Entre a herança da crise, o discurso do choque de gestão e a aposta em decisões rápidas, confira um balanço da administração Mabel em 12 atos
26 de dezembro de 2025 às 08:49
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Política
O prefeito de Goiânia Sandro Mabel (UB), mal havia sido declarado vencedor do segundo turno das eleições municipais quando passou a agir, ainda que informalmente, como prefeito de Goiânia. A vitória sobre o bolsonarista Fred Rodrigues (PL), após uma campanha dura e polarizada, não lhe deu tempo para a transição protocolar. O cenário que emergiu do pleito era de esvaziamento completo da administração que se encerrava.
O então prefeito Rogério Cruz (SD), que terminou a disputa apenas na sexta colocação, à frente somente do professor Pantaleão (UP), saiu das urnas sem capital político, sem base institucional e atolado em uma crise profunda na Saúde. Em poucas semanas, a pasta se tornou um símbolo do colapso administrativo: a prisão de um secretário municipal de Saúde, a passagem relâmpago de outros dois titulares em menos de quinze dias e denúncias de desorganização nos contratos levaram o Ministério Público a pedir uma intervenção estadual. O Tribunal de Justiça acatou.
Nesse vácuo de poder, Mabel foi chamado à mesa antes mesmo da posse. Mesmo que informalmente. Coube ao prefeito eleito costurar acordos, dialogar com o governo estadual e, sobretudo, oferecer garantias a fornecedores que ameaçavam interromper serviços essenciais. O compromisso de que contratos seriam honrados funcionou como um primeiro gesto de autoridade, ainda sem a caneta, mas já com responsabilidade política. Hoje, meses depois, crises com o setor permanecem e continuam a existir, mas isso é outra pauta.
Quando assumiu oficialmente, em 1º de janeiro de 2025, Mabel não encontrou apenas uma prefeitura endividada. Encontrou uma máquina desacreditada, uma Saúde em intervenção e uma cidade que esperava menos promessas e mais comando. O discurso do choque de gestão, repetido ao longo da campanha, passou rapidamente do palanque para a prática.
Doze meses depois, o primeiro ano da gestão Sandro Mabel revela uma administração marcada por decisões rápidas, enfrentamentos políticos e uma aposta clara em reorganizar a cidade a partir de áreas estratégicas, como mobilidade urbana e finanças públicas. Ao mesmo tempo, expõe limites, ruídos e conflitos típicos de um governo que escolheu governar em alta rotação desde o primeiro dia.
Esta matéria reconstrói o primeiro ano da gestão Mabel em 12 atos. Um balanço que não se pretende oficial nem definitivo, mas que busca compreender como um prefeito eleito em meio ao caos decidiu exercer o poder antes mesmo de ocupá-lo formalmente.
Ato 1 – A herança e o discurso do colapso
Ao assumir oficialmente a Prefeitura de Goiânia, em 1º de janeiro de 2025, Sandro Mabel já governava havia semanas. A crise deixada pela gestão Rogério Cruz, agravada após o processo eleitoral, antecipou sua atuação e moldou o primeiro gesto político do novo prefeito: assumir o controle antes mesmo da posse.
A Saúde municipal estava em frangalhos. A prisão de um secretário, a troca de outros dois em menos de duas semanas e o risco concreto de interrupção de serviços levaram o Ministério Público a pedir uma intervenção estadual, acolhida pelo Tribunal de Justiça. Fornecedores ameaçavam suspender atendimentos. Coube a Mabel garantir que contratos seriam honrados e que a transição não significaria ruptura abrupta.
Esse contexto deu base ao discurso que marcaria o início do mandato. A Prefeitura passou a sustentar a existência de um passivo bilionário, contratos desorganizados e uma máquina pública sem controle. A decretação da calamidade financeira foi o símbolo dessa narrativa. Mais do que um instrumento administrativo, funcionou como marca política: o novo governo se apresentava como antítese do improviso.
Ato 2 – A caneta pesada e o freio de arrumação
Com a calamidade em vigor, Mabel iniciou um período de contenção rigorosa. Despesas foram revistas, contratos reavaliados e projetos suspensos. Internamente, o recado era claro: não haveria espaço para expansão de gastos enquanto o caixa não estivesse sob controle.
A estratégia produziu efeitos rápidos. Ao longo do ano, a Prefeitura conseguiu reorganizar o fluxo financeiro, reduzir despesas correntes e elevar a arrecadação própria. O discurso do “ano da arrumação” foi repetido à exaustão, sempre acompanhado da promessa de que os frutos viriam adiante.
A apresentação de um superávit ao final do exercício reforçou a narrativa de eficiência fiscal. Críticos ponderaram que parte do resultado decorreu da compressão de investimentos e do represamento de políticas públicas. Para o prefeito, tratava-se de um passo necessário para recuperar a capacidade de governar.
Ato 3 – Mobilidade como vitrine
Se houve uma área escolhida para simbolizar a nova gestão, foi a mobilidade urbana. Mabel decidiu enfrentar um dos problemas mais visíveis da cidade: o trânsito.
A Prefeitura implantou corredores exclusivos, sincronizou semáforos, ampliou faixas em vias estratégicas e adotou medidas controversas, como a conversão à direita com sinal fechado. O objetivo era dar fluidez imediata, mesmo que isso implicasse resistência inicial.
Os resultados apareceram rapidamente, sobretudo no transporte coletivo. A velocidade média dos ônibus aumentou, o tempo de deslocamento caiu e a gestão passou a falar em “metronização” do sistema. Goiânia voltou a figurar entre as capitais com recuperação do número de passageiros após a pandemia.
A mobilidade tornou-se o principal argumento político do governo e, não por acaso, o setor mais defendido por Mabel em entrevistas e eventos públicos.
Ato 4 – O prefeito que acelera
A aposta em decisões rápidas virou traço do estilo Mabel. Secretários receberam autonomia, mas também cobrança por resultados. O prefeito passou a se apresentar como gestor que prefere errar pelo excesso de ação do que pela paralisia.
Essa postura agradou parte do eleitorado, cansada da lentidão administrativa. Ao mesmo tempo, acendeu alertas entre políticos acostumados a processos mais negociados. A gestão ganhou fama de pouco afeita a mediações longas, o que cobraria seu preço adiante.
Ato 5 – A Câmara entra em cena
A relação com a Câmara Municipal começou sem ruídos, mas se deteriorou com rapidez. Vereadores reclamaram da dificuldade de acesso ao secretariado, do ritmo lento de execução das emendas impositivas e da centralização das decisões no Paço.
Mabel respondeu impondo regras, agendas e limites. Secretários passaram a receber parlamentares mediante cronograma. O discurso do prefeito era o de que a Prefeitura não funcionaria como balcão político.
O atrito estava dado. A governabilidade, que parecia confortável no início, passou a depender de negociações pontuais e tensões constantes. Agora, entra em 2026 com uma parcimônia maior. Prova disso, é a resolução da CEI da LimpaGyn. Após o Paço entrar em cena, teve desfecho antes mesmo do prazo final. A ceia de Natal para os membros do colegiado teve sabor de calabresa na pizza. Para a população, também.
Ato 6 – A Taxa do Lixo e a ruptura
O conflito explodiu de vez com a Taxa do Lixo. A tentativa da Câmara de revogar a cobrança, aprovada na gestão anterior, contou com votos de vereadores da base e culminou na queda do líder do governo.
A resposta de Mabel foi dura. O prefeito retirou o aliado da liderança e afirmou que não cederia a práticas que considerava antigas e prejudiciais à cidade. A crise abriu caminho para uma CEI do contrato da limpeza urbana e escancarou a fragilidade da base governista.
A partir dali, a relação Executivo-Legislativo entrou em estado permanente de desconfiança.
Ato 7 – Saúde: o nó que não desata
Apesar da reorganização financeira, a Saúde seguiu como o maior passivo político do governo. Filas persistiram, contratos continuaram sob revisão e a sensação de emergência nunca se dissipou por completo.
A prorrogação da calamidade na Saúde evidenciou os limites da gestão em resolver um problema estrutural em curto prazo. O governo argumentou que herdou um sistema colapsado. A oposição passou a cobrar resultados mais concretos.
O tema, sensível e cotidiano, tornou-se o principal flanco de desgaste do prefeito.
Ato 8 – Educação e tecnologia
Na contramão da Saúde, a Educação foi tratada como área estratégica. Ampliação de vagas, investimento em tecnologia e modernização das escolas deram o tom do setor.
A distribuição de tablets, a instalação de lousas digitais e a expansão da educação infantil ajudaram a construir uma narrativa positiva. A gestão buscou associar inovação à redução de desigualdades.
O desafio, reconhecido internamente, é garantir que os avanços estruturais se traduzam em melhoria efetiva da aprendizagem.
Ato 9 – Parcerias e controvérsias
A proposta de terceirizar a manutenção dos parques municipais abriu um novo flanco de debate. Para Mabel, tratava-se de pragmatismo administrativo. Para críticos, de privatização disfarçada do espaço público.
O episódio revelou um traço do governo: disposição para enfrentar resistência social em nome da eficiência. Também mostrou que a comunicação nem sempre acompanha a ousadia das decisões.
Ato 10 – Chuva e limites
A segunda metade de 2025 expôs fragilidades históricas de Goiânia diante das chuvas intensas. Alagamentos, quedas de árvores e falhas na rede elétrica se acumularam, culminando na morte de uma adolescente no centro da cidade após fios de alta tensão caírem na via pública durante uma tempestade. O episódio chocou a capital e recolocou o tema da infraestrutura urbana no centro do debate.
Pressionado, Sandro Mabel afirmou que não podia lutar contra São Pedro, mas prometeu enfrentar a fiação aérea e os postes que, segundo ele, transformam temporais em risco à população. A resposta revelou um limite do primeiro ano de gestão. Algumas crises não se resolvem com velocidade ou comando imediato, mas exigem planejamento de longo prazo e investimentos estruturais que extrapolam o tempo político de um mandato.
Ato 11 – A cidade no cotidiano
Na zeladoria urbana, Mabel além dos mutirões, tem apostado na manutenção contínua. Limpeza, iluminação e tapa-buracos ganharam rotina mais permanente, embora ainda há espaços para avanços. A cidade melhorou em alguns pontos, seguiu problemática em outros. Sem grandes obras, a percepção pública oscilou.
Ato 12 – Um governo em alta rotação
Ao final do primeiro ano, Sandro Mabel consolidou a imagem de um prefeito que governa acelerando. Avançou onde pôde, enfrentou quem considerou necessário e pagou o preço político dessa escolha. Fosse menos bravateiro e não quisesse chamar sempre a atenção para si na resolução dos problemas, talvez alguns problemas básicos pudessem ter já sido resolvidos.
Agora, entretanto, é falar sobre o futuro. Com contas mais organizadas e projetos em andamento, entra no segundo ano com mais condições de investir, mas também com menos margem para explicações baseadas na herança recebida.
O saldo de 2025 não é definitivo, mas pode dar o tom que os próximos anos vão ter: Goiânia tem hoje um prefeito que prefere o risco do movimento ao conforto da inércia. Resta saber se, daqui para frente, velocidade e direção continuarão caminhando juntas.
Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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