Isaura Lemos ao lado de Domingos Ketelbey (Foto: Divulgação)

Isaura Lemos ao lado de Domingos Ketelbey (Foto: Divulgação)

Isaura Lemos ao lado de Domingos Ketelbey (Foto: Divulgação)

Isaura Lemos ao lado de Domingos Ketelbey (Foto: Divulgação)

DOMINGOS CONVERSA #67: ISAURA LEMOS E A BUSCA DA ESQUERDA POR UMA VAGA AO SENADO

DOMINGOS CONVERSA #67: ISAURA LEMOS E A BUSCA DA ESQUERDA POR UMA VAGA AO SENADO

Ex-deputada revela que cogitou disputar o Governo de Goiás, aposta em Lula para impulsionar chapa progressista e cobra coerência interna no PSB

·

Domingos Conversa

Podcast

Candidata ao Senado pelo PSB, Isaura Lemos afirmou que a esquerda chega à eleição de 2026 com a missão de romper uma barreira histórica em Goiás: transformar sua votação presidencial em representação efetiva na Casa Alta do Congresso Nacional.

Em entrevista ao Domingos Conversa nesta segunda-feira (17), a ex-deputada estadual defendeu a estratégia de lançar duas candidaturas progressistas às vagas em disputa, revelou bastidores de sua própria entrada na corrida eleitoral e afirmou que o desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será determinante para as chances da chapa.

Isaura divide o campo da esquerda ao Senado com Cíntia Dias, do PSOL. Para ela, a presença de duas candidaturas não representa divisão, mas uma tentativa de ocupar os dois votos disponíveis ao eleitor.

“Na medida em que o eleitor vai ter que votar em duas candidaturas, nós preferimos que tenha, sim, duas candidaturas de esquerda”, afirmou.

A aposta nos votos de Lula

Isaura reconhece que a disputa é difícil. Goiás mantém um eleitorado majoritariamente inclinado ao centro e à direita nas eleições para o Senado, enquanto as candidaturas progressistas historicamente encontram dificuldades para converter sua votação presidencial em cadeiras no Congresso.

A estratégia passa por tentar ampliar a votação de Lula no Estado e vincular esse desempenho às candidaturas majoritárias da frente.

“Estamos lutando para que esses 41% de votos se transformem em 60%, porque nós estamos muito mais unidos e organizados”, disse.

A candidata sustenta que o eleitor de Lula precisa enxergar a eleição para o Senado como parte do mesmo projeto político.

Segundo Isaura, a direita consegue eleger representantes porque associa seus candidatos ao campo ideológico que disputa a Presidência. O desafio da esquerda seria repetir essa lógica e transformar o voto presidencial em dois votos progressistas para senador.

Isaura espera Lula em Goiás

A candidata afirmou que espera a participação direta do presidente na campanha goiana.

Segundo Isaura, ela esteve recentemente com Lula para uma gravação e para alinhamentos relacionados ao processo eleitoral.

Ao ser questionada se o presidente demonstrou intenção concreta de participar de atividades no Estado, disse acreditar que sim, embora tenha destacado que a agenda nacional limita a presença de Lula nos estados.

“Se eu fosse o Lula, eu viria para Goiás”, afirmou.

Na avaliação de Isaura, a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado amplia a importância política de Goiás na estratégia nacional.

Para ela, Lula tem motivos eleitorais e políticos para disputar espaço no Estado, sobretudo diante da relevância do agronegócio, da produção mineral e das reservas de terras raras.

Candidatura ao Governo esteve na mesa

Um dos principais bastidores revelados durante a entrevista foi a possibilidade de Isaura disputar inicialmente o Governo de Goiás.

A ex-deputada contou que chegou a trabalhar com essa hipótese antes da definição da chapa da esquerda.

Segundo ela, o cenário mudou ao perceber que lideranças do PT trabalhavam prioritariamente com o nome da deputada Adriana Accorsi.

“Quando eu percebi que as grandes lideranças petistas tinham essa visão, eu recuei para o Senado”, relatou.

Isaura afirmou que havia sido bem recebida por dirigentes petistas, mas avaliou que a preferência interna naquele momento estava concentrada em Adriana.

Com os prazos eleitorais avançando e diante da necessidade de definir sua filiação partidária, decidiu não permanecer aguardando uma definição.

Do PCdoB ao PSB

A mudança partidária ocorreu nesse contexto.

Isaura deixou o PCdoB e ingressou no PSB após receber convite para construir sua candidatura ao Senado.

Segundo ela, a decisão também evitou uma disputa interna com outras forças que já discutiam espaços na chapa majoritária.

“Eu não quis atropelar ninguém”, afirmou.

No PSB, encontrou espaço para levar adiante o projeto ao Senado dentro da composição nacional formada em torno da candidatura de Lula.

A distribuição das vagas entre as legendas, segundo Isaura, foi uma consequência natural da necessidade de acomodar os partidos que aderiram à aliança.

Luiz César Bueno e a cabeça de chapa

Isaura também elogiou a escolha de Luiz César Bueno como candidato ao Governo de Goiás.

Os dois foram colegas na Assembleia Legislativa.

Segundo a candidata, Luiz César tem experiência com orçamento público e ligação histórica com movimentos sociais.

“É uma candidatura que não veio só para ser palanque do Lula, mas para realmente apresentar uma proposta diferente”, afirmou.

Ela citou como exemplo a necessidade de revisar mecanismos de financiamento e desenvolvimento econômico no Estado, mencionando o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste e a agricultura familiar.

Para Isaura, a esquerda precisa apresentar um projeto econômico que combine desenvolvimento produtivo e distribuição de renda.

As divisões que quase impediram a frente

Isaura reconheceu que houve dificuldades até a formação definitiva da aliança.

Durante o período pré-eleitoral, PSB, PT, PDT, PSOL e outras legendas discutiram vagas, candidaturas e espaços na chapa majoritária.

A candidata afirmou que a unidade só foi possível quando houve uma distribuição dos postos entre as diferentes forças.

“Os partidos não vão se unir se não houver uma distribuição de vagas, de espaços”, disse.

Ela argumentou que uma aliança eleitoral exige concessões.

“Na política não tem só o ‘venha a nós’”, resumiu.

Apesar das tensões, Isaura sustenta que a frente entra na campanha unificada principalmente pela existência de uma orientação nacional de apoio a Lula.

Recado aos dissidentes do PSB

A entrevista também expôs uma das contradições internas do PSB em Goiás.

Enquanto Isaura integra oficialmente o palanque de Lula e Luiz César Bueno, integrantes do partido mantêm relações políticas com lideranças de outros campos.

Questionada sobre aproximações de candidatos do PSB com Gustavo Gayer e com integrantes da direita, Isaura classificou o movimento como “lamentável”.

Ela cobrou fidelidade ao programa partidário e afirmou que aqueles que não se identificarem com as posições do PSB terão dificuldade de permanecer na legenda.

“Esses candidatos que não se identificarem com esse programa, com certeza, mais dia menos dia, não ficarão no partido”, declarou.

Isaura argumentou que a coerência política também será cobrada pelo eleitor.

Segundo ela, um candidato não pode pedir votos dentro de um partido identificado nacionalmente com Lula e, simultaneamente, construir alianças com adversários diretos do presidente.

Daniel Vilela também entra na crítica

A candidata fez críticas ao governador Daniel Vilela e ao grupo político que governou Goiás nos últimos anos.

Durante o bate-bola, afirmou que Daniel não estaria reproduzindo a relação popular que, na avaliação dela, caracterizou a trajetória do ex-governador Maguito Vilela.

Isaura também acusou os governos recentes de Goiás de manter distância de movimentos sociais e de segmentos de trabalhadores.

Ao tratar da agricultura familiar, afirmou que organizações de trabalhadores rurais não tiveram o diálogo que deveriam ter recebido do governo estadual.

Para ela, a ausência dessa interlocução representa um problema político e administrativo.

Marconi não está totalmente descartado

Isaura também foi questionada sobre Marconi Perillo e sobre a possibilidade de a esquerda eventualmente apoiá-lo em um segundo turno.

A candidata respondeu que teria “muita dificuldade” por causa do histórico de embates entre os dois campos.

Ainda assim, não fechou completamente a porta.

“Quando mostrar quem ficará no segundo turno, caso haja segundo turno, nós vamos pensar e balançar mais os prós e os contras”, disse.

Ela apontou um critério central para qualquer decisão futura: a posição do candidato em relação à disputa presidencial.

“Especialmente quem ficar com o Lula. Isso, para mim, vai ser fundamental”, afirmou.

Gayer vira alvo direto

Gustavo Gayer foi um dos principais alvos das críticas de Isaura.

A candidata questionou a atuação parlamentar do deputado federal e afirmou não enxergar resultados concretos de seu mandato para a população.

“Qual o serviço prestado pelo candidato ao Senado Gustavo Gayer? Qual o serviço prestado?”, questionou.

Para Isaura, candidaturas construídas principalmente a partir do enfrentamento ideológico ao PT não oferecem uma agenda suficiente para o Senado.

Ela argumentou que o eleitor deveria avaliar a atuação e os resultados apresentados por cada concorrente antes de definir seus dois votos.

“Teto de juros, não teto de gastos”

Na agenda econômica, Isaura apresentou uma das frases centrais da entrevista.

“Nós precisamos de teto de juros e não teto de gastos”, afirmou.

A candidata critica o peso do sistema financeiro sobre as contas públicas e defende mudanças na política econômica que permitam ampliar investimentos sociais.

Segundo ela, recursos públicos deveriam ser priorizados para moradia, educação, saúde e melhoria das condições de vida antes de serem direcionados ao pagamento de juros.

Isaura também defendeu maior tributação sobre grandes fortunas e uma estrutura fiscal em que os mais ricos contribuam proporcionalmente mais.

Na avaliação da candidata, medidas de desoneração para trabalhadores de renda mais baixa ajudam a aumentar o consumo e movimentar a economia.

Moradia como principal identidade política

A luta pela moradia permanece como um dos eixos centrais da candidatura.

Isaura construiu sua trajetória política ligada a movimentos populares e afirma que o direito à habitação ainda não recebe tratamento compatível com a previsão constitucional.

Durante a entrevista, ela criticou a falta de respostas institucionais para famílias sem moradia e defendeu a ampliação de políticas habitacionais.

Também elogiou o Minha Casa, Minha Vida e contrapôs o programa às políticas habitacionais desenvolvidas durante o governo Jair Bolsonaro.

No Senado, Isaura pretende continuar tratando a moradia como parte de uma agenda mais ampla de direitos sociais.

Saúde e atendimento integral

A candidata também defendeu mudanças no atendimento público de saúde.

Técnica de enfermagem, Isaura propôs ampliar o conceito de atendimento integral dentro do Sistema Único de Saúde.

Ela citou especialmente as pessoas com deficiência e pacientes que apresentam transtornos ou condições que exigem atendimento em diferentes áreas.

Na avaliação da candidata, o usuário não deveria procurar diferentes estruturas para cada problema, mas encontrar atendimento integral dentro da rede pública.

Educação e juventude

Outro eixo apresentado foi a educação.

Isaura afirmou que mudanças tecnológicas e o uso intenso de celulares exigem novas estratégias para manter crianças e adolescentes interessados na escola.

Ela defendeu maior acesso à cultura, leitura e formação ampla.

A candidata também demonstrou preocupação com a evasão no ensino médio e argumentou que parte dos jovens não consegue enxergar perspectiva econômica concreta depois da conclusão dos estudos.

Isaura citou políticas de acesso ao ensino superior e a expansão dos institutos federais como exemplos de ações positivas dos governos Lula.

Feminicídio e restrição ao álcool

O enfrentamento ao feminicídio aparece entre as prioridades que Isaura pretende levar ao Senado.

Ela defendeu campanhas preventivas mais amplas, ações educativas em escolas e políticas específicas para adolescentes e jovens.

A candidata também relacionou o consumo de álcool à violência doméstica e sugeriu maior regulamentação sobre a venda de bebidas durante a madrugada.

Para Isaura, a política pública não pode atuar somente depois da agressão.

A legislação, segundo ela, precisa ser acompanhada por prevenção, educação e estruturas de proteção às mulheres, sobretudo no interior e nas periferias.

Nota 9 para Lula

Isaura fez uma avaliação amplamente positiva do governo federal. Questionada sobre qual nota daria à administração do presidente, respondeu: 9.

A candidata afirmou acreditar na reeleição de Lula e citou políticas nas áreas de educação, saúde, moradia e desenvolvimento como justificativas para sua avaliação.

Ela também defendeu a atuação do presidente diante das pressões internacionais e sustentou que Lula representa uma política de defesa dos interesses nacionais.

Supremo e impeachment de ministros

A disputa em torno do Supremo Tribunal Federal também entrou na conversa.

Isaura criticou candidatos que colocam o impeachment de ministros entre as principais bandeiras para o Senado. “Mostra que eles não têm proposta”, afirmou.

Segundo ela, o eleitor escolhe um senador para produzir mudanças na vida da população e não para transformar a Casa em instrumento permanente de confronto institucional. Ao mesmo tempo, Isaura deixou claro que não considera o Judiciário imune a críticas.

Ela defendeu uma reforma e afirmou que ministros e juízes também precisam manter compromisso com a população.

Sobre a atuação recente do Supremo, fez uma avaliação positiva especialmente no que chamou de defesa da democracia e do Estado de Direito.

O desafio histórico do Senado

Isaura sabe que enfrenta uma eleição distinta das disputas proporcionais que marcaram sua carreira. O Senado exige votação estadual, grande estrutura de campanha e capacidade de diálogo com diferentes segmentos.

A candidata aposta justamente no contraste entre sua trajetória nos movimentos sociais e os perfis predominantes entre os nomes mais competitivos. Na avaliação dela, o Senado historicamente abriga empresários, milionários ou representantes de interesses econômicos de maior poder.

Sua candidatura tenta construir o discurso oposto: levar para Brasília uma representante de trabalhadores, movimentos populares e setores de menor renda. “Chegou um ponto que nós temos que dar um basta nisso. Nós temos que colocar no Senado pessoas que realmente representam a maioria da população”, afirmou. A tentativa de transformar esse discurso em voto será um dos principais testes da esquerda goiana em 2026.

Image

Domingos Ketelbey

É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística

Continue a leitura

You can't work for Twitter, Elon Musk is different