Ato marcou largada da direita em Goiás, apresentou Ana Paula Rezende como vice e expôs desconforto de Magda Mofatto e Teófilo nos bastidores
·
Política
O PL tentou transformar o sábado (27) em largada simbólica da direita em Goiás. Levou Flávio Bolsonaro a Goiânia, colocou Wilder Morais no centro do palanque, apresentou Ana Paula Rezende como pré-candidata a vice-governadora e reuniu dirigentes, parlamentares, prefeitos e pré-candidatos no Tatersal de Elite do Parque de Exposições Agropecuárias Pedro Ludovico Teixeira.
A cena principal foi pensada para falar com o eleitor conservador. Flávio chegou montado a cavalo, usando chapéu, ao lado de Wilder que também utilizava a indumentária.
O senador pelo Rio de Janeiro, apontado pelo partido como pré-candidato à Presidência da República, fez críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tentou associar a oposição a uma agenda de futuro.
“Ele roubou a esperança dos nossos jovens”, disse Flávio, ao afirmar que um eventual governo de oposição deverá investir em qualificação profissional, tecnologia e inteligência artificial para ampliar emprego e renda.
O evento serviu para chancelar Wilder como aposta do PL ao Palácio das Esmeraldas. A legenda tenta apresentar o senador como alternativa de direita à base governista liderada por Daniel Vilela e Ronaldo Caiado. No palanque, apoiadores trataram Goiás como “o estado mais direitista e conservador do Brasil”.
A direção nacional esteve presente com Valdemar Costa Neto. Também participaram a deputada federal Magda Mofatto, o vereador Major Vitor Hugo, o ex-deputado estadual Fred Rodrigues, os deputados estaduais Delegado Eduardo Prado, Major Araújo e Amauri Ribeiro, Oséias Varão e outros nomes ligados ao campo conservador.
O deputado federal Gustavo Gayer, principal nome do partido na disputa ao Senado, não compareceu por estar em recuperação de cirurgia. Antes do evento, Flávio visitou o deputado em casa e reafirmou apoio à pré-candidatura dele à Casa Alta. No roteiro do PL, tudo deveria comunicar unidade. Mas a unidade teve ruído.
Magda Mofatto se irritou ao supostamente ser barrada em uma área reservada do evento. Em vídeo que circula nas redes sociais, a deputada reclamou da organização e chegou a dizer que poderia não votar em Wilder.
“Depois eu declaro que não vou votar no Wilder Morais e o povo não sabe porquê”, afirmou. Em outro momento, completou: “Fui proibida de entrar no evento do meu partido. O partido que me elegeu”.
O Blog do DK apurou que Magda tentava acessar uma área restrita, controlada pela equipe de segurança de Flávio Bolsonaro. Depois da intervenção do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, a deputada entrou no espaço reservado aos políticos e discursou normalmente.
O caso não foi o único desconforto público. O ex-deputado estadual Delegado Humberto Teófilo, pré-candidato ao Senado, também reclamou nas redes sociais. Ele afirmou que foi ao lançamento das pré-candidaturas, inclusive da própria pré-candidatura ao Senado, mas acabou retirado da lista de discursos.
“Depois de toda a divulgação do evento, fui retirado da lista de discursos e informado de que não teria direito à fala”, escreveu. De acordo com Teófilo, só depois da intervenção de Wilder foi autorizado a falar rapidamente. “Só depois o senador Wilder disse que iria ‘quebrar o protocolo’ para que eu pudesse falar ‘rapidinho’, por um minuto”, afirmou.
Na sequência, ele questionou o tratamento dado aos aliados. “Quando uns têm todo o tempo e outros precisam pedir espaço para falar, a pergunta é inevitável: todos são tratados de forma igual? Quero entender. O que está acontecendo?”, escreveu.
Os episódios foram pequenos diante do tamanho do ato, mas politicamente reveladores. O PL queria vender força, alinhamento e disciplina. Entregou também uma amostra das dificuldades de acomodar vaidades, espaços e hierarquias em uma campanha que nasce com muitos candidatos e poucos lugares de destaque.
Flávio também tentou reduzir o impacto da crise recente com Michelle Bolsonaro. No evento, aliados lembraram a declaração do senador de que os desentendimentos com a ex-primeira-dama são “página virada”. Major Vitor Hugo reforçou a tentativa de pacificação. “Não há família mais exposta no Brasil do que a família Bolsonaro. É hora de unir, é hora de avançar”, disse o vereador.
Ao Blog do DK, o ex-deputado federal disse que Bolsonaro "hoje é praticamente um prisioneiro de guerra, alguém que está sendo injustiçado, mantido injustamente, ilegalmente e inconstitucionalmente no cárcere".
A frase resume o desafio do PL em Goiás. O partido quer nacionalizar a disputa, usar o sobrenome Bolsonaro como tração eleitoral e apresentar Wilder como nome competitivo contra a base caiadista. Mas precisa evitar que a crise nacional e os atritos locais contaminem a largada. O ato de sábado mostrou que o PL terá barulho, estrutura e palanque. Também mostrou que a unidade ainda exigirá manutenção diária.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
Continue a leitura









