Podcast com Valério Luiz, apresentado por Domingos Ketelbey teve participação de Renato Rick, presidente do Sinpol-GO

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DOMINGOS CONVERSA #52: VALÉRIO LUIZ EXPLICA PROCESSO INTERNO NO PT, DIZ QUE FOI “VOTO VENCIDO” E FALA SOBRE FUTURO DA ESQUERDA

DOMINGOS CONVERSA #52: VALÉRIO LUIZ EXPLICA PROCESSO INTERNO NO PT, DIZ QUE FOI “VOTO VENCIDO” E FALA SOBRE FUTURO DA ESQUERDA

Advogado criminalista afirma que derrota na disputa interna foi "processo normal", critica tentativa de aliança com Marconi Perillo

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Domingos Conversa

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A disputa interna do PT em Goiás, o futuro da esquerda, a segurança pública e os desdobramentos do assassinato do radialista esportivo Valério Luiz dominaram a entrevista do advogado criminalista Valério Luiz Filho ao podcast Domingos Conversa

Em mais de uma hora de conversa, o advogado falou pela primeira vez com detalhes sobre a escolha do ex-deputado estadual Luis César Bueno como candidato do partido ao Governo de Goiás, fez críticas às articulações que tentaram aproximar o PT do ex-governador Marconi Perillo e avaliou que a legenda precisa deixar de depender de poucos nomes para voltar a crescer no estado.

Filho do radialista assassinado em julho de 2012, Valério também revisitou a longa batalha judicial travada pela família até a condenação dos quatro réus pelo crime e afirmou que, embora considere as penas inferiores ao que imaginava adequado, a Justiça preservou a memória do pai e do avô, Mané de Oliveira.

A entrevista contou ainda com a participação do agente da Polícia Civil e presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Goiás (Sinpol), Renato Rick, que debateu segurança pública, facções criminosas e os desafios enfrentados pelas forças policiais.

Derrota sem mágoa

Valério revelou que entrou na disputa interna para ser candidato ao Governo de Goiás a convite da deputada federal e presidente do PT em Goiás, Adriana Accorsi. Recebeu apoio da corrente Articulação e da tendência Cerrado, da qual faz parte, mas acabou derrotado pela maioria formada em torno de Luis César Bueno.

Segundo ele, o resultado faz parte da dinâmica interna petista.

"Eu tenho consciência de que ninguém tem direito adquirido de sair candidato, ainda mais de um grupo político tão importante como o do presidente Lula. Isso é um privilégio. Você é escolhido ou não."

Apesar de reconhecer que a derrota gera frustração imediata, Valério disse que saiu satisfeito por ter sido lembrado num partido em que está há relativamente pouco tempo.

"Você entra para ganhar ou perder. É claro que a gente fica chateado naquele primeiro momento. Mas ter chegado até esse ponto, ter recebido apoio dentro do diretório estadual, foi algo que me deixou feliz."

Ele também fez elogios ao nome escolhido pelo partido.

"Luis César é um homem muito preparado. Tem quatro mandatos de deputado estadual, dois de vereador, conhece economia política e sabe responder às questões."

Na avaliação dele, o maior desafio do candidato será compensar o tempo perdido enquanto o partido discutia internamente quem encabeçaria a chapa.

"A escolha acabou acontecendo recentemente e isso reduziu o tempo de pré-campanha. Mas é uma desvantagem que pode ser corrigida durante a campanha."


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"O PT não tem dono"

Ao explicar como ocorreu a disputa interna, Valério procurou desfazer a imagem de que a presidente estadual do partido teria poder para decidir sozinha quem seria candidato.

Segundo ele, o PT possui um funcionamento diferente da maior parte das legendas brasileiras.

"Em muitos partidos existe um dono. Esse dono define quem será candidato e acabou. No PT não funciona assim. O PT é uma espécie de arquipélago de forças."

Ele explica que diferentes correntes disputam espaço permanentemente dentro da legenda e que as decisões são tomadas coletivamente.

"Existem tendências mais à esquerda, mais ao centro e outras mais moderadas. Elas disputam internamente e quem forma maioria leva."

Por isso, segundo Valério, nem mesmo Adriana Accorsi teria condições de impor uma candidatura.

"A presidente tem muita força política, mas não pode simplesmente dizer 'eu decidi e será assim'. A decisão é da Executiva, do Diretório, dos colegiados."

Marconi ficou no passado

Um dos momentos mais contundentes da entrevista ocorreu quando Valério comentou a possibilidade, discutida durante meses nos bastidores da política goiana, de uma aliança entre PT e PSDB em Goiás.

Ele afirmou que sempre foi contrário à hipótese.

"Eu sempre fui radicalmente contra qualquer chapa que não tivesse um candidato do PT defendendo expressamente os projetos do presidente Lula."

Segundo ele, a discussão perdeu sentido quando o próprio Marconi Perillo passou a rejeitar publicamente qualquer composição.

"Eu conheço o Marconi. Quando ele disse que não iria, eu nunca achei que ele mudaria de ideia."

Valério disse que chegou a considerar constrangedora a insistência de setores petistas na tentativa de aproximação.

"Parecia que a gente estava implorando para o Marconi."

Na avaliação do advogado, mesmo que o tucano tivesse mais intenção de voto, a eventual aliança esvaziaria o discurso nacional do partido.

"Ele subiria no palanque para defender o governo Lula? Defenderia os programas federais? Pediria voto para o presidente? Eu não acredito."

Apesar das críticas políticas, Valério fez questão de separar a avaliação sobre Marconi da discussão pessoal.

"Minha crítica nunca foi ao Marconi enquanto pessoa. O problema é político. Não adianta trazer alguém que esconde o presidente Lula durante a campanha."

O PT precisa deixar de depender de Adriana

Ao analisar o cenário do partido em Goiás, Valério afirmou que o PT precisa ampliar sua base de lideranças e deixar de concentrar suas expectativas em poucos nomes.

Ele reconhece a importância de Adriana Accorsi, mas considera que isso revela uma fragilidade estrutural. "Um partido do tamanho do PT não pode depender de uma pessoa, por melhor que ela seja."

Na avaliação dele, falta ao partido uma estratégia permanente de comunicação no estado.

"O PT precisa defender mais o próprio partido em Goiás. Não basta defender apenas os mandatos. É preciso defender a legenda."

Segundo Valério, o ambiente político goiano impõe dificuldades adicionais ao partido. "O presidente Lula já é atacado diariamente em Goiás. Existe um ambiente muito desfavorável. Se ninguém responder, fica parecendo que o partido aceita tudo calado."

Futuro do PT depois de Lula

A entrevista também abordou a dificuldade da esquerda em construir novos líderes nacionais. Para Valério, a formação de lideranças progressistas é mais difícil porque elas enfrentam resistência dos setores econômicos e dos grandes meios de comunicação.

“A favor da direita tem o capital. Quando aparece alguém de direita com capacidade eleitoral, existe uma estrutura para projetar essa pessoa. A liderança de esquerda precisa construir base social, e isso leva tempo”, afirmou.

Ele reconheceu que o PT ainda não apresenta uma sucessão clara para Lula, mas disse que novos nomes surgirão a partir das disputas políticas e sociais.

“Quando Lula não puder mais capitaneá-la, vai surgir alguém. Quem será, eu não sei. Não tem como fabricar uma liderança”, declarou.

Justiça foi feita até determinado ponto

No fim da entrevista, Renato Rick perguntou se a Justiça havia sido feita no caso do assassinato do radialista Valério Luiz, morto em 2012.

O advogado afirmou que gostaria de penas maiores, mas avaliou que as condenações representaram uma vitória diante da diferença de poder existente entre a família e os acusados.

“Eu queria que as penas fossem maiores. Acho que caberiam penas maiores. Mas a diferença de força era descomunal. Ninguém acreditava”, disse.

Valério destacou que o empresário Maurício Sampaio perdeu influência, foi condenado e acabou preso, assim como os demais réus.

“O fato de aquele homem ter perdido o poder que tinha, perdido o cartório e sido condenado, mesmo mandando e desmandando no Estado como acontecia, é uma vitória muito grande”, afirmou.

Para ele, o resultado do processo não encerra completamente a sensação de injustiça, mas preserva o legado da família.

“A Justiça aconteceu até determinado ponto. Acredito que a memória do meu pai e do meu avô foi respeitada com o que aconteceu”, disse.

Valério também lembrou a convivência familiar antes do crime e afirmou que as lembranças positivas permanecem.

“Eu tive uma infância muito boa. Meu pai e minha mãe foram muito amorosos. Meu avô era uma pessoa divertidíssima, alegre. Faz muita falta”, concluiu.

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Domingos Ketelbey

É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística

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