Prefeito detalha planos para transporte, Centro, saúde e educação, admite disputar novo mandato e expõe divergências com vereadores
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O prefeito de Goiânia, Sandro Mabel (União Brasil), apresentou os projetos que pretende executar até o fim do mandato e admitiu a possibilidade de disputar a reeleição em 2028, em entrevista ao Domingos Conversa nesta quinta-feira (8). Às vésperas dos 93 anos da capital, celebrados em 24 de outubro, ele vinculou a preparação da cidade para o centenário à expansão da metronização, à recuperação do Centro, à construção de unidades de saúde e à reorganização dos serviços municipais.
Conduzida pelos jornalistas Domingos Ketelbey e Marília Rodrigues, a conversa integra a série especial do DK Jornalismo sobre o aniversário de Goiânia. Ao longo de mais de uma hora, Mabel apresentou obras, intenções e negociações em diferentes estágios. Também discutiu a relação com a Câmara, criticou a retenção de projetos nas comissões e defendeu a venda de uma participação na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg).
A entrevista começou com uma pergunta sobre a cidade que chegará aos 100 anos, em 2033. Na resposta, o prefeito projetou uma capital com transporte mais rápido, novas moradias no Centro e serviços públicos reorganizados. Ao final, reconheceu que a execução desse planejamento pode levá-lo a buscar mais quatro anos no Paço.
Reeleição passa a entrar nos planos
Mabel afirmou que, inicialmente, pretendia exercer apenas um mandato. A possibilidade de concorrer novamente, segundo ele, passou a ser considerada diante do tempo necessário para preparar e executar projetos.
“Eu não pensava em ficar, não, para te falar a verdade. Eu queria só cumprir a missão de quatro anos”, disse. Na sequência, acrescentou: “Talvez precise de uma reeleição, se a gente estiver bem, se tiver chance de ser eleito”.
O prefeito atribuiu parte das dificuldades à ausência de projetos quando assumiu a administração, em janeiro de 2025. “Goiânia não tem projeto para nada. Eu perdi praticamente dois anos, porque, quando eu cheguei, não tinha um projeto para fazer”, afirmou.
Apesar de admitir a hipótese eleitoral, disse que trabalha com o encerramento do mandato em dezembro de 2028 e pretende deixar propostas estruturadas para o sucessor. Entre os compromissos citados estão a ampliação da pavimentação, intervenções no trânsito e novas unidades de saúde.
Questionado sobre a possibilidade de enfrentar novamente o PL, seu adversário no segundo turno de 2024, Mabel disse não temer a disputa. Argumentou que chegará a uma eventual campanha em condição diferente daquela em que concorreu pela primeira vez à Prefeitura, quando precisou recuperar o reconhecimento do eleitor depois de anos afastado das campanhas.
Centro com moradores, serviços e vida noturna
A recuperação do Centro ocupou parte importante da entrevista. Mabel defendeu que a região seja tratada como um bairro com moradores e atividades próprias, diante da consolidação de áreas comerciais em outras partes da cidade.
“O Centro tem que ser tratado como um bairro, mas vai ser um bairro exatamente esse: um bairro boêmio, um bairro alegre, um bairro bem iluminado, com muita segurança”, afirmou.
O prefeito citou o projeto Morar no Centro e estabeleceu como objetivo atrair três mil famílias, aproximadamente dez mil pessoas, para a região. Na avaliação dele, a recuperação depende de ocupação permanente, além de obras em ruas e praças.
Entre as intervenções mencionadas estão a valorização das fachadas art déco, a renovação das avenidas Goiás e Anhanguera e mudanças nos elementos que separam o corredor do transporte coletivo. A Rua 3 foi apresentada como uma amostra do tratamento pretendido para outras vias.
Questionado sobre o custo da adequação das fachadas para os comerciantes, Mabel afirmou que a Prefeitura pretende executar parte dos serviços, especialmente nos imóveis com características art déco. Citou pintura especializada, retirada de painéis e adoção de identificação comercial mais simples.
O plano inclui levar a nova sede do Instituto Municipal de Assistência à Saúde dos Servidores de Goiânia (Imas) para a Avenida Goiás e estimular restaurantes, bares e serviços. Também foram mencionadas a requalificação da Região da 44 e a intenção de instalar um Museu da Música Sertaneja no Parque de Exposições Agropecuárias.
Aniversário com programação nos bairros e 24 horas na Avenida Goiás
Para os 93 anos da capital, Mabel anunciou atividades distribuídas ao longo do mês, com shows e oficinas nos bairros. A programação apresentada na entrevista prevê 24 horas de movimento na Avenida Goiás, entre os dias 23 e 24 de outubro.
Segundo ele, serão três palcos, com uma apresentação de maior porte na Praça do Trabalhador e atividades intermediárias de cultura, arte e educação. A proposta é ampliar a comemoração para além de um único show na data do aniversário.
O prefeito também relacionou a programação à tentativa de aumentar a circulação de pessoas pelo Centro e de consolidar espaços de convivência. Citou a experiência da Rua do Lazer como referência para estimular atividades que continuem depois das celebrações.
Mutirama pode receber atrações exploradas por particulares
Ao tratar do Mutirama, Mabel afirmou que a retomada das atividades ainda não representa o modelo de parque que deseja entregar. Disse que os equipamentos passaram por reforma, mas defendeu a incorporação de novas atrações.
Uma das possibilidades mencionadas foi a instalação de uma roda-gigante por um operador privado, responsável por explorar o brinquedo. Ao desenvolver a proposta, o prefeito também admitiu cobrança aos fins de semana e atendimento gratuito a escolas durante a semana.
A entrevista não detalhou valores, formato de contratação ou quais atrações estariam sujeitas à cobrança. A fala apresentou uma alternativa para a expansão do parque, sem anunciar um modelo definitivo.
Mabel quer ainda utilizar o Mutirama como espaço recorrente de eventos, incluindo Natal, festas juninas, atividades do Dia das Crianças e festivais gastronômicos.
Para descentralizar as opções de lazer, apresentou o projeto Cidade da Criança, com parques de diversões menores nos bairros. A intenção declarada é chegar a dez unidades, mas ele reconheceu que pode não executar todas e mencionou quatro ou cinco como uma possibilidade dentro de sua capacidade de entrega.
Metronização, semáforos e a primeira “esquerda livre”
Na mobilidade, Mabel estabeleceu como objetivo alcançar 300 quilômetros de corredores metronizados. O sistema utiliza prioridade semafórica para reduzir as interrupções nas viagens dos ônibus. Embora tenha empregado a expressão “quilômetros de metrô”, o prefeito se referia ao transporte por ônibus com esse tratamento operacional.
Segundo ele, as intervenções nos corredores Leste-Oeste e Norte-Sul elevaram a velocidade dos coletivos nos horários de maior movimento. Na entrevista, apresentou um ganho de 40%, sem detalhar o período e a metodologia dessa comparação.
O prefeito prometeu sincronizar todos os semáforos da capital até julho de 2028 e anunciou uma intervenção que chamou de primeira “esquerda livre” da cidade, na região da T-3 com a T-10, no Setor Bueno.
Ao explicar a proposta, disse que o semáforo passaria a reter apenas parte dos movimentos, enquanto as conversões teriam circulação liberada conforme a nova organização do cruzamento. A previsão apresentada era de implantação na semana seguinte à entrevista.
Mabel também citou novas intervenções na Mangalô, viadutos e mudanças em cruzamentos. Ao falar sobre como gostaria de ser lembrado, colocou a reorganização do trânsito entre as principais marcas que pretende deixar.
Drenagem exige dinheiro e obras que ficam escondidas
O prefeito reconheceu que não conseguirá resolver todos os pontos de alagamento durante o mandato. Segundo ele, a cidade tem 119 locais que demandam intervenções, e o objetivo é executar parte das obras e deixar projetos para os demais.
Para o Córrego Botafogo, estimou em R$ 400 milhões o custo de um conjunto de intervenções de drenagem. Também mencionou problemas na Vila Canaã, no Vera Cruz e no entorno da Assembleia Legislativa.
Mabel disse buscar financiamentos para enfrentar a questão e observou que esse tipo de obra costuma receber menos atenção política por ficar, em grande parte, fora da vista da população.
“Você faz e ninguém vê o que você fez. Parou de inundar, a pessoa nem percebe que parou de inundar. Mas tem que fazer”, afirmou.
Saúde terá novas unidades, promete prefeito
Na saúde, Mabel anunciou a intenção de construir 32 Unidades Básicas de Saúde e dez Unidades de Pronto Atendimento. Disse que as UBSs serão dimensionadas para cinco equipes de Saúde da Família e que as UPAs terão estrutura de maior porte.
A estratégia apresentada combina novas construções e reorganização da rede existente. O prefeito afirmou que pretende colocar unidades novas em funcionamento antes de desativar ou dar outra destinação às estruturas antigas.
Também defendeu transferências diretas de recursos para que os conselhos das unidades resolvam necessidades de manutenção, em modelo semelhante ao utilizado na educação. Citou problemas cotidianos, como torneiras, banheiros, portas e bebedouros, que, na avaliação dele, precisam ser solucionados sem depender de procedimentos centralizados para cada reparo.
Mabel apontou ainda falhas na distribuição de profissionais e na organização de férias e plantões. As situações foram relatadas como diagnóstico da gestão, sem apresentação, durante a entrevista, de documentos que permitissem dimensioná-las.
Vagas em Cmeis, ampliação de salas e cobrança por presença
Na educação infantil, Mabel afirmou que há vagas na rede, embora nem sempre estejam disponíveis perto da residência das famílias. Disse que a Prefeitura procura alternativas ao longo do trajeto dos responsáveis para o trabalho e quer ampliar a oferta nos locais de maior demanda.
O prefeito mencionou a construção de 12 a 15 Cmeis e defendeu a ampliação de unidades existentes como forma de abrir vagas com menor custo administrativo. Como exemplo, citou uma unidade no João Braz cuja capacidade, segundo ele, passou de 97 para 213 vagas.
Também destacou o uso de recursos do Programa de Autonomia Financeira da Instituição Educacional (Pafie) em reformas e ampliações, além da instalação de lousas eletrônicas.
Ao responder sobre falta de servidores, atribuiu parte do problema aos afastamentos e à distribuição inadequada dos profissionais. Estimou que as licenças por saúde, que seriam dez mil no início da gestão, teriam caído para algo entre 3,5 mil e quatro mil. Não delimitou, na resposta, a base de cálculo desses números.
Mabel também mencionou bonificações na educação de R$ 8 mil a R$ 12 mil, vinculadas a critérios que incluem presença. A entrevista não detalhou o regulamento, a abrangência ou o calendário de pagamento.
No atendimento a estudantes com deficiência, afirmou que a rede dispõe de 80 salas especializadas e defendeu que parte das atividades seja realizada durante o próprio turno escolar. O funcionamento pedagógico desse modelo não foi aprofundado na conversa.
Comurg, coleta de lixo e recompensa por denúncias
Mabel defendeu vender uma participação na Comurg para manter o vínculo municipal e incorporar práticas de gestão de empresa privada. Não informou o percentual pretendido, o cronograma ou a modelagem da operação.
O prefeito também apresentou uma proposta para recompensar quem registrar o descarte irregular de resíduos. Pela ideia exposta, o cidadão encaminharia uma fotografia por aplicativo e receberia 20% do valor da multa depois do efetivo pagamento.
Segundo Mabel, a Prefeitura recolhe diariamente cerca de 1,2 mil toneladas de resíduos urbanos e 2,4 mil toneladas de entulho. Ele utilizou os números para defender fiscalização e mudanças na forma de acondicionamento do lixo.
Outra intenção anunciada foi a adoção de contêineres, inspirada em um modelo que conheceu na Argentina. O sistema permitiria o descarte em estruturas fechadas e a coleta mecanizada. O prefeito disse querer alcançar também os bairros periféricos, mas não apresentou orçamento nem cronograma de implantação.
Câmara: participação dos partidos e críticas à retenção de projetos
Na parte política, Mabel falou sobre a composição da Câmara para o segundo biênio e defendeu a participação de diferentes partidos na Mesa Diretora e nas comissões. A entrevista foi realizada antes da eleição interna marcada para sábado (10).
Ao ser questionado sobre uma aproximação com o PL para 2028, respondeu que a legenda ocuparia postos importantes no Legislativo. A fala, porém, não confirmou um acordo eleitoral para a próxima disputa municipal.
Mabel também rejeitou a interpretação de que a composição com partidos da oposição significaria adesão automática à Prefeitura. “Não é porque eles apoiem a Prefeitura, não. É porque todos tenham assento e participem das decisões da Câmara”, afirmou.
O tom mudou ao tratar da Comissão de Constituição e Justiça. O prefeito cobrou a retirada de “extremistas” de posições que, segundo sua avaliação, têm sido utilizadas para impedir o andamento de propostas.
Afirmou que cerca de 20 projetos estavam parados na CCJ e criticou o vereador Luan Alves. Relatou ter telefonado ao presidente do Tribunal de Justiça para pedir que cobrasse o andamento de uma proposta de Refis associada à conciliação.
A alegação de retenção por motivação política foi apresentada pelo prefeito. O vereador não participou da entrevista para responder às críticas.
Entre as propostas que Mabel quer fazer avançar, citou um fundo imobiliário relacionado à previdência municipal. Defendeu o aproveitamento de terrenos do município para ajudar a enfrentar as despesas e o desequilíbrio previdenciário.
Habitação precisa vir acompanhada de escolas e saúde
Ao discutir a expansão imobiliária, Mabel criticou a implantação de grandes conjuntos habitacionais sem estrutura suficiente de serviços públicos no entorno.
“Eu não posso simplesmente fazer um depósito de gente lá no meio do mato”, afirmou.
O prefeito disse negociar com empreendedores a construção ou ampliação de unidades de educação e saúde para atender aos novos moradores. Argumentou que a disponibilidade de terrenos ou apartamentos não resolve, isoladamente, as necessidades de uma região.
Segundo ele, o custo de funcionamento de um Cmei é tão relevante quanto o investimento inicial na construção. A avaliação foi utilizada para defender que os impactos dos empreendimentos sejam considerados antes da ocupação.
Indústrias nos bairros e negociação para a Fórmula Indy
Mabel quer estimular pequenos polos industriais e comerciais em diferentes regiões, aproximando os empregos das moradias. Citou o setor de confecção, a produção de móveis no Guanabara e a intenção de reservar áreas para empreendimentos ao longo de novas ligações viárias no norte da cidade.
Também anunciou planos para um contorno entre as BRs 153 e 060 e para a extensão da Avenida Goiás Norte até o Triunfo. Segundo ele, o projeto desta última intervenção está pronto, com expectativa de início no próximo ano.
Na atração de grandes data centers, reconheceu limitações na oferta de energia elétrica. Disse enxergar possibilidades para instalações menores, mas apontou a demanda energética como obstáculo aos empreendimentos de maior porte.
Já na agenda de eventos, afirmou que as negociações para trazer uma etapa da Fórmula Indy a Goiânia avançaram. Apontou outubro de 2027 como previsão e disse que a viabilização depende de patrocínios e de outros ajustes.
“Avançou bastante. Estamos aí nos pontos finais desse assunto, porque logicamente é uma coisa complexa e tem custo”, declarou. A entrevista não apresentou confirmação contratual ou inclusão da cidade no calendário da categoria.
Entre Iris e Nion, Mabel evita escolher
No encerramento, o prefeito participou de um duelo entre ex-prefeitos de Goiânia. Escolheu Nion Albernaz nos confrontos com Pedro Wilson, Darci Accorsi, Paulo Garcia e Rogério Cruz, mas evitou apontar um vencedor quando a comparação chegou a Iris Rezende.
Mabel atribuiu a Nion uma atuação mais ligada ao planejamento e à concepção da cidade. Em Iris, destacou a execução de obras, a infraestrutura e a preocupação social.
Quando a pergunta passou a ser entre Iris e o próprio Mabel, respondeu sem insistir no empate: “Iris, rapaz. Mabel é aprendiz”.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística.
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