
Em entrevista ao Domingos Conversa, secretário diz que pasta criada na pandemia ampliou atuação
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O secretário estadual da Retomada, César Moura, admitiu que a pasta pode passar por uma atualização de nome e missão no Governo de Goiás. Em entrevista ao Domingos Conversa, ele afirmou que a secretaria, criada em 2020 para responder aos efeitos econômicos da pandemia, hoje atua em uma agenda mais ampla, que inclui emprego, renda, crédito, qualificação profissional, economia criativa, artesanato, apoio a pequenos negócios e grandes eventos organizados pelo Estado.
“Tem essa discussão, essa questão do nome”, afirmou. Segundo César, a Retomada carrega um peso simbólico por ter sido criada em meio à crise sanitária, mas já opera com outro perfil dentro da estrutura estadual. “O nome é bom para lembrar que o estado de Goiás foi o único que criou uma secretaria focada. Por isso que nós saímos na frente de todos no resultado, pela coragem do doutor Ronaldo de montar essa pasta”, disse.
O secretário afirmou que uma eventual mudança dependeria do governador Daniel Vilela (MDB), mas indicou que a pasta já se aproxima de uma secretaria de desenvolvimento regional. “Se mudar de nome, a gente poderia falar de desenvolvimento regional”, afirmou. “Hoje a gente é uma secretaria de desenvolvimento, emprego e renda, se a gente fosse explicar tudo que nós temos lá dentro.”
Na entrevista, César citou áreas hoje vinculadas à Retomada, como qualificação profissional, crédito, emprego, economia criativa, artesanato e eventos. “Uma secretaria tradicional de trabalho está na secretaria da Retomada. Economia criativa, o artesanato está conosco lá também. Eventos até meio que se confunde de vez em quando com a Cultura”, disse.
Pandemia ainda deixou passivos
Ao relembrar a criação da pasta, César disse que a pandemia provocou efeitos econômicos e sociais que ainda não foram completamente superados. Segundo ele, o Estado conseguiu recuperar indicadores de faturamento, emprego e renda, mas os prejuízos acumulados no período ainda pesam sobre trabalhadores e empreendedores.
“O pessoal sempre fala: ‘Ah, já voltamos, voltamos depois da pandemia’. Não. Nós voltamos a faturar, voltamos a gerar emprego, gerar renda, mas o prejuízo gerado no período pandêmico a gente não pagou”, afirmou. “Se o mundo fosse uma empresa, essa conta estava bem negativa ainda.”
O secretário disse que a pandemia deixou dívidas, empresas fechadas, carreiras interrompidas e mudanças profissionais forçadas. Ele citou, como exemplo, profissionais da cultura e da produção de eventos que deixaram o setor e não retornaram.
“Tem carreiras que foram encerradas, tem profissões que foram mudadas. O mundo mudou muito rápido. Tem estabelecimentos que até hoje não voltaram a existir”, afirmou. “Tem profissionais que trabalharam a vida inteira com eles que eu perdi. A pessoa saiu, virou Uber, virou outra coisa, largou, não quis voltar.”
César avaliou que os impactos podem durar mais do que cinco anos. “Tem pessoas que ficou na cabeça o trauma ainda, do que passou. Às vezes ele não quer correr esse risco de novo”, disse. Apesar disso, afirmou que Goiás avançou em áreas como qualificação profissional e emprego.
Crédito poderia ter avançado mais, diz secretário
Ao fazer um balanço da atuação da Retomada, César apontou o crédito como uma das áreas em que o Estado poderia ter evoluído mais. Ele lembrou que, durante a pandemia, o governo lançou linhas de crédito sem juros e sem aval e foi o primeiro a não aceitar negativações geradas no período pandêmico como impedimento para acesso aos recursos.
“A gente lançou uns R$ 50 milhões sem juros, sem aval. O governo do Estado foi o primeiro a não aceitar as pendências durante a pandemia”, afirmou. Segundo ele, a medida buscava evitar que trabalhadores e empreendedores ficassem presos a um ciclo de falta de crédito e endividamento.
Mesmo assim, César disse que a política de crédito ainda é limitada por regras nacionais e pela relação com o sistema financeiro. “No crédito, eu acho que nós perdemos muitas oportunidades. Poderíamos ter evoluído igual evoluímos na qualificação, no emprego”, disse. “O Estado é limitado a essa política pública do crédito. Nós dependemos do Banco Central.”
Presidente do Conselho do FCO desde 2019, César afirmou que o acesso ao crédito ainda é difícil para o empresário. “A gente não evoluiu. A gente poderia destravar muita coisa. O empresário, é muito difícil para ele pegar um crédito na praça, é muito complicado”, afirmou.
Governo Daniel mantém cobrança por entregas
Questionado sobre a transição entre Ronaldo Caiado (União Brasil) e Daniel Vilela, César disse que os dois têm perfis diferentes, mas afirmou que a cobrança interna por entregas continua a mesma.
“É difícil falar, são dois perfis diferentes. O perfil pessoal de cada um, cada um tem um jeito de agir. Mas o principal é a preocupação com as entregas: a cobrança é a mesma”, afirmou.
Segundo o secretário, a mudança no comando do Palácio das Esmeraldas não alterou a orientação principal da pasta. “A gente tem diferença de pessoas, de perfil, de temperamento, mas o olhar e o compromisso com segurança, com educação, com recurso público, é o mesmo”, disse. “Por isso que é um discurso de continuidade: os projetos estão contínuos, os projetos sociais.”
César também fez uma defesa política do modelo social implantado em Goiás. “Se eu olhar o que o social de Goiás fez, tem muito governo de esquerda aí que promete e fala bonito desses temas, mas não entrega nada. Aqui tem entrega”, afirmou.
Crédito Social fortalece comércio local, afirma César
Um dos exemplos citados pelo secretário foi o Crédito Social. Segundo César, o programa permite que pessoas em extrema vulnerabilidade façam curso de capacitação profissional e recebam até R$ 5 mil para montar um pequeno negócio.
“É só Goiás que tem crédito social. A pessoa que está em extrema vulnerabilidade faz um curso de capacitação profissional e ganha até R$ 5 mil pra montar o seu pequeno negócio”, afirmou.
O secretário destacou que o recurso só pode ser utilizado no bairro ou na cidade onde o beneficiário mora. Para ele, esse desenho permite que o mesmo dinheiro atenda duas finalidades: apoiar a pessoa em vulnerabilidade e fortalecer o comércio local.
“Esse recurso só pode ser gasto no bairro ou na cidade onde ela mora. Ela recebe um cartãozinho. Fiz um curso de corte e costura, vou comprar uma máquina de costura: tem que comprar na cidade”, disse. “É um benefício para quem está em vulnerabilidade e um benefício pra quem está no comércio local.”
César comparou o modelo goiano com programas federais de transferência de renda. “Se o Bolsa Família fosse um cartãozinho que só funcionasse no comércio local, o tanto que o comércio local estaria mais forte do Brasil”, afirmou. Segundo ele, Goiás conseguiu fazer a operacionalização mesmo sem ter banco público estadual. “Goiás não tem nem banco, nós temos uma agência de fomento e conseguiu”, disse.
Grandes eventos como política pública
A participação da Retomada em grandes eventos foi um dos principais temas da entrevista. César defendeu que agendas como Arraiá do Bem, Natal do Bem, Pré-Carnaval e MotoGP não devem ser vistas apenas como entretenimento, mas como instrumentos de desenvolvimento econômico, inclusão produtiva e acesso gratuito da população a eventos de grande porte.
Ao citar o Arraiá do Bem, o secretário disse que o objetivo do governo era entregar ao público um evento gratuito com a mesma qualidade de grandes shows privados realizados no Serra Dourada. “O governador queria que a pessoa que não tem R$ 200, R$ 300 pra ir num show naquele ambiente, que é um espaço público, pudesse ter”, afirmou.
César afirmou que a pasta enfrenta questionamentos de órgãos de controle sobre os custos das estruturas, mas defendeu que eventos públicos também precisam ter qualidade. “Não é porque é de graça que não é de qualidade”, disse. “O palco dos grandes eventos aqui não custa assim. Então você tem que olhar isso.”
Segundo o secretário, o Arraiá do Bem deste ano será novamente realizado no Serra Dourada, com estrutura maior que a do ano passado. “Quem achou bonito o palco ano passado, esse ano o palco está maior ainda, com a mesma qualidade, com a mesma estrutura, uma cenografia fantástica”, afirmou.
Barracas, reciclagem e renda
César disse que os grandes eventos também servem como vitrine para beneficiários do Crédito Social. Segundo ele, metade das barracas do Arraiá do Bem é destinada a pessoas atendidas pelo programa.
“Metade das barraquinhas é o pessoal do crédito social. É aquela senhora que às vezes estava em casa”, afirmou. O secretário disse que 70% dos beneficiários do programa são mulheres e, dessas, 40% teriam saído de situação de violência doméstica.
Para César, a presença dessas beneficiárias nos eventos representa inclusão produtiva. “Você pensar: você estava sofrendo violência no lar e, um ano depois, você está no Serra Dourada, num grande evento, vendendo o seu produto. Então é uma realidade”, afirmou.
O secretário também citou o Recicla Goiás, programa que atua na formação de cooperativas a partir de famílias que viviam em lixões. Segundo ele, cooperativas de reciclagem da Grande Goiânia participarão da coleta de resíduos nos eventos. “São vários recados dentro do mesmo evento”, disse.
“É um recurso de entretenimento, de fortalecimento da economia local”, afirmou César. Ele disse ainda que hotéis próximos ao Flamboyant já registram ocupação elevada em função da programação.
Pré-Carnaval e turismo interno
César também citou o Pré-Carnaval em Goiânia como exemplo de evento com impacto econômico e turístico. Segundo ele, a edição levou público de outras cidades e teve 50 ônibus vindos do Entorno do Distrito Federal.
“No Pré-Carnaval, no Entorno, vieram 50 ônibus. Os prefeitos me ligavam: ‘O pessoal tá indo pra ver o Léo Santana aí’”, afirmou. O secretário disse que a Polícia Militar estimou público de 220 mil pessoas na Praça Cívica.
Ele também usou o evento para defender a segurança pública em Goiás. “Falando de um Pré-Carnaval com 220 mil pessoas na rua, os celulares que foram furtados ou perdidos foram todos achados no mesmo dia. Teve dois registros de furto, dois, perto de um evento de 200 mil”, afirmou.
Para César, o movimento mostra que a população ocupa a rua quando há segurança e estrutura. “A população vai. Se a população tem segurança, a população vai pra rua e eu movimento o comércio local, movimento aquela pessoa que quer vender uma cervejinha, uma água”, disse.
MotoGP abriu caminho para novos eventos
No fim da entrevista, César afirmou que o MotoGP ajudou Goiás a compreender a força econômica dos grandes eventos e reduziu resistências internas a agendas como Pré-Carnaval e Natal do Bem.
“Só o MotoGP ajudou Goiás a enxergar o que é o poder de um evento e parou várias críticas que a gente recebia quando a gente mexia com o Pré-Carnaval, com o Natal do Bem, com essas outras modalidades”, afirmou.
O secretário disse ainda que Goiás poderá receber novos eventos internacionais, mas não detalhou quais. “A projeção até de receber outros eventos internacionais tem novidades. Eu chamo o governador para ele contar as novidades para você”, disse.
O episódio completo do Domingos Conversa com César Moura já está disponível no YouTube, nos tocadores de podcast e também foi exibido pela TV Capital.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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