Ex-deputado analisa renovação política, futuro do centro, governabilidade e disputas que começam a se desenhar em Goiás
·
O ex-deputado federal e professor de Direito Constitucional Vilmar Rocha avalia que as eleições de 2026 expuseram uma mudança de geração e de comunicação na política brasileira, mas ainda não permitem concluir se a renovação produzirá melhores representantes. Em sua segunda participação no Domingos Conversa, nesta terça-feira (13), ele discutiu o resultado do primeiro turno, projetou dificuldades para um eventual novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e defendeu uma revisão dos partidos de centro, incluindo o PSD, ao qual é filiado.
Na conversa com o jornalista Domingos Ketelbey, Vilmar também distinguiu a força eleitoral do presidente da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto, de sua capacidade de agregar grupos políticos, levantou a hipótese de uma chapa entre Adriana Accorsi e Aava Santiago em Goiânia e admitiu avaliar um convite para integrar o governo de Daniel Vilela.
O ponto de partida da entrevista foi o significado da renovação nas urnas. Para Vilmar, políticos tradicionais perderam espaço diante de candidatos que compreenderam melhor a comunicação pelas redes sociais. A capacidade de conquistar votos, porém, terá de ser confrontada com o exercício dos mandatos.
“Esses dois fatos, a mudança geracional e a mudança na comunicação, eu não sei se produziram políticos de qualidade”, afirmou. O critério, segundo ele, será a existência de propostas efetivas e de compromissos com mudanças no país.
Renovação nas urnas, superficialidade no debate
Vilmar considera que as redes ampliaram o acesso à informação, mas também favoreceram abordagens superficiais de assuntos complexos. A dificuldade dos políticos tradicionais, em sua avaliação, passa pela adaptação a um eleitor que decide mais por emoção, sentimento e percepção do que pela análise de programas.
“A comunicação pelas redes sociais é uma faca de dois gumes”, disse. De um lado, oferece canais diretos a uma parcela maior da população. De outro, reduz o espaço para explicações que exigem tempo e atenção.
Para ilustrar essa leitura, relatou uma conversa com a irmã, professora pós-graduada, que manifestou intenção de votar em Zacharias Calil por sua atuação como médico, sem conhecer detalhes do mandato parlamentar. O exemplo, afirmou, mostra que escolaridade e acesso à informação não eliminam o componente emocional do voto.
Vilmar também atribuiu à polarização uma redução das alternativas disponíveis. Na sua avaliação, parte dos eleitores de Flávio Bolsonaro não se identifica necessariamente com o bolsonarismo, mas encontra nele a opção mais próxima de suas convicções ou um instrumento de oposição ao PT.
Antipetismo, segundo turno e governabilidade
O ex-deputado sustentou que o movimento de rejeição ao lulopetismo é mais amplo que a direita ideológica. Fez questão de separar essa crítica de uma rejeição à esquerda como um todo e afirmou que setores da esquerda democrática ficaram dependentes da liderança do presidente Lula.
“O movimento mais consistente, ao meu juízo, que nós temos na sociedade brasileira é o antilulopetismo”, declarou.
Vilmar reconheceu a legitimidade da chegada do PT à Presidência em 2002, quando era deputado de oposição, mas afirmou que o projeto se deteriorou ao longo dos anos. Para ele, mesmo uma vitória no segundo turno não resolveria as dificuldades políticas de Lula.
A previsão mais contundente veio durante a discussão sobre a composição do Congresso. Apresentando a afirmação como uma percepção pessoal, Vilmar disse acreditar que o presidente não concluiria um eventual novo mandato.
“O Lula, se ele for reeleito, não vai terminar esse mandato”, afirmou. Ao explicar a hipótese, mencionou obstáculos institucionais e a idade do presidente. Não apresentou informações clínicas que sustentassem a especulação sobre saúde nem apontou um mecanismo concreto para a interrupção do governo.
Na avaliação do professor, o desequilíbrio fiscal poderá ampliar os conflitos políticos. Ele defendeu medidas para reorganizar as contas públicas e distinguiu os embates próprios da democracia de uma ruptura das regras constitucionais.
“A crise institucional é quando você quebra essas regras. Então, eu espero que a gente não chegue a uma crise institucional”, disse.
Apesar de considerar uma mudança no quadro eleitoral pouco provável, reconheceu que o segundo turno permanecia aberto. Também projetou o esgotamento do bolsonarismo e o surgimento de outras alternativas presidenciais em 2030. Sobre Flávio, afirmou acreditar que um eventual governo teria perfil mais moderado que o do pai.
Daniel terá de preservar confiança e preparar a economia
Em Goiás, Vilmar avaliou que a vitória do governador Daniel Vilela no primeiro turno ampliou sua legitimidade e reduziu o ímpeto dos adversários. Ressalvou, contudo, que a oposição continua necessária.
Para ele, o desafio político será preservar a confiança conquistada durante a eleição. Isso depende tanto dos resultados da administração quanto das atitudes e do comportamento do governante.
“Você pode até discordar, falar que não está bem, mas eu confio nele. E a confiança não é só a gestão, os resultados da gestão”, afirmou.
Na economia, apontou a mudança do modelo de incentivos fiscais como um dos principais desafios. Vilmar associou a industrialização de Goiás às políticas adotadas por sucessivos governos e citou sua participação nas gestões do ex-governador Marconi Perillo.
Com a reforma tributária, defendeu que o estado se prepare para sustentar investimentos por outros caminhos. Mencionou ampliação do consumo, melhoria da infraestrutura e qualificação da mão de obra, com atenção às transformações provocadas pela inteligência artificial.
Também afirmou que a maioria parlamentar exige manutenção. Mesmo com uma Assembleia próxima do governo, Daniel precisará de capacidade de articulação para preservar os apoios.
Bruno, Adriana e Aava no horizonte de Goiânia
Ao tratar das eleições municipais de 2028, Vilmar recomendou cautela. Disse que a montagem dos governos e a organização do Legislativo precisarão estar concluídas antes de uma avaliação mais consistente das próximas candidaturas.
Ainda assim, fez uma distinção sobre Bruno Peixoto. Considerou o presidente da Alego um nome eleitoralmente forte para Goiânia, mas questionou sua capacidade de reunir forças políticas.
“Ele é um candidato eleitoralmente forte, que é diferente de politicamente forte”, afirmou.
Questionado sobre as eleições unânimes de Bruno para o comando da Assembleia, com apoio de parlamentares do PT ao PL, Vilmar atribuiu esses resultados a circunstâncias específicas. Manteve a avaliação de que votação e capacidade de articulação não são necessariamente equivalentes.
No campo da centro-esquerda, levantou a possibilidade de uma composição entre a deputada federal Adriana Accorsi e a vereadora Aava Santiago. Não definiu quem encabeçaria a chapa e apresentou a hipótese como exercício de análise, sem relatar negociação.
“Você imagina o seguinte: uma chapa da Adriana e da Aava, uma como candidata à prefeita, outra vice”, disse.
Vilmar elogiou Adriana, que foi sua aluna, e apontou a vinculação ao PT como uma dificuldade eleitoral. “O problema da Adriana Accorsi é que está no PT”, afirmou. Ao ser questionado sobre uma mudança de legenda, ressaltou que respeita os compromissos dela com o partido.
PSD terá de se reorganizar, e Vilmar admite avaliar cargo
Fundador do PSD, Vilmar defendeu que o partido rediscuta seu papel em Goiás e no país. Avaliou que a chegada do ex-governador Ronaldo Caiado respondeu a uma circunstância política e fortaleceu a legenda no estado.
Segundo ele, sem esse movimento, havia risco de o PSD não eleger deputados federais ou estaduais em Goiás. A reorganização que propõe, entretanto, não implica necessariamente a saída de Caiado do comando partidário.
A crítica alcançou a identidade do partido. Vilmar afirmou que legendas sem programa consistente terão dificuldade para atravessar os próximos ciclos eleitorais e incluiu o próprio PSD nessa discussão.
“O centro não tem um discurso para encantar o eleitor”, disse. Como uma possível bandeira, citou a defesa do voto distrital. Também afirmou que não havia, naquele momento, perspectiva de federação, fusão ou incorporação envolvendo o partido.
Sobre sua participação no Executivo, relatou que recusou integrar o governo Caiado e indicou Francisco Júnior para a presidência da Codego. Corrigiu a informação de que teria apresentado três nomes: disse ter indicado apenas o ex-deputado.
Diante de um novo convite, a resposta mudou. “Eu ia pensar”, afirmou.
Vilmar admitiu aceitar uma função, mas ressalvou que não reivindica cargo e que as conversas ainda não começaram. “Quem ajuda a eleger, ajuda a governar”, disse, acrescentando que essa contribuição pode ocorrer fora da estrutura administrativa.
Mauro Borges vence o duelo
No encerramento, Vilmar participou de um duelo eliminatório entre lideranças políticas de Goiás. Escolheu Henrique Santillo na primeira rodada, diante de Iris Rezende, e passou a manter Mauro Borges a partir do confronto seguinte.
O ex-governador permaneceu como sua escolha até a última disputa, com Ronaldo Caiado. Ao justificar o resultado, Vilmar atribuiu a Mauro Borges as bases da estrutura administrativa e econômica que sustentou o desenvolvimento goiano nas décadas seguintes.
“Foi o único governador estadista que nós tivemos na história política de Goiás”, declarou.
Vilmar reconheceu a contribuição de outros governadores e destacou a modernização promovida nas gestões de Marconi Perillo, das quais participou. Para ele, porém, os fundamentos dessa trajetória foram construídos no governo Mauro Borges.

Domingos Ketelbey
É repórter, colunista e apresentador. Conecta os bastidores do poder, cultura e cotidiano na cobertura jornalística.
Continue a leitura







