abriu portas em municípios onde ainda não tinha presença eleitoral consolidada. “Agora, com o mandato, três anos e meio de mandato, me propiciou chegar em muitos municípios goianos, inclusive na nossa capital, na nossa Região Metropolitana, que é onde agora eu tenho esse desafio eleitoral, mas também com esse fortalecimento”, disse.
Reeleição e a busca pelo voto fora do Sudoeste
Rosângela avaliou que conseguiu dar retorno à região que sustentou sua eleição e disse estar satisfeita com o que entregou ao longo do primeiro mandato. “Eu acredito que eu consegui dar devolutiva, demonstração da força da representação para o Sudoeste, para o extremo Sudoeste, para o extremo Oeste goiano e a importância de ter representação de voz firme dentro do parlamento goiano para as regiões do interior”, afirmou.
Para ela, a eleição de 2026 será mais difícil do que a anterior. “Tem um colega da Assembleia que fala que 20 mil votos a gente já tem. O duro é o 20 mil e um, 20 mil e dois, 20 mil e três”, brincou.
A deputada acredita que o eleitor vai observar com mais atenção o desempenho de quem já exerce mandato. “O eleitor vai prestar atenção, o eleitor é soberano, ele avalia o trabalho, ele escuta, ele ouve. Parece que ele não está prestando atenção, mas naquela reta final todo mundo vai se envolver mais na política”, declarou.
Agir pode fazer até quatro deputados, diz Rosângela
Vice-presidente estadual do Agir, Rosângela demonstrou confiança na chapa montada pelo partido para a Assembleia Legislativa. Em 2022, a legenda elegeu dois deputados: ela e Gugu Nader. Agora, Rosângela é a única parlamentar com mandato no grupo. “Eu considero que estou puxando a chapa aí, mas temos muitos candidatos, um partido que vai vir forte e nós vamos alcançar duas, três ou quatro cadeiras”, projetou.
Segundo a deputada, a montagem inicial permitia uma expectativa ainda maior, mas o partido perdeu candidatos na reta final das filiações e convenções. “A nossa projeção realmente era quatro cadeiras na Assembleia. Então, por esse motivo, agora a gente vai: duas, três e quem sabe a quarta”, disse.
Ela calcula que a chapa pode atingir entre 200 mil e 210 mil votos. “A gente vai estar somando aí uns 200, 210 mil votos, que a gente vai eleger dois e um terceiro na sobra e quem sabe aí um quarto candidato”, afirmou.
Rosângela também destacou que a estratégia foi evitar uma chapa montada apenas para garantir sua própria reeleição. “Eu não sou puxadora de voto para ser uma chapa construída só para a deputada Rosângela. Então é uma chapa que dá condição de eleição para os candidatos que estão competindo”, argumentou.
Ao mesmo tempo, admitiu duas limitações relevantes da legenda na campanha. “Só tem um probleminha o Agir. Não tem fundo partidário e não tem tempo de TV”, resumiu.
Mulheres ainda são colocadas em segundo plano, afirma deputada
Rosângela também tratou da baixa presença feminina na Assembleia Legislativa. Atualmente, são quatro mulheres entre os 41 deputados estaduais. “Eu nunca achei normal ter quatro deputadas em 41 cadeiras de deputados. E a gente tem que deixar de achar essa exceção, comemorar essa exceção”, disse.
Para ela, a participação feminina precisa deixar de ser tratada como excepcional. “Tem que a mulher ocupar a política do Estado de forma natural. Isso ser natural, não ser uma comemoração.”
A parlamentar relatou ter presenciado situações em eventos políticos em que mulheres não recebiam o mesmo espaço reservado aos homens.
“Os homens sobem no palanque e têm o tempo de fala, e a mulher... o locutor faz uma fila com as mulheres e nem entrega o microfone, e fala o nome, o nome e o nome”, relatou. Questionada se já havia enfrentado esse tipo de situação, respondeu: “Eu já vivenciei muito isso.”
Rosângela defendeu que as candidaturas femininas recebam estrutura, recursos e exposição política, e não sejam utilizadas apenas para cumprir a cota legal. “Ela precisa ter condição de disputar essa eleição. E ela precisa ter apoio financeiro, de estratégia, de visibilidade. Porque senão a gente não vai comemorar de quatro para oito”, afirmou.
Saúde e estradas foram as principais bandeiras
Ex-secretária municipal de Saúde de Mineiros, Rosângela afirmou que chegou à Assembleia com duas prioridades principais. “Meu principal desafio: a saúde e as estradas. Eu fui eleita falando que ia ser a deputada da saúde e das estradas”, disse.
Na infraestrutura, destacou a atuação pela pavimentação de rodovias estaduais e pela destinação de recursos do Fundeinfra ao Sudoeste.
Segundo a parlamentar, parte importante das demandas da região ficou durante décadas sem solução por falta de representação política. “A política não permite vazio na política, eu acredito muito nisso, e esse vazio existiu”, afirmou.
Rosângela citou intervenções em rodovias como as GOs 306, 050, 341 e 194, além de ligações entre municípios do Sudoeste. Ela também defendeu que a arrecadação produzida economicamente pela região retorne em obras.
“Mais de 50% foi arrecadado do Sudoeste goiano, que são municípios que produzem muito, e que ela foi revertida também em obras estruturantes para lá”, disse ao comentar recursos vinculados ao Fundeinfra.
Regionalização da saúde ainda é desafio
Apesar de avaliar positivamente os avanços em infraestrutura, Rosângela disse que a regionalização da saúde avançou menos do que gostaria. “O desafio que eu acredito que está mais lento para a nossa região é a regionalização da saúde”, afirmou.
Para ela, não basta levar hospitais para cidades-polo. É necessário garantir exames e atendimentos especializados sem obrigar moradores do interior a viajar centenas de quilômetros até Goiânia. “Ninguém merece vir de Santa Rita do Araguaia, 500 quilômetros, de Aragarças, de Bom Jardim, Piranhas, Arenópolis, Doverlândia, Portelândia, Mineiros, Chapadão do Céu, para vir fazer uma mamografia em Goiânia”, declarou.
Rosângela defendeu o fortalecimento de consórcios municipais para ampliar a oferta regional de serviços. “Consórcio pode montar uma central de abastecimento farmacêutico para que os municípios tenham mais facilidade de compra, armazenamento, distribuição de medicação”, exemplificou.
Ela citou ainda uma situação que considera símbolo da deficiência atual. “Um dia eu vi uma eleitora de Doverlândia falar para mim: ‘Eu vou em Goiânia, na casa de apoio do deputado X, e faço um ultrassom de 80 reais’, achando aquilo vantagem. Isso para mim dói, porque a saúde tem que estar lá. Quem vai ficar feliz de vir em Goiânia fazer um ultrassom?”, questionou.
Policlínica de Mineiros está entre prioridades
A implantação da Policlínica de Mineiros permanece entre as principais bandeiras do mandato. Rosângela afirmou que a unidade está prevista no planejamento estadual e que a expectativa era de emissão da ordem de serviço.
“Vai levar o serviço especializado para a nossa região. Já tem uma estrutura forte lá, hospitalar, do município, hospital privado. A gente deixou muito arrumada a saúde de Mineiros, então agora a gente tem que levar uma Policlínica para ampliar o acesso para a região”, disse.
Segundo ela, o equipamento deverá atender municípios como Portelândia, Perolândia, Doverlândia, Santa Rita do Araguaia e Chapadão do Céu.
A deputada também apontou como prioridade a ampliação de serviços de alta complexidade, incluindo UTI neonatal. “É um grande desafio na segurança da gestante e do bebê, do neonato, na garantia de vida desse bebê”, afirmou.
Rosângela critica atual gestão da saúde de Mineiros
A entrevista ganhou tom mais político quando Rosângela foi questionada sobre a situação atual da saúde em Mineiros.
Ela avaliou que houve perda de qualidade em relação à estrutura administrativa construída nos períodos em que comandou a Secretaria Municipal de Saúde. “Os motivos são a falta de confiança no profissional, falta de valorização e valoração do profissional”, afirmou.
Segundo Rosângela, mudanças motivadas por critérios políticos podem comprometer equipes técnicas. “Você não pode pegar a pessoa que é técnica e é capaz e mudar por algum motivo político. Então estrangula o serviço”, disse.
A parlamentar foi direta ao avaliar a atual administração. “Esse detalhe específico de valorização do trabalhador da saúde ficou bem aquém. E isso impactou imensamente na qualidade do serviço, no acolhimento, na garantia do atendimento em tempo oportuno”, afirmou.
Rompimento com Aleomar Rezende
Rosângela também falou abertamente sobre a ruptura política com o prefeito de Mineiros, Aleomar Rezende, seu primo.
Segundo ela, o distanciamento começou depois que Aleomar assumiu a Prefeitura. “Essa resposta tem que ser dada pelo prefeito, porque eu sou filha do Agenor, e o Aleomar era o chefe de gabinete do meu pai. Era considerado uma pessoa de confiança, um fiel escudeiro”, disse.
A deputada afirmou que Aleomar teria passado a diminuir a participação do ex-prefeito Agenor Rezende na própria trajetória. “Assim que ele ganhou, ele passou a falar que era ele que fazia tudo, desmereceu a qualidade do prefeito. Aquilo me machucou muito no início, mas eu superei isso”, afirmou.
Rosângela também disse que não existe atualmente uma relação institucional entre seu mandato e a Prefeitura de Mineiros. “Eu não recebo visitas do prefeito para fazer pedido, para somar.”
Questionada diretamente se não havia nem relação institucional, respondeu: “Nem um relacionamento institucional.”
Segundo a deputada, houve inclusive dificuldades burocráticas para encaminhamento de emendas. “Tem dificuldade de fazer com que mande documentos para receber as emendas”, afirmou.
Apesar da divergência, Rosângela sustenta que continuou enviando recursos e apoiando instituições do município. “O meu trabalho e a minha ajuda para Mineiros não ficou diminuída por essas divergências. O que a população precisa é de resultado”, declarou.
Deputada critica endividamento do município
Rosângela também fez uma crítica direta à política financeira da atual administração.
Ao falar da experiência administrativa de Aleomar ao lado do ex-prefeito Agenor Rezende, afirmou: “Ele é uma pessoa bem treinada e ele tem que dar resposta à população, tem que ver só essa questão desse endividamento, porque ele não aprendeu isso com o ex-prefeito Agenor, não, endividar município.”
Ela reforçou, no entanto, que considera as divergências essencialmente políticas.
Rosângela descarta Prefeitura de Mineiros
Questionada sobre uma eventual candidatura futura à Prefeitura, Rosângela indicou que não pretende disputar o Executivo municipal. “Eu acredito que a minha família já contribuiu muito com o município de Mineiros”, afirmou.
A deputada disse que prefere ajudar na construção de novos quadros. “Eu tenho muito, mas muito desejo de ver novas lideranças ocupando o poder na cidade de Mineiros.”
E completou: “Quero contribuir para que a gente possa fortalecer novas lideranças para ocupar os cargos de Executivo e do Legislativo municipal, e não tenho desejo desse tamanho, não.”
“Tem gente que ajuda e tem estrovante”
O trecho mais duro da entrevista surgiu quando Rosângela foi questionada sobre outras candidaturas estaduais lançadas a partir de Mineiros.
Ela citou a primeira-dama Ana Paula Rezende e Lourival, candidato a prefeito apoiado por seu grupo em 2024, e reconheceu a legitimidade das duas candidaturas. “Tem dois candidatos de Mineiros, que é a Ana Paula, que é a primeira-dama, e o Lourival, que foi candidato a prefeito, do qual a gente apoiou em 2024.”
Na sequência, porém, fez uma crítica direta aos adversários. “Tem gente que ajuda e tem ajudante. E tem estrovante.”
Rosângela explicou o termo como alguém que atrapalha o processo político. “Para mim, eles são, desculpando o jeito de falar, falei que ia ser bem simplória, estrovantes do progresso da minha cidade, da minha região.”
Segundo ela, a multiplicação de candidaturas pode fragmentar a votação local e deixar Mineiros novamente sem representação na Assembleia. “Vai a região correr o risco de ficar sem deputado, porque a chance de eleição, ela é da deputada Rosângela. A chance real”, afirmou.
A deputada citou ainda o apoio de Isaac, adversário na eleição de 2022, como demonstração de união em torno da manutenção de uma cadeira para a região. “Quem foi o meu concorrente principal em 2022? O Isaac, que é um grande pecuarista, uma liderança de Mineiros, que teve 10 mil votos. E veio somar, entendendo o espírito de união, de achar da importância de a gente ter uma representação no município de Mineiros.”
Renovação da Alego será mais difícil
Rosângela também analisou a disputa pelas 41 cadeiras da Assembleia Legislativa. Para ela, a formação das chapas proporcionais tornou o cenário mais competitivo para quem já possui mandato. “Eu acredito que o desafio ficou maior para os deputados eleitos”, afirmou.
A deputada destacou a redução do número total de candidaturas em comparação com 2022. “Antes eram quase 800 candidatos em 2022, agora quase 600. Então vamos precisar de mais votos para que a gente possa ser eleito.”
Apesar disso, Rosângela acredita que o mandato e a estrutura do Agir lhe dão condições de permanecer entre os eleitos. “Eu me considero dentro dessa manutenção pelo favorecimento do que eu expliquei aqui do partido.”

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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