Festival retorna com 102 atrações, quase 40% delas ligadas a Goiás, orçamento superior a R$ 4 milhões e um modelo diferente daquele interrompido em 2019
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Cultura
Durante seis anos, o Bananada deixou de ser um festival em atividade para virar parte da memória cultural recente de Goiânia. Nesta terça-feira (18), o evento volta aos palcos com 102 atrações, seis dias de programação e uma questão que vai além do line-up: saber se encontrou, enfim, uma fórmula capaz de sustentar o tamanho que alcançou.
A última edição presencial ocorreu em agosto de 2019. A pandemia explica o cancelamento de 2020, mas sozinha não explica um hiato que atravessou também 2022, 2023, 2024 e 2025. Quando a Covid-19 fechou casas de shows e suspendeu festivais pelo país, o Bananada já discutia havia alguns anos como pagar a própria conta.
Em 2018, Fabrício Nobre, idealizador do evento, dizia que a organização estava “brigando para chegar ao maior público possível para que o Festival seja sustentável”. Dois anos depois, durante a pandemia, foi ainda mais direto ao tratar do futuro: “Dependendo do formato e do jeito que for viável, é melhor não fazer.”
É justamente aí que a edição de 2026 ganha outra dimensão. Não se trata apenas de recolocar os amplificadores no palco depois de seis anos. O Bananada volta tentando responder a uma pergunta que já existia antes de o coronavírus aparecer: como manter de pé um festival independente que cresceu, profissionalizou a estrutura e passou a movimentar milhões de reais? A resposta, pelo menos neste retorno, passa por dinheiro incentivado e patrocínio privado.
Em entrevista recente a O Popular, Fabrício afirmou que o Bananada de 2026 custa mais de R$ 4 milhões. Segundo ele, a seleção da Petrobras financia entre 40% e 50% da edição. O festival não conta, ainda de acordo com o diretor, com incentivo estadual ou municipal. Ou seja: o festival que saiu de cena após anos discutindo sustentabilidade financeira volta com uma engenharia diferente daquela que carregava até 2019.
A cidade também mudou
Só que o Bananada não é o único que volta diferente. Goiânia também não é mais a mesma cidade cultural que o festival deixou em 2019. Bandas acabaram e outras nasceram. Casas fecharam. Novos espaços assumiram parte do circuito independente. Produtores mudaram de cidade, artistas ampliaram carreiras nacionais e uma geração inteira que tinha idade escolar na última edição agora pode entrar pela primeira vez no festival.
O próprio Bananada reconhece essa transformação ao recuperar uma de suas características históricas: ocupar a cidade antes de concentrar os grandes shows em uma arena.
De terça a quinta-feira, a programação passa pelo Centro Cultural Martim Cererê e por espaços como Shiva, Monkey Bar, Zona Pub, Zé Latinhas e Salve!. A partir de sexta-feira (21), a operação maior segue para o Centro Cultural Oscar Niemeyer. A programação oficial vai até domingo (23), com mais de 100 apresentações distribuídas por 12 espaços.
A primeira noite ajuda a lembrar de onde o festival veio. Black Drawing Chalks, Hellbenders, Camarones Orquestra Guitarrística, Deb and the Mentals, Dirty Grills e Zepelim e o Sopro do Cão colocam guitarras, garage rock, hardcore e stoner novamente no Martim Cererê.
Na quarta-feira (19), entram psicodelia, indie pop, shoegaze e experimentações. DAMAH, Banana Bipolar, Aquino, Varanda, Cool Sorcery, Yasmin Lauck e Prehistoric Music Department estão entre os nomes da programação.
Na quinta-feira (20), Felipe Cordeiro, Giovani Cidreira e o encontro entre Vitor Araújo e Kiko Dinucci ampliam o cardápio para a guitarrada, a canção brasileira e a música instrumental.
Os artistas de maior alcance nacional ficam concentrados principalmente no fim de semana. Rancore, Sophia Chablau, Boogarins, Arnaldo Antunes, Tulipa Ruiz, Gaby Amarantos, Móveis Coloniais de Acaju, Tuyo, Mateus Fazeno Rock, Don L, Tássia Reis e BaianaSystem estão entre os nomes escalados.
Quatro em cada dez atrações têm Goiás no crédito
Mas há outro número que talvez diga mais sobre o Bananada de 2026 do que os headliners.
Levantamento do Blog do DK sobre a programação oficial identificou 40 atrações com Goiás no crédito de origem, considerando projetos integralmente goianos e formações divididas com artistas de outros estados. São quase quatro em cada dez atrações do festival.
A proporção importa porque ajuda a medir que lugar o Bananada pretende ocupar nessa nova fase. Desde sua criação, o festival se vendeu menos como uma coleção de grandes shows e mais como ponto de conexão entre a produção goiana e outros circuitos independentes do país.
Depois de seis anos sem edição presencial, seria fácil construir o retorno apenas pela nostalgia, escalando bandas associadas à história do evento e grandes nomes nacionais capazes de vender ingresso.
A programação tenta fazer algo mais complicado: juntar a memória do Bananada com a cena que apareceu enquanto ele estava fora.
Fabrício também afirmou que a intenção é manter o festival por outras nove edições, completando um novo ciclo de dez anos. É uma ambição relevante para um evento que, poucos anos atrás, discutia publicamente se ainda fazia sentido existir.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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