No lançamento da ATAC, músico defende organização e critica precarização da cadeia produtiva
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Cultura
Dez anos depois, na noite do último sábado (11), Manual voltou ao palco em Goiânia sem cara de celebração nostálgica. Foi cantado inteiro por um público que cresceu e amadureceu com o disco e agora o devolve com outra escuta. Menos descoberta, mais memória. O reencontro aconteceu no lançamento da ATAC, associação criada para articular trabalhadores da arte e da cultura em Goiás, que usou o show como ponto de partida e síntese.
Foi nesse cruzamento entre palco e organização de classe que Fernando Almeida Filho, o Dinho, vocalista do Boogarins, fez um diagnóstico sobre a cultura em entrevista exclusiva ao Blog do DK em uma entrevista numa rua próxima ao Shiva AltBar. Falou de uma cena que resiste, de um mercado que ainda não se estrutura e de um setor que, mesmo produzindo, segue operando no limite. “Todo mundo tá com fome”, resumiu.
A fala não parte de abstração. Vem de uma trajetória que atravessa a base da cena goiana. Antes da circulação internacional, havia o deslocamento cotidiano entre Aparecida e o Centro, os ônibus, as noites no Centro Cultural Martim Cererê, a rede informal que sustentava shows e encontros. “Esse rolê do rock abraça todo mundo”, diz. A leitura não é nostálgica. É estrutural. Para ele, a cena não desaparece, muda de forma e encontra novos meios de se manter.
Virada de rota
Esse percurso ajuda a explicar o movimento recente do Boogarins. Durante anos, a banda operou com forte presença fora do país, em turnês longas e circulação constante no exterior. A pandemia e a vida pessoal funcionaram como ponto de inflexão. A lógica mudou. “Vamos fazer os bagulhos aqui, que é aqui que a gente come”, afirma.
A mudança não é apenas geográfica, mas também econômica. Dinho fala abertamente sobre a necessidade de estruturar o trabalho no Brasil, criar hábito de turnê nacional, consolidar público e transformar a atividade em rotina sustentável. A profissionalização aparece menos como escolha estética e mais como condição de permanência.
Memória e estrutura
Questionado sobre uma eleição que vem por aí e naturalmente a política que habita em nós, o vocalista evita generalizações e fixa um ponto: memória. “A moçada tem que ter memória”, diz, ao mencionar o período recente sob o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os impactos sobre o setor cultural. A referência não vem isolada. Está ligada à experiência concreta de quem atravessou um ciclo de retração.
A cobrança, no entanto, não se limita à política institucional. O diagnóstico recai sobre a cadeia produtiva. “Todo mundo tá com fome”, repete. A frase organiza o restante da análise. Artistas, técnicos, montadores, equipes de base. A demanda não é apenas por incentivo, mas por estrutura contínua de trabalho. “Não é incentivinho só, é estrutura mesmo, plataforma pra conseguir desenvolver ideia", pontua.
Nesse ponto, a ATAC deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar como resposta. A tentativa de organizar trabalhadores da cultura surge como movimento de reação a um mercado fragmentado, sem previsibilidade e com baixa capacidade de retenção. A articulação busca justamente o que Dinho aponta como ausência: continuidade.
No palco, esse debate ganha forma prática. O show de dez anos de Manual não opera apenas como celebração, mas funciona como fechamento de ciclo e, ao mesmo tempo, reabertura. O próprio vocalista reconhece a mudança de percepção sobre o repertório. “O país mudou, a gente mudou, o show mudou”, avalia.
Ao fim, Dinho resume o projeto do Boogarins a uma palavra: possibilidade. A música como meio de transformar ideia em prática, de conectar experiências e sustentar trajetórias. “A ideia do Boogarins é você se sentir possível”, pontua. “A gente usa muito essa palavra ‘sonho’, como essa coisa que tá dentro da sua cabeça e você quer materializar.”

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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