Abertura de mercado favorece agro, indústria e logística em Goiás, mas impõe novos desafios de competitividade
9 de janeiro de 2026 às 21:34
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Política
A aprovação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, firmado nesta sexta-feira (9), após mais de duas décadas de negociações, reposiciona o Brasil no tabuleiro do comércio internacional e produz efeitos diretos sobre economias regionais altamente dependentes de exportações. Goiás está entre elas.
O tratado prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 91% do comércio entre os dois blocos. Na prática, abre acesso ampliado a um mercado de aproximadamente 450 milhões de consumidores, mas também impõe novos padrões de concorrência, exigências regulatórias e rearranjos produtivos. Para Goiás, o saldo tende a ser positivo, embora não isento de riscos setoriais.
Governo aposta em diversificação e transição energética
A leitura institucional do governo estadual aponta o acordo como oportunidade estratégica em um cenário internacional mais instável. Para o secretário de Indústria e Comércio (SIC), Joel Santana Braga, o pacto com a União Europeia ganha relevância adicional diante das incertezas provocadas pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos.
“Quebrar barreiras amplia oportunidades e abre novos mercados para a economia goiana, especialmente em um momento de reacomodação do comércio global”, afirma o secretário ao Blog do DK. De acordo com ele, além do agronegócio, Goiás pode se beneficiar em áreas como minerais estratégicos e transição energética, segmentos que despertam crescente interesse do mercado europeu.
Braga cita programas como o PIEX, desenvolvido em parceria com a Apex, voltado à preparação de médias e pequenas empresas para exportação, como instrumentos para inserir o estado nesse novo ambiente competitivo.
Agro ganha fôlego, mas exige cautela
Na avaliação da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), o acordo representa uma oportunidade concreta de expansão. Dados apresentados pela entidade mostram que Goiás exportou, em 2025, cerca de US$ 928 milhões para a União Europeia, valor 22% superior ao registrado no ano anterior. Soja, carnes e café responderam por mais de 88% desse total.
“O acordo amplia mercados que já são relevantes para Goiás e tende a fortalecer cadeias nas quais o estado é altamente competitivo”, afirma Edson Novaes, gerente técnico e econômico da federação. Ele chama atenção, contudo, para a necessidade de mecanismos de salvaguarda, especialmente no setor lácteo, considerado mais sensível à concorrência de produtos europeus com maior valor agregado.
O alerta dialoga com uma preocupação recorrente do setor: o acordo favorece exportadores líquidos, mas pode pressionar cadeias menos estruturadas se não houver instrumentos de proteção e adaptação.
Indústria: vencedores claros e setores pressionados
A leitura da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg) é mais cirúrgica. Segundo Flávio Falcão, assessor técnico da entidade, os ganhos imediatos tendem a se concentrar na agroindústria e na mineração. Proteínas animais, complexo soja e ligas metálicas estratégicas, como ferro-níquel e ferro-nióbio, já ocupam posição relevante na pauta exportadora e atendem à demanda europeia, inclusive no contexto da transição energética.
Por outro lado, a Fieg aponta riscos para segmentos industriais de maior intensidade tecnológica. Indústrias farmacêuticas mais complexas e fabricantes de máquinas e equipamentos com menor sofisticação podem perder espaço diante da entrada facilitada de produtos europeus. “O acordo premia quem já é competitivo e expõe setores mais dependentes de proteção tarifária”, avalia Falcão.
Comércio, logística e pequenas empresas entram no jogo
Para a Fecomércio-GO, o impacto do acordo não se resume às exportações. O vice-presidente da entidade, Márcio Andrade, destaca que a redução tarifária tende a aumentar a concorrência e a eficiência dos mercados, embora os efeitos sobre preços e consumo não sejam imediatos, devido aos períodos de transição previstos no tratado.
Andrade ressalta que Goiás parte de uma base logística mais sólida do que no passado, com a Ferrovia Norte-Sul conectando polos produtivos como Anápolis, Rio Verde e São Simão à malha nacional e aos portos. “O acordo funciona como indutor de novos investimentos em logística, armazenagem e serviços associados ao comércio exterior”, afirma.
No caso das pequenas e médias empresas, a Fecomércio aposta na previsibilidade como fator-chave. Programas de capacitação e apoio técnico, desenvolvidos em parceria com Sebrae e outras instituições, podem facilitar a entrada de empresas hoje restritas ao mercado interno no comércio exterior.
Leitura geopolítica
Para o professor Guilherme Carvalho, o acordo deve produzir efeitos estruturais no médio e longo prazo. Ele lembra que o principal receio europeu sempre foi a entrada massiva de produtos agrícolas brasileiros a preços mais baixos, o que levou à negociação de compensações e salvaguardas.
Carvalho também chama atenção para um fator político pouco discutido: parte da resistência ao acordo, inclusive em Goiás, não está ligada aos impactos econômicos, mas ao fato de o tratado ter sido concluído durante um governo petista. “Os efeitos econômicos tendem a ser positivos. A resistência, em muitos casos, é ideológica”, avalia.
Na disputa internacional, ele aponta que Brasil e Argentina devem competir especialmente no setor de carnes, sobretudo em mercados menores da União Europeia, o que exigirá maior sofisticação produtiva e reorganização logística.
Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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