Documentos internos obtidos pela Folha mostram dificuldades da campanha petista para impulsionar publicações e recomendação de perfis do adversário
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Mensagens internas de funcionários da Meta, empresa responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, revelam que contas ligadas à campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofreram restrições durante a disputa presidencial de 2026. Os registros também apontam que o perfil do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno, foi recomendado por sistemas das plataformas, apesar das restrições estabelecidas pela Justiça Eleitoral para contas de candidatos.
As informações foram reveladas nesta sexta-feira (16) pela Folha de S.Paulo, que teve acesso a conversas internas de funcionários da companhia.
Em uma das mensagens, um funcionário reconheceu que a conta de Lula estava limitada em comparação à de Flávio Bolsonaro e manifestou preocupação com as possíveis consequências jurídicas da situação.
A Meta atribui os episódios a problemas técnicos, afirma que as falhas não atingiram exclusivamente a campanha petista e nega qualquer favorecimento político.
Campanha de Lula ficou quase 24 horas com restrições
Um dos episódios identificados ocorreu em 9 de outubro, quando a conta oficial de Lula no Instagram ficou impossibilitada de impulsionar publicações já disponíveis em seu perfil por quase 24 horas.
O impulsionamento é uma ferramenta de publicidade paga que permite ampliar a distribuição de conteúdos para usuários que não necessariamente acompanham determinada conta.
Durante o período de restrição, a campanha ainda conseguia manter anúncios anteriores e promover conteúdos criados especificamente para publicidade, conhecidos como dark posts. Entretanto, não conseguia pagar para ampliar o alcance de publicações feitas diretamente no perfil.
Segundo estimativa apresentada pela campanha de Lula e divulgada pela Folha, aproximadamente 1,3 milhão de pessoas deixaram de visualizar anúncios em razão do problema.
Esse número corresponde a uma estimativa da campanha, não a uma medição independente do alcance perdido.
As mensagens obtidas pelo jornal mostram que funcionários da Meta discutiram a gravidade do episódio e a demora para solucionar a falha.
Engenheiros da empresa nos Estados Unidos foram acionados, enquanto integrantes da equipe brasileira demonstraram preocupação com a repercussão do problema durante o período eleitoral.
Perfis de Flávio Bolsonaro foram recomendados pelas plataformas
A reportagem também identificou mensagens sobre a recomendação algorítmica do perfil de Flávio Bolsonaro no Instagram e de seu canal no WhatsApp.
Esse tipo de recomendação ocorre quando a própria plataforma sugere determinado perfil ou canal aos usuários, ampliando sua visibilidade sem que eles tenham procurado diretamente aquele conteúdo.
A situação chamou atenção porque as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) restringem a recomendação algorítmica de contas de candidatos.
A existência desses registros, porém, não comprova, por si só, que a Meta tenha agido deliberadamente para beneficiar Flávio Bolsonaro ou prejudicar Lula.
A empresa sustenta que os episódios decorreram de falhas técnicas e da aplicação de suas regras, sem direcionamento político.
Meta nega interferência na eleição
Em posicionamento público, a Meta afirmou que não interfere nas eleições brasileiras e que seus sistemas não distribuem conteúdos com base na orientação ideológica dos candidatos.
A companhia reconheceu a ocorrência de incidentes técnicos, mas declarou que eles afetaram contas e anunciantes de diferentes posições políticas.
Segundo a empresa, uma conta de anúncios da campanha de Lula também chegou a ser desativada por engano em 23 de setembro, durante pouco mais de uma hora, após um conteúdo ser identificado como possível tentativa de imitação de programa social em um procedimento de combate a fraudes.
A Meta afirma que o bloqueio foi resultado de erro técnico, e não de uma decisão motivada por preferência eleitoral.
A companhia também relatou problemas envolvendo anúncios da campanha de Flávio Bolsonaro, incluindo restrições relacionadas ao uso de inteligência artificial.
Já a campanha do candidato do PL informou à Folha que não registrou interrupções em suas operações nas plataformas.
Justiça Eleitoral acompanha denúncias
As denúncias sobre possíveis diferenças de tratamento entre as campanhas chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral.
Em 10 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Meta prestasse esclarecimentos sobre as restrições relatadas pela campanha de Lula.
A Justiça Eleitoral solicitou informações sobre a distribuição de publicações, possíveis limitações de alcance e critérios utilizados pelas plataformas para recomendar ou restringir conteúdos.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística.
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