Dona da PBKids enfrenta dificuldades financeiras provocadas por juros elevados, queda nas vendas e concorrência de plataformas internacionais
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Economia
Uma das maiores redes de brinquedos do Brasil, a Ri Happy entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas. A solicitação foi apresentada à Justiça de São Paulo no domingo (18) e envolve outras cinco empresas do grupo, que também controla a PBKids. Apesar das dificuldades financeiras, a companhia afirma que suas lojas físicas e plataformas digitais continuam funcionando normalmente.
O pedido acontece em um momento estratégico para o varejo, às vésperas da Black Friday e do Natal, períodos importantes para as vendas de brinquedos. Segundo a Ri Happy, as equipes seguem trabalhando nos preparativos para as duas datas, enquanto a nova administração conduz um processo de reestruturação financeira e operacional.
No documento apresentado à Justiça, o grupo aponta uma combinação de fatores para explicar a crise: os efeitos da pandemia, os juros elevados, a redução do poder de compra dos consumidores e a concorrência de plataformas internacionais de comércio eletrônico, como Shopee e AliExpress.
A companhia informou que credores responsáveis por R$ 308,8 milhões das dívidas já aderiram à proposta de renegociação.
O que acontece com as lojas da Ri Happy e da PBKids?
A recuperação extrajudicial não significa que a empresa vai fechar as portas ou interromper suas atividades. Trata-se de um mecanismo que permite negociar diretamente com os credores novas condições para o pagamento das dívidas.
Na prática, a companhia pode buscar prazos maiores e alterações nas condições de pagamento para aliviar a pressão sobre o caixa. O plano negociado pode ser submetido à Justiça para homologação.
A Ri Happy afirma que pretende manter o funcionamento das lojas e dos canais digitais durante o processo.
Atualmente, segundo informações apresentadas pelo grupo à Justiça, a operação reúne aproximadamente 292 lojas no Brasil, entre unidades próprias e franquias das marcas Ri Happy e PBKids, além de mais de 2.600 funcionários.
A empresa também informou que está adotando medidas de controle de custos, reorganização financeira e melhoria do desempenho comercial.
Juros altos e concorrência internacional pressionaram o negócio
A crise financeira não começou agora. Segundo o pedido apresentado à Justiça, a pandemia de Covid-19 prejudicou o faturamento da rede devido ao fechamento temporário de lojas e shopping centers. Nos anos seguintes, a recuperação esperada não ocorreu na intensidade necessária para equilibrar as contas.
Em 2023, a Ri Happy renegociou aproximadamente R$ 292 milhões em dívidas bancárias. Entretanto, conforme a companhia, as condições econômicas continuaram desfavoráveis, dificultando a recuperação financeira. O grupo também aponta os juros elevados como um dos principais obstáculos, já que o custo dos empréstimos aumentou e passou a comprometer uma parcela maior dos recursos disponíveis.
Outro problema mencionado é a concorrência das plataformas estrangeiras de comércio eletrônico, que oferecem produtos importados a preços considerados mais competitivos.
No pedido, a Ri Happy argumenta que, mesmo após a criação da chamada “taxa das blusinhas”, mercadorias importadas ainda teriam vantagens tributárias em comparação com determinados produtos comercializados no Brasil.
Para ilustrar o peso dos impostos, o grupo cita dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), segundo os quais a tributação corresponde a uma parcela expressiva do preço final de produtos como bicicletas, bolas de futebol e patins. “A crise do Grupo Ri Happy se insere em um movimento mais amplo de deterioração das condições do varejo, que vem atingindo diversos participantes do setor”, afirma o documento.
Grupo mudou de dono recentemente
O pedido de recuperação extrajudicial ocorre pouco mais de um mês depois de a Ri Happy passar por uma mudança de controle.
Em agosto de 2026, a BluSun Capital anunciou a aquisição do grupo, que passou a ser liderado por Héctor Nuñez, fundador da gestora.
Anteriormente, a companhia era controlada pelo fundo de investimentos Carlyle Group, que havia adquirido a Ri Happy em 2012 e também incorporado a PBKids ao negócio.
Com a nova gestão, a empresa iniciou uma reorganização que inclui ajustes nas equipes corporativas, planejamento de mudança de sede e medidas para melhorar a liquidez.
Em comunicado, a Ri Happy afirmou que o objetivo é adequar os compromissos financeiros à capacidade de pagamento da operação, preservando o relacionamento com funcionários, clientes, fornecedores, franqueados e instituições financeiras.
Estrela também recorreu à Justiça em 2026
A situação da Ri Happy não é um caso isolado no setor brasileiro de brinquedos. Em maio deste ano, a fabricante Estrela, conhecida por produtos como Banco Imobiliário, Autorama, Genius e Susi, também informou ter apresentado um pedido de recuperação judicial.
Entre as dificuldades apontadas pela fabricante estavam os juros elevados, o acesso mais restrito ao crédito e as mudanças nos hábitos de consumo.
A empresa também destacou a concorrência de outras formas de entretenimento, como jogos e produtos digitais, que passaram a disputar uma parcela maior dos gastos das famílias.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística.
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