Esquerda vê em lideranças femininas o caminho para superar a votação de piso e disputar mais cadeiras na Câmara
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Política
O campo progressista em Goiás, formado pelas federações PSOL/Rede e Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e também pelo PSB, chega à eleição deste ano com uma aposta que mistura matemática eleitoral e reposicionamento político: transformar a força de lideranças femininas em bancada federal.
A conta passa, sobretudo, pela deputada federal Adriana Accorsi, presidente estadual do PT, e Aava Santiago, presidente estadual do PSB. As duas são vistas por aliados como puxadoras de voto e peças centrais para que a esquerda tente eleger até três deputados federais por Goiás.
No desenho mais otimista, há quem fale em quatro cadeiras. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, poderia eleger Adriana, Delúbio Soares e Rubens Otoni. O PSB tentaria voltar à Câmara dos Deputados com Aava Santiago. A composição da federação é registrada pelo TSE.
A projeção, porém, depende menos de discurso e mais de quociente eleitoral. Sem Adriana, petistas avaliam que a federação ficaria perto do piso necessário para conquistar uma vaga. Com ela, a chapa ganharia fôlego para buscar uma segunda cadeira e, no cenário mais favorável, disputar uma terceira.
Adriana já testou sua força nas urnas. Em 2022, foi eleita deputada federal com 96.714 votos. Rubens Otoni, também do PT, obteve 83.539 votos. Os dois garantiram presença petista entre os 17 federais eleitos por Goiás.
O desafio do PT é calibrar a chapa. Além de Adriana e Rubens, o partido tem no radar o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o vereador Professor Edward. A dúvida é se a federação terá voto suficiente para acomodar todos ou se a disputa interna pode concentrar força em poucos nomes.
No PSB, a lógica é parecida. Aava Santiago assumiu a presidência estadual da sigla em Goiás após deixar o PSDB e se filiar ao partido comandado nacionalmente por João Campos. A vereadora é tratada como o principal ativo eleitoral da legenda no estado.
Aava chega à disputa com capital político acumulado em Goiânia. Em 2024, foi reeleita vereadora e passou a ser apresentada pelo PSB como a mulher mais votada da história da Câmara Municipal da capital. Ao assumir o partido, disse que a missão seria “construir uma chapa plural, forte e competitiva para 2026”.
O PSB também trabalha com nomes como a ex-vereadora Tatiana Lemos, a cientista política Ludmila Rosa e Lucilene Calunga. São quadros com trânsito em segmentos específicos, mas a leitura interna é direta: a possibilidade de vaga depende do desempenho de Aava.
O PSOL/Rede também tenta ocupar espaço próprio. O partido comandado por Cíntia Dias já aparece com nominata praticamente encaminhada e ganhou peso nas conversas de bastidor depois que a dirigente se colocou como pré-candidata ao governo de Goiás. A candidatura de Cíntia foi lançada pelo PSOL em abril, em movimento que também busca pressionar por unidade no campo de esquerda.
A presença de Cíntia não resolve a conta proporcional, mas ajuda a dar rosto e palanque ao bloco. Em uma eleição dominada pela disputa entre Daniel Vilela, Wilder Morais e Marconi Perillo, a esquerda tenta evitar o papel de figurante, mas sequer há um palanque forte ao presidente Luiz Inácio Lula Silva, haja vista que o PT, ainda não definiu um nome para a disputa.
O ponto central é que, pela primeira vez em muito tempo, a ala progressista vê na bancada feminina não apenas uma pauta identitária, mas uma estratégia eleitoral concreta. Adriana, Aava e Cíntia ocupam comandos partidários, disputam espaço majoritário ou proporcional e dão ao campo uma linha de frente com voto, presença pública e capacidade de organização.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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