Presidente do PSB em Goiás detalha bastidores da saída do PSDB, fala sobre o processo que pode tirá-la da Câmara e revela reuniões com Lula sobre a montagem da chapa em Goiás
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Dez meses depois de inaugurar o formato mesacast do Domingos Conversa, a vereadora e presidente estadual do PSB, Aava Santiago, voltou ao programa em um cenário político completamente diferente. Desde a primeira entrevista, deixou o PSDB, assumiu o comando de uma nova legenda, teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás por infidelidade partidária e entrou na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados.
Na entrevista a Domingos Ketelbey, Aava detalhou os bastidores da ruptura com o PSDB, falou sobre sua última conversa com o ex-governador Marconi Perillo, revelou reuniões com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a construção do palanque governista em Goiás e contou que chegou a acompanhar, ao lado do presidente, uma pesquisa qualitativa que avaliava seu nome e o da deputada federal Adriana Accorsi.
Aava afirmou que sua posição sobre a saída do PSDB não mudou desde o início da disputa judicial. Segundo ela, havia a expectativa de que o partido não buscaria seu mandato após a mudança de legenda.
“Eu não mudei uma vírgula acerca das minhas convicções, porque elas não são tanto sobre partidos, ou sobre o PSDB especificamente, mas sobre a forma como eu enxergo relações sólidas na política, em relação de gratidão, palavra, lealdade”, afirmou.
Segundo a vereadora, foi o PSDB que mudou de posição.
“Eu afirmei à época e continuaria afirmando quantas vezes for essa impressão de que o PSDB não entraria com o processo de infidelidade partidária. Mas fato é que o partido mudou de entendimento, eu não, eu continuo a mesma”, disse.
Última conversa com Marconi
Aava também revelou que a última conversa presencial com Marconi ocorreu em fevereiro deste ano. Segundo ela, o encontro foi amistoso e aconteceu pouco antes de o processo que resultou na cassação avançar.
A presidente do PSB afirmou que, naquele momento, ainda havia disposição de sua parte para construir politicamente com o ex-governador.
“Até a última vez que eu conversei com o Marconi, que foi acho que no dia 10 de fevereiro desse ano, até naquele dia ele não tinha manifestado interesse em encaminhar com o palanque do presidente Lula. Então, não eram coisas correlatas. Mas, de fato, havia sim, de minha parte, a disponibilidade de caminhar com ele”, contou.
Questionada sobre o encontro, Aava classificou a conversa como amistosa. No dia seguinte, segundo ela, ainda mantinha a avaliação de que não haveria iniciativa do PSDB para requerer o mandato.
A vereadora também sustentou que recebeu tratamento diferente do dispensado a outros quadros que deixaram o partido.
“Eu esperava que eu tivesse um tratamento pelo menos semelhante ao tratamento dado aos homens que saíram do partido”, afirmou.
Essa é uma das linhas da defesa apresentada por seu grupo jurídico no processo.
Mesmo diante da decisão do TRE-GO, Aava destacou que o processo por infidelidade partidária não interfere em sua elegibilidade e afirmou que continuará candidata a deputada federal.
“O factual é: eu estou vereadora e candidata a deputada federal”, resumiu ao final da entrevista.
Lula avaliou Aava e Adriana para chapa majoritária
Um dos principais bastidores revelados no programa envolve as conversas de Aava com o presidente Lula durante a formação da chapa apoiada pelo governo federal em Goiás.
Segundo a presidente do PSB, Lula chegou a enxergar nela e em Adriana Accorsi duas alternativas para compor a majoritária no estado.
Aava negou, porém, que tenha recebido um convite formal do presidente.
“Ele nunca disse assim: ‘eu quero que sejam vocês’. Ele disse, para mim: ‘eu, Luiz Inácio Lula da Silva, vejo em vocês a candidatura ideal, mas vocês só vão fazer o que vocês quiserem’”, relatou.
Ela disse ainda que Lula enxergava as duas em uma composição conjunta, e não como concorrentes pela mesma posição.
“Não tinha uma coisa assim: se não for a Adriana, vai ser a Aava. Ou se não for a Aava, vai ser a Adriana. Nunca houve uma conversa para ser uma ou outra. Ele sempre apresentou nós duas como o que ele enxergava como ideal. Uma ia para o governo, outra ia para o Senado”, afirmou.
Aava também revelou ter participado de uma reunião em que uma pesquisa qualitativa sobre ela e Adriana foi apresentada diretamente a Lula.
“Eu estava sentada ao lado do presidente do Brasil, vendo uma quali sobre mim, junto com ele”, contou.
Segundo a vereadora, o estudo buscava avaliar como os dois nomes se comportariam no debate eleitoral e quais atributos eram associados a cada uma.
A pesquisa, de acordo com Aava, apontou ainda uma característica que chamou atenção de Lula: sua entrada entre eleitores evangélicos.
“Entre os quadros progressistas do Centro-Oeste, eu sou o quadro do Centro-Oeste que tem a maior abertura entre evangélicos”, afirmou, ao relatar o resultado apresentado na reunião.
Evangélicos e bolsonarismo
A relação entre religião e política ocupou uma parte importante da entrevista. Evangélica e integrante da Assembleia de Deus, Aava avaliou que houve um processo de desgaste do bolsonarismo dentro das igrejas nos últimos anos.
Segundo ela, parte dos líderes religiosos passou a questionar uma relação em que o apoio político se sobrepunha à própria representatividade evangélica.
Aava citou episódios eleitorais em Goiás e afirmou que o bolsonarismo chegou a provocar perda de representação política entre os próprios evangélicos.
“Então, houve o bolsonarismo inclusive, ele impôs um prejuízo de representatividade dos evangélicos”, afirmou.
Ela também disse que decidiu permanecer dentro da igreja mesmo nos períodos de maior tensão política.
“Eu não vou descartar essas pessoas porque elas votaram no Bolsonaro”, disse.
Para a vereadora, a relação construída ao longo dos anos com sua comunidade religiosa ajudou a reduzir resistências à sua proximidade com Lula e com o campo de centro-esquerda.
Campanha sem prefeitos
Na disputa pela Câmara dos Deputados, Aava afirmou que optou por um modelo diferente das campanhas tradicionais, sem concentrar sua estratégia em alianças com prefeitos.
Segundo ela, sua campanha já havia reunido voluntários em 108 municípios goianos na última atualização feita pela equipe.
“A gente fez a opção de não fazer fechamentos com prefeitos. A gente não procura prefeitos”, declarou.
A estratégia, segundo a candidata, passa pela construção de relações com vereadores, lideranças locais, associações e apoiadores que acompanham sua atuação parlamentar.
Ela também afirmou que pretende levar para a Câmara dos Deputados uma agenda ligada a famílias, periferias, juventudes e ao Cerrado.
Ao ser questionada no bate-bola sobre sua principal plataforma para Brasília, respondeu: “Colocar famílias, periferias e juventudes e o Cerrado no orçamento”.
PSB dividido nas alianças
Como presidente estadual do PSB, Aava também foi questionada sobre as diferenças políticas dentro da legenda em Goiás.
Parte dos parlamentares do partido mantém apoio ao governador Daniel Vilela, enquanto a sigla integra uma composição eleitoral diferente na disputa majoritária.
Aava reconheceu que encontrou um partido com pouca identidade ideológica definida no estado e disse trabalhar para reorganizar esse perfil.
Segundo ela, o PSB decidiu dar liberdade aos candidatos proporcionais para manter determinadas alianças locais.
“Para que os meus proporcionais tivessem condições de fazer as suas caminhadas, nós sinalizamos as nossas preferências, mas também dissemos a eles: ‘a gente não tem como segurar vocês’”, explicou.
A dirigente argumentou que o objetivo é reconstruir o partido sem impedir que candidatos mantenham relações políticas já estabelecidas antes da atual direção.
Futuro em Brasília
Aava revelou ainda que Lula já mencionou a possibilidade de vê-la futuramente ocupando uma função no governo federal.
Segundo ela, em um dos encontros, o presidente voltou a falar sobre a hipótese de tê-la como auxiliar na Esplanada dos Ministérios.
“Ele mencionou, sim, que ‘eu ainda quero te ver aqui como minha auxiliar aqui na Esplanada’, algo desse tipo”, relatou.
A vereadora, no entanto, disse estar concentrada na eleição para deputada federal e na manutenção do mandato na Câmara de Goiânia.
No bate-bola final, definiu Marconi Perillo como “herança”, Ronaldo Caiado como “oligarquia” e Sandro Mabel como “ingerência”. Sobre Lula, foi taxativa: “Maior estadista do planeta Terra”.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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