Vereadora diz ao blog que divergências nacionais levaram à saída do partido de Marconi Perillo
5 de janeiro de 2026 às 19:45
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Política
A troca de partido anunciada nesta segunda-feira (5) pela vereadora Aava Santiago diz menos sobre um rompimento abrupto e mais sobre o acúmulo silencioso de ruídos, como a própria parlamentar reconheceu à este repórter. “Em vários momentos eu divergi do partido nacionalmente, especialmente quanto à decisão de apoiar o presidente Lula. Sempre fui muito clara e muito franca nas minhas posições”, afirmou. Ao deixar o PSDB e assumir o comando do PSB em Goiás, Aava formalizou um movimento que já vinha sendo ensaiado havia algum tempo, sobretudo no plano nacional, onde suas posições passaram a destoar da linha adotada pelo partido que ajudou a formar sua trajetória política.
De acordo com Aava, a aproximação com o governo federal e o compromisso com a reeleição de Lula passaram a gerar desgastes internos, tanto em Goiás quanto na direção nacional do PSDB. “A forma como eu me aproximei do presidente Lula, dos ministros e do governo federal acabou criando ruídos. Chegou um momento em que permanecer passou a gerar atritos que não eram produtivos”, avaliou.
A vereadora nunca escondeu seu alinhamento com o governo federal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao contrário, fez questão de torná-lo público, inclusive quando presidia o diretório estadual tucano e conduziu o PSDB goiano ao apoio a Lula nos dois turnos da eleição de 2022, numa decisão isolada dentro do partido.
O gesto, à época tratado como exceção local, tornou-se com o tempo um ponto permanente de tensão entre a militância estadual, cuja ala bolsonarista nunca deixou de expor sua voz e o discurso nacional da sigla, cada vez mais inclinado à oposição ao Planalto. Aava costuma dizer que sempre preferiu a franqueza ao conforto do silêncio. Comunicou posições, avisou movimentos, sustentou divergências. Nem sempre foi acompanhada, nem sempre foi contestada com a mesma serenidade. O problema não foi a discordância em si, mas a frequência com que ela passou a se repetir. Quando a exceção vira regra, a conta política começa a fechar mal.
A relação com o ex-governador Marconi Perillo, principal fiador de sua entrada no PSDB ainda na adolescência, permanece como um ponto fora da curva. Aava insiste que não houve ruptura, apenas a tentativa de preservar um vínculo político que sempre se sustentou no diálogo. “Nem sempre ele concordou, muitas vezes divergiu. Nós conversamos, discutimos e, quando um não convencia o outro, prevalecia a divergência com respeito”, disse. Para ela, a saída do PSDB foi também uma forma de preservar uma relação política construída ao longo de anos, evitando que diferenças no plano nacional contaminassem esse vínculo.
A escolha pelo PSB não se deu por acaso. O partido, hoje integrante da base do governo Lula, com presença até na vice-presidência da República, com o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (também ex-tucano), oferece um abrigo mais coerente para uma parlamentar que já vinha orbitando esse campo político. A filiação ocorreu a convite do presidente nacional da legenda, o prefeito do Recife João Campos, e veio acompanhada de uma missão clara: reorganizar o partido em Goiás e prepará-lo para 2026, com chapas competitivas e presença mais robusta no debate estadual.
O novo cargo vem acompanhado de um projeto político claro para 2026. Aava fala em ampliar bancadas, fortalecer chapas e recuperar espaço no Congresso. “Meu projeto é ampliar o número de cadeiras, devolver uma cadeira do partido no Congresso Nacional, garantir uma chapa forte de estadual e ampliar a presença na Assembleia Legislativa”, enumerou. Dentro desse desenho, o apoio à reeleição de Lula é tratado como consequência. “Criar um cenário fértil, propício e amplo para o apoio à reeleição do presidente Lula.”
A saída do PSDB, insiste Aava, não apaga o passado nem rompe pontes. “Sou resultado primeiro dos programas sociais criados nos governos de Marconi Perillo”, afirmou. “Não há ruptura. Há amadurecimento.” A escolha foi feita em Goiás, mas os ruídos que a provocaram seguem ecoando em Brasília. Ao assumir a presidência estadual do partido, Aava rejeita qualquer leitura de infidelidade partidária. “Não existe nenhum receio de judicialização”, afirmou. “Toda minha trajetória sempre foi marcada pela transparência e pelo diálogo. Eu jamais fiz movimentos que pegassem o partido de surpresa.” Segundo ela, nem sempre houve concordância, mas nunca houve deslealdade. “Sempre foram movimentos conversados, pensados para fortalecer coletivamente uma agenda.”
Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística
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