El País, La Nación, Clarín e Bloomberg destacaram o impacto político e institucional das mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e enviadas a um contato atribuído ao ministro Alexandre de Moraes
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Política
A divulgação de mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ultrapassou o noticiário brasileiro e ganhou espaço na imprensa internacional nesta quarta-feira (2). Veículos da Espanha, Argentina e do mercado financeiro internacional destacaram os possíveis efeitos institucionais e políticos do caso envolvendo um contato atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O material faz parte das investigações relacionadas ao Banco Master e teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Um ponto importante é que os documentos divulgados registram mensagens enviadas por Vorcaro, mas não apresentam as eventuais respostas do interlocutor. Segundo a Bloomberg, investigadores apontaram que os conteúdos foram encaminhados a um número pertencente a Moraes.
Entre as mensagens que despertaram maior repercussão está uma enviada em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da primeira prisão de Vorcaro. O banqueiro perguntou ao interlocutor se deveria estar fora do país na segunda-feira seguinte. Outras comunicações indicam pedidos para que fossem feitos contatos com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Até agora, não há indicação de que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos.
Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025 no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Sua defesa negou que ele estivesse tentando fugir. No dia seguinte, o Banco Central anunciou a liquidação do Banco Master.
Repercussão na Espanha destaca impacto eleitoral
O jornal espanhol El País relacionou a divulgação das mensagens ao momento político brasileiro, a menos de cinco semanas das eleições presidenciais. Ao tratar do impacto das revelações, o veículo afirmou que elas chegaram ao cenário político como uma “bomba atômica”.
A publicação também chamou atenção para o peso político de Moraes dentro do Supremo e para a importância das eleições deste ano na futura composição da Corte. O próximo presidente da República terá a possibilidade de indicar ministros para vagas que serão abertas no STF durante o mandato, fator apontado pelo jornal como parte do contexto institucional da crise.
O El País lembrou ainda que os questionamentos sobre a relação entre Moraes e o Banco Master haviam começado antes da divulgação do novo material. Um dos pontos já conhecidos é o contrato firmado pelo banco com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Documentos analisados pela PF indicam que Moraes fez alterações em uma minuta desse contrato antes da assinatura. O escritório informou que o ministro foi consultado apenas para verificar a existência de impedimentos legais à contratação.
La Nación aponta crise institucional no Supremo
Na Argentina, o La Nación colocou o episódio entre os principais acontecimentos da política brasileira. O jornal descreveu a situação como um “terremoto político e institucional” e destacou a posição de Moraes dentro do Supremo e sua atuação em processos de grande repercussão nos últimos anos.
A publicação argentina concentrou a análise na proximidade indicada pelas mensagens entre o ministro e Vorcaro e no impacto que o episódio pode provocar dentro do próprio STF. O jornal também destacou que o caso deverá ser analisado pelos demais integrantes da Corte.
O Clarín, também da Argentina, direcionou a cobertura para os efeitos eleitorais das revelações. Segundo levantamento feito pelo g1 sobre a repercussão internacional, o jornal relacionou o caso à disputa presidencial marcada para 4 de outubro e ao confronto eleitoral entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
Caso Master também alcança Flávio Bolsonaro
A imprensa estrangeira não restringiu a repercussão a Moraes. O El País também mencionou a relação de Daniel Vorcaro com o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e pagamentos atribuídos ao ex-banqueiro para um projeto de cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
A presença de nomes situados em diferentes campos políticos é um dos elementos que ampliaram a dimensão do caso às vésperas da eleição. Enquanto aliados da oposição intensificaram pedidos para o afastamento de Moraes, as relações de Vorcaro com Flávio Bolsonaro também passaram a integrar a cobertura política das mensagens e das movimentações financeiras investigadas.
Bloomberg destaca pressão sobre Moraes
A Bloomberg tratou a divulgação dos documentos como um novo capítulo dos questionamentos envolvendo Moraes e o Banco Master. A agência destacou que as mensagens aumentaram a pressão sobre o ministro e voltaram a colocá-lo no centro de um caso que já havia provocado desgaste institucional.
A publicação ressaltou uma limitação importante do material: os documentos tornados públicos apresentam mensagens de Vorcaro, mas não mostram as respostas atribuídas a Moraes. A Bloomberg também registrou que, após a divulgação de outro conjunto de mensagens em março, o ministro havia afirmado que aqueles conteúdos não tinham sido enviados ao seu telefone. Sobre o novo material divulgado nesta semana, Moraes não havia se pronunciado publicamente até a publicação das reportagens consultadas.
O que consta no relatório da PF
Além das mensagens enviadas nos dias anteriores à prisão de Vorcaro, o relatório reúne referências a encontros entre o banqueiro e Moraes. Registros analisados pela Polícia Federal indicam pelo menos seis encontros entre os dois entre 2024 e 2025, embora os documentos não confirmem de forma independente a realização de todas as reuniões mencionadas nas conversas.
O material também contém documentos relativos ao contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes. Segundo a PF, metadados indicam que Alexandre de Moraes realizou alterações em uma versão do documento. O escritório afirmou que a consulta ao ministro ocorreu no âmbito do procedimento interno de compliance para verificar se havia impedimentos relacionados à atuação profissional da banca.
O caso está sob relatoria de André Mendonça. O ministro retirou o sigilo do material e indicou que os novos elementos deverão ser submetidos ao plenário do STF. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, questionou a forma como o relatório foi produzido e pediu sua anulação, sob o argumento de que não caberia ao relator determinar investigação sobre outro ministro sem provocação do Ministério Público ou autorização do colegiado.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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