Candidato a vice-presidente também antecipou apoio a Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno, fez ressalvas a Caiado por causa de Kassab e reconheceu acertos do governo Lula
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O senador Eduardo Girão (Novo-CE), candidato a vice-presidente na chapa de Romeu Zema (Novo), defendeu o fim das bets e o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) durante entrevista ao Domingos Conversa, nesta terça-feira (18).
Girão também explicou por que abriu mão da reeleição ao Senado para disputar a Vice-Presidência e antecipou seu posicionamento para um eventual segundo turno. Ele confirmou apoio a Flávio Bolsonaro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas fez ressalvas a uma eventual composição com Ronaldo Caiado (PSD) por causa de Gilberto Kassab.
A entrevista passou ainda pela economia, relação entre os Poderes, Banco Master, aborto, religião e futebol. Ex-presidente do Fortaleza, Girão também comentou a situação do clube cearense e relembrou sua passagem pela direção da equipe.
Por que Girão aceitou ser vice de Zema
Eleito senador pelo Ceará em 2018, Girão afirmou que a decisão de não buscar um novo mandato passa por um compromisso assumido ainda naquela campanha. Segundo ele, a escolha pela chapa presidencial não significou abandonar uma candidatura competitiva à reeleição, mas cumprir a palavra dada aos eleitores.
“Eu prometi para os meus conterrâneos, lá em 2018, que eu seria contra a reeleição, que eu não ficaria mais um mandato no Senado. [...] Eu não sou de mudar a palavra”, afirmou.
Girão disse que chegou a aparecer com 33% em levantamento do Paraná Pesquisas, mas manteve a decisão de não disputar novamente o Senado. Ele também afirmou ser autor de proposta para reduzir de oito para cinco anos o mandato de senador.
Ao justificar a composição presidencial, apresentou Zema como um gestor capaz de levar para o governo federal a experiência administrativa de Minas Gerais. Girão destacou ainda o que considera uma complementaridade entre os dois: Zema com experiência no Executivo e ele no Legislativo.
“É a única chapa que tem um governador e um senador da República. É a única chapa que tem dois caras que vieram de fora da política”, disse.
Segundo Girão, Zema poderia ter escolhido uma disputa considerada mais segura pelo Senado, mas decidiu concorrer à Presidência por entender que sua vocação está no Executivo.
Impeachment de ministros do STF
Uma das partes mais duras da entrevista foi dedicada ao Supremo Tribunal Federal. Girão defendeu que o Senado passe a analisar pedidos de impeachment contra ministros da Corte e sustentou que o instrumento seria uma forma de estabelecer limites na relação entre os Poderes.
Questionado se a pauta não corre o risco de se transformar apenas em discurso eleitoral de candidatos conservadores ao Senado, Girão respondeu que o tema já ultrapassou o eleitorado mais ideologizado.
“Eu acho que furou a bolha. O brasileiro já entendeu [...] que o país está numa insegurança jurídica muito grande”, afirmou.
Para o candidato a vice-presidente, decisões do Supremo têm avançado sobre atribuições do Legislativo. Girão também criticou manifestações públicas e atividades de integrantes da Corte que, na avaliação dele, aproximam ministros do ambiente político.
“Se não tiver um pedido de impeachment, que vai servir de pedagógico, para que todo mundo volte para a normalidade democrática, não haja mais interferência de um Poder sobre outro, então esses abusos têm que acabar”, declarou.
No bate-bola ao fim do programa, Girão foi questionado sobre qual ministro seria sua primeira escolha para um processo de impeachment.
“Eu acho que o campeão deles é o Alexandre de Moraes”, respondeu.
Na sequência, citou Gilmar Mendes e afirmou que os dois estariam “cabeça a cabeça” em uma eventual análise de pedidos de afastamento.
Na direção oposta, apontou André Mendonça como sua principal referência positiva no STF. Girão lembrou que apoiou sua indicação e afirmou considerar Mendonça um ministro técnico, que se manifesta prioritariamente nos autos.
“Se Flávio chegar ao segundo turno, a gente está junto”
A fragmentação da direita na eleição presidencial também entrou na pauta. Girão rejeitou a avaliação de que a existência de várias candidaturas no mesmo campo político beneficie o presidente Lula.
Na interpretação dele, diferentes candidaturas podem ampliar as alternativas disponíveis para eleitores que não pretendem votar no petista e, posteriormente, formar uma unidade no segundo turno.
“Quanto mais candidaturas são bem-vindas”, afirmou.
“O primeiro turno é exatamente para a gente votar naqueles que estão mais afinados com o que a gente pensa. No segundo turno é diferente. Muitas vezes você vota para derrotar o cara”, completou.
Quando questionado sobre um eventual segundo turno sem Zema, Girão foi explícito em relação a Flávio Bolsonaro.
“Se chegar Flávio no segundo turno, a gente está junto com ele, não tenho dúvida.”
O senador também elogiou Alfredo Gaspar, candidato a vice na chapa de Flávio, com quem conviveu no Congresso.
Girão elogia Caiado, mas faz ressalva por Kassab
A resposta foi diferente quando o cenário apresentado envolveu Ronaldo Caiado.
Girão reconheceu o ex-governador de Goiás como integrante da direita e, no encerramento da entrevista, citou Caiado quando perguntado sobre um adversário político que respeita.
“O próprio Caiado. O Caiado, nós estamos em campos diferentes, ele tem outras propostas, mas eu respeito demais pela história dele, pela história na política de Goiás, do Brasil”, declarou.
A resistência manifestada pelo candidato a vice está em Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e companheiro de chapa de Caiado.
“Pelo Caiado, mas pelo Kassab, eu confesso que fico dividido”, afirmou.
Ao longo da entrevista, Girão usou a presença do PSD no governo federal como argumento para questionar o grau de oposição da legenda ao presidente Lula. Para ele, a relação nacional do partido com o Palácio do Planalto diferencia a candidatura de Caiado do projeto apresentado pelo Novo.
Fim das bets
Outro tema que ocupou espaço significativo da entrevista foi o mercado de apostas.
Girão afirmou que Zema pretende acabar com as bets caso seja eleito presidente e disse concordar integralmente com a proposta. O senador lembrou que votou contra a regulamentação das apostas no Congresso e afirmou ter alertado outros parlamentares sobre possíveis consequências sociais e econômicas da expansão do setor.
“É uma tragédia que eu votei contra no Senado. Alertei para os meus colegas e para os deputados”, disse.
O candidato a vice relacionou as apostas ao endividamento das famílias, vício e problemas sociais. Também afirmou que o mercado pode ser utilizado para lavagem de dinheiro pelo crime organizado.
Girão defendeu que uma eventual proibição seja acompanhada pelo aumento da fiscalização e das punições contra jogos clandestinos. Durante a conversa, foi questionado sobre o risco de uma proibição apenas empurrar apostadores para a ilegalidade.
“Aí é que está o papel nosso, do Estado. O Estado tem que ser mais firme com relação ao enfrentamento disso”, respondeu.
Impacto das apostas no futebol
A experiência de Girão como ex-presidente do Fortaleza levou a discussão para os efeitos das casas de apostas sobre o futebol brasileiro.
Na avaliação dele, os clubes passaram a depender excessivamente desse tipo de patrocínio e deixaram em segundo plano empresas de outros setores que historicamente financiavam o esporte.
“O futebol tem que ser reinventado, porque foi azar do futebol apostar nessas casas de bets”, afirmou.
Girão argumentou ainda que o endividamento de apostadores pode atingir receitas tradicionais dos clubes, especialmente os programas de sócio-torcedor.
“O torcedor que tinha lá R$ 50, R$ 100 por mês para pagar o seu sócio-torcedor [...] não tem mais dinheiro para pagar a mensalidade”, declarou.
Para ele, a relação entre apostas e futebol pode produzir uma contradição: ao mesmo tempo em que os clubes recebem valores elevados de patrocínio, parte de seus próprios torcedores perde capacidade financeira para consumir produtos e serviços das equipes.
Passagem pelo Fortaleza
Girão também relembrou sua passagem pela presidência do Fortaleza durante o processo de recuperação esportiva do clube.
O senador destacou que participou da gestão que conseguiu o acesso da Série C para a Série B e lembrou a contratação de Rogério Ceni.
“Meu último ato ali foi a contratação do Rogério Ceni”, recordou.
O candidato a vice-presidente, porém, fez uma avaliação negativa do momento atual do Fortaleza. Disse considerar que o clube vive um “ciclo descendente” e criticou o crescimento do endividamento.
Girão também apontou o que considera uma aproximação indevida entre política partidária e administração do futebol.
“Eu não deixava entrar partido A, partido B, partido C. Nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”, afirmou.
A conversa ainda passou pelo futebol goiano. Girão relembrou uma visita a Goiânia para acompanhar um clássico entre Goiás e Vila Nova e falou sobre a tradição dos três principais clubes da capital, incluindo o Atlético-GO.
Economia entra em debate
Na reta final, Girão foi questionado sobre quais indicadores sustentam a avaliação do Novo de que o governo federal apresenta um fracasso na economia.
O candidato a vice citou aumento dos gastos públicos, tamanho da máquina federal, juros, endividamento e a situação financeira dos Correios. Também defendeu privatizações como parte da agenda econômica de uma eventual gestão Zema.
Durante a entrevista, foram contrapostos à avaliação de Girão dados do IBGE que apontam crescimento de 2,3% do PIB em 2025 e avanço de 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre imediatamente anterior.
Girão respondeu que considera o resultado insuficiente diante do potencial econômico brasileiro.
“Será que a gente não era para estar com o PIB bem maior? Isso aí é crescimento? Ou isso aí é uma coisa natural, que, se o governo não atrapalhasse, seria muito maior?”, questionou.
O senador também colocou em dúvida a leitura positiva dos números e afirmou haver questionamentos sobre a metodologia do IBGE. Na avaliação dele, dívida pública, juros elevados, burocracia e insegurança jurídica ajudam a explicar por que o Brasil poderia crescer mais.
Girão elogia Mais Médicos e decisão de Lula
Apesar das críticas feitas ao presidente durante a entrevista, Girão apontou duas decisões do governo Lula que considera positivas.
No bate-bola final, ao ser provocado a citar um acerto da atual gestão, respondeu de imediato: o Mais Médicos.
“O Mais Médicos foi um presente para o Brasil”, afirmou.
Girão disse que o Novo participou da discussão da proposta no Congresso e citou a atuação da deputada federal Adriana Ventura na tentativa de aprimorar o programa.
O senador ainda acrescentou o veto do presidente Lula ao projeto aprovado pelo Congresso que ampliava o número de deputados federais.
“O Lula, a partir de uma pressão popular, foi lá e vetou. Está correto”, declarou.
Segundo Girão, reconhecer essas duas decisões não altera sua avaliação geral negativa sobre a administração federal.
Caiado é adversário que Girão diz respeitar
No encerramento, Girão foi convidado a apontar um adversário político que respeita. Novamente, citou Ronaldo Caiado.
A resposta reforçou a distinção feita durante a entrevista entre sua avaliação pessoal e política do ex-governador goiano e suas desconfianças em relação à composição nacional construída pelo PSD.
Girão ainda respondeu se acredita que chegará à Vice-Presidência da República em 2027.
“Estou à disposição da população brasileira para isso. Tenho inúmeras limitações, imperfeições, eu sei disso, mas procuro trabalhar no limite das minhas forças para servir, e não ser servido”, afirmou.
“Se Deus abençoar, com a vontade do povo de bem, que quer mudança de verdade, se Deus quiser, eu serei”, concluiu.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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